Mostrando postagens com marcador Sexta Temporada. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Sexta Temporada. Mostrar todas as postagens

11 outubro 2017

Pássaro


Voando. Sem precisar dizer que está voando.
Amando. Sempre dizer que está amando.
Sofrendo. Sem dizer que está sofrendo.
Morrendo.

Tão leve aqui na palma da minha mão. Tão silencioso. Tão frágil.
Os olhos pedem misericórdia por pecados passados.
Úmido como o meu cabelo depois do sereno.
A se debater pra não morrer.

Tem algo de belo no voo do pássaro.
Ele não olha para trás, é isso.
Segue em frente, rompe o vento,
Se mantem firme contra a gravidade.
Tem algo de mágico no seu cantar.
É natural. Da natureza em sua forma precária.
Acorda a alma humana para as importâncias,
Pelo menos ainda há alegria.

04 outubro 2017

Gato



Você me olha desconfiado, se esgueira pela casa sempre que eu chego. Se eu entro em um cômodo você corre para o outro. Às vezes eu nem te vejo. Outras vejo só sua sombra rápida, atlética, noturna. Eu vivo a minha vida sendo observada por você, eu tenho certeza. Mesmo que você não tolere a minha presença, mesmo que você sempre se afaste, eu sei que em algum lugar você está me olhando. Eu posso sentir seus olhos desconfiados. E eu respeito a sua decisão de não se render a mim e ao meu amor. Enquanto isso sigo enchendo você de comida, de água, de leite e espalho brinquedos de plástico pela casa. Enquanto eu transito de um lado a outro, eles continuam por lá, exatamente onde sempre estiveram. Então eu vou dormir e quando acordo a luz do novo dia já mostra a casa redesenhada. Você deixou a sua marca, mudou tudo de lugar, mesmo que delicadamente. É só o que eu preciso para saber que você ainda está aqui. Que você ainda não desistiu da gente, só está escondido atrás de uma almofada ou de um vaso de planta. Eu me arrumo pra sair pro trabalho sentindo os seus olhos me seguindo. Em algum lugar eu sei que você está, mas já passamos por isso tantas vezes, sei que não vale a pena te procurar. É seu jeitão de me amar, assim distante, invisível. Afinal, se você não me amasse, já teria pulado pela janela da cozinha. Ninguém fica tanto tempo apenas por comida.

27 setembro 2017

Bairro do Flamengo


Eu ando pelo bairro do Flamengo, admirando os canteiros, sentindo a umidade do ar. Eu ando pelo bairro do Flamengo e vejo os meninos a me admirar. Eu ando pelo bairro do Flamengo, nas minhas mãos uma pipoca, um picolé ou coisa que o valha. As crianças indo para a escola. Os caminhões de entrega do Zona Sul. É cedo quando eu ando pelo bairro do Flamengo. Às vezes tem uma neblina fina, uma névoa geladinha que vem da praia. E os prédios altos e as árvores. A calçada do Belmonte, o aterro. Aquele vento forte bate no meu rosto e balança meu cabelo curto. Me sinto um anjo levitando. Sou capaz de parar entre as pistas e passar o dia ali, vendo a movimentação. Taxis amarelos passam zunindo por mim, de um lado e do outro. O barulho vai aumentando. A cidade vai passando pelo bairro do Flamengo, do mesmo jeito que eu um dia passei. E quando eu penso em fincar o pé no gramado, percebo que ainda estou no ar. Um ar agora iluminado por um sol quente e radiante que vem lá de trás do mar. O sol aquece a minha pele, aquece o meu cabelo, os meus olhos. Eu os fecho e sinto o bairro do Flamengo me transpassar enquanto espero a noite chegar. E no deserto do aterro, nas calçadas vazias e escuras, passam pessoas que me olham, que me amam, que me beijam, que me transam. Nas pistas passam os ônibus, os taxis, os carros. Em mim passa o bairro do Flamengo.

20 setembro 2017

Meninas


Quando éramos meninas, você tinha mania de escovar os meus cabelos e de cheirá-los com paixão. Hoje eu sei que era de paixão o seu olhar que eu via refletido no espelho do quarto antigo da minha avó. E você então fechava os olhos, como quem se esforça para gravar na memória aquele cheiro, mesmo que no dia seguinte você me tivesse ali, a sua disposição. Quando éramos meninas brincávamos de ser casadas, mesmo que na época nada tivesse realmente um significado. Era só nossa vontade de ser menos menina, de crescer. Encenávamos brigas e reconciliações para evitar um divórcio desastroso como o dos seus pais. Quando éramos meninas acreditávamos no amor, apesar de não acharmos que o amor tinha tudo a ver com os beijos escondidos debaixo do lençol que dávamos quando dormíamos na mesma cama. Quando éramos meninas, os verões eram menos quentes e mais agitados. Corríamos. Ainda posso ver seu cabelo ondulando o vento, deformando o ar. Tomávamos banho de cachoeira e trocávamos carinho. Quando éramos meninas, nossos dedos eram menores, no entanto mais sujos. Sempre manchados da terra de um terreno no qual construíamos as casas dos nossos sonhos, nas quais só cabiam nossos bonecos de revista. Eram menores, no entanto menos sensíveis. Nos feríamos com unhas mal cortadas e nos infectávamos com unhas ruídas. Quando éramos meninas, ninguém era mais bonita que você, na minha opinião. Gosto de imaginar que eu era a pessoa mais bonita para você. Era o que diziam os seus olhos enquanto você escovava os meus cabelos. Eu passaria horas só a te olhar até cairmos na gargalhada e rolarmos de rir. Quando éramos meninas, sentia que você me amava e nunca mais senti isso de ninguém. Eu te amava também, sem nem saber o quanto eu podia amar alguém.

13 setembro 2017

Da liberdade



Aqui eu sou livre para ser o que eu quiser.

Posso ser menina, posso ser menino, posso ser gente, ser fruta, ser material de construção, material escolar, material para um texto. Posso ser ponto, vírgula, letra maiúscula ou minúscula, parágrafo, prosa, poesia, silêncio, vídeo, foto, ficção, desabafo. Posso ser pássaro, uma revoada. Posso ser riso ou choro, ou prédios do Rio. Ou de São Paulo. Posso ser capital, cachoeira, praia, boia, biquíni ou banhista. Posso ser folha, ser flor, ser galho. Posso ser pássaro em cima de um galho. Posso ser comida ou comido. Posso comer ou beber, tomar banho, dormir, acordar, pentear o cabelo ou não. Posso gritar ou FALAR BEM BAIXINHO. Posso ler ou escutar, fazer, trazer, cantar, chorar e rir. Posso rir e posso amar.

Ah, como eu amo por aqui. Muito mais do que eu amo em qualquer outro lugar.

Posso amar o céu, o mar, minha casa, meu café, sua rede, seu gato, nossa música, nossos livros e os livros dele. Posso amar o pé, o corrimão, o armário, os ovos, as tigelas, a manta, o verde da parede e a luz que entra na janela de manhãzinha. Posso amar o vapor que sai da minha boca em agosto, as estrelas cadentes que eu imagino, as canções de Chico que tocam sem parar. Posso amar como eu imagino você vindo na minha direção, dançando. Ou o balanço que suas pernas fazem ao dançar.

Aqui sou livre para amar o que eu quiser.

29 agosto 2017

Cinema independente



Eu imagino sua vida como um filme independente. A fotografia fria, meio desfocada, um roteiro conciso, objetivo, com pouco diálogo. Algumas cenas de nudez, algumas piadas despretensiosas, mais ou menos como as piadas que se fala no dia a dia. Uma cena de noitada aqui, uma festa de amigos ali. Entre elas um monte de cenas em um apartamento pequeno e decorado da maneira mais cool que se possa imaginar. É para lá que você leva seus garotos e os beija sem o compromisso de uma relação. Ainda que eu saiba que sobra em você um pouco de romantismo, eu te imagino cínico. Eu diria sem esperanças, mas a verdade é que você só é adulto. Nesse cenário, você sabe que qualquer intensidade é puro artifício de filme ruim, então você leva a sua vida como se ela não fosse real, definitiva. Você bebe café e fuma um baseado. Isso ajuda a passar o sábado mais rápido. Vê um filme em casa, come mal, toma banho e usa o telefone celular para encontrar seus amigos. Você não trabalha porque não é esse tipo de filme. Ou trabalha, mas não tem muita importância. É um estilo de vida jovem, europeu, que só faz as coisas andando. Ou de trem. Não é muito consumista, gasta com viagens, onde você conhece outros garotos, ama outros garotos, esquece outros garotos. Tudo se passa em no máximo uma hora e meia. Momentos silenciosos, uma trilha sonora discreta. No fim, uma música de uma banda indie que ninguém conhece. Ousado na medida certa, real de modo que a audiência se identifique, legal para virar um clássico hipster. Quem liga se ser hipster já saiu de moda?

22 agosto 2017

Preta



Sentaram na beirada da fonte artificial e não havia nada mais artificial do que o ar que os rodeavam. Trocaram palavras de desabafo misturadas a palavras de encorajamento. Ninguém percebia naquele momento a importância daquelas palavras. Foi automática a cumplicidade, mesmo que as palavras fossem tão diferentes. No fundo tocava uma música e então eles estavam na pista de dança. Rodeados daqueles corpos que um dia conheceriam. Como eram inocentes aqueles dias! Beberam, riram, dançaram. Em uma época pré Instagram Stories ainda era possível se divertir com um desconhecido. Ninguém jamais irá lembrar se houve carona, quem pagou a conta e se marcaram outro programa para celebrar aquela estranha amizade. Ninguém jamais lembrará se alguém voltou bêbado, se houve briga no estacionamento, se esbarraram com alguém doido de cocaína. Arrisco a dizer que ninguém nem ao menos lembrará das músicas que ouviram, das conversas, do sabor artificial do ambiente perfumado. Será que alguém lembra ainda das palavras, dos desabafos, da fonte?

15 agosto 2017

Aqui



Parece que éramos só eu e você os normais no meio desse oceano de músculos e porra em que vivemos. Não é à toa que grudei em você. E que seguimos até hoje mais ou menos assim. Mesmo que eu não te veja, nem fale contigo. Ainda lembro daquela sensação de exclusão que tínhamos naquela época. Ninguém por aqui parecia dar importância para as coisas que dávamos. Ninguém falava nada próximo à nossa língua. E ainda é assim. São vários corpos malhados. E, quando não são malhados, são vidrados nesses corpos malhados. São vários corpos mortos e estúpidos, falando besteira, agindo com o rei na barriga, mascando chiclete e rindo da maneira como eu masco o meu chiclete. É tão hostil que não dá mais vontade de sair de casa, mais ou menos como você se sentia quando eu só ignorava tudo o que acontecia por aqui. Eu lembro que a gente tentava. A gente dava chance para não ser acusado de elitista, de arrogante. A gente chegava simpático, aberto. Até sentir que olhavam para a gente como se a nossa testa estivesse suja de cocô. Ainda é assim. Todo mundo só fala de sexo e de comida vegana. De sol, de festas e de Britney. Todo mundo se acha muito bom porque assiste série ruim, porque vê o filme da moda e porque não tem espinha no rosto. Porque mora bem, porque tem um emprego e tem disposição para sair sexta, sábado e domingo. São tantos corpos em camisas floridas, calças jeans rasgadas, segurando iPhones em uma mão e um drink doce na outra. Eu fico me perguntando se você mudou, se por aí você se juntou a caras assim. Se é que tem caras assim por aí. Às vezes eu acho que só aqui para as pessoas serem assim. Eu prefiro nem saber. Se for o caso nem me responde. Não é como se a gente tivesse que ser os underdogs para sempre. Mas não quero imaginar um lugar em que você ria de alguém como riam da gente. Que você cochiche falando mal de alguém deslocado, que se vanglorie das suas realizações e das suas transas. Eu prefiro nem saber. Prefiro manter você como você era aqui, aquele que não se encaixava, que não combinava, que tinha desprezo por esse tipo de gente superficial. Pode ser bobeira da minha parte, egoísmo não permitir que você mude. Mas por aqui tem tão pouco para mim, ainda hoje, que eu acho que eu tenho o direito de ser assim.

08 agosto 2017

Errado



Então eu estava errado quando dormimos na mesma cama. Quando você reclamou da sua namorada. Quando assistimos pornografia juntos. Quando você tirou sua roupa na minha frente, ainda um pouco excitado, e entrou no banho. Eu estava errado quando você me chamou para tomar banho com você. Quando ficamos nus e molhados. Eu estava errado quando você me confessava em segredo que só eu te entendia. Que eu era a sua pessoa favorita. Eu estava errado quando percebia tantas coisas em comum entre a gente. Quando passávamos horas conversando no telefone. Quando planejávamos viagens juntos para conhecermos os lugares que sempre sonhamos conhecer. Eu estava errado quando decidimos passar metade do dia juntos, diariamente. Quando você ainda queria passar umas horas a mais. Estava errado quando achei que você tinha saudades de mim quando foi exatamente isso que você disse. Eu estava errado que nossa relação era estranha. Que uma simples amizade não funciona desse jeito. Eu estava errado quando achei que o que a gente tinha era mais do que amizade. Eu estava errado porque sonhei que um dia tudo ficaria claro entre a gente. Que iríamos ficar juntos para sempre. Que uma história como a nossa não acaba mal. Eu estava errado quando decidi me abrir para você. Estava errado quando achei que você me olharia com ternura e o que eu vi no seu rosto foi raiva. Quando vi no seu rosto uma raiva de mim que nunca vi você sentindo por ninguém. Estava errado quando achei que eu era especial. Quando achei que você só precisasse de tempo para se entender. Quando esperei um carinho imediato seu. Eu estava errado quando deixei que você visse a minha mais verdadeira face. Quando falei tudo o que eu precisava falar. Estava errado por ter te dado um ultimato. Por ter achado que eu sairia vencedor dessa negociação. Que você dormiria mais uma vez do meu lado. E mais uma vez. E mais outra vez. Então eu estava errado.

01 agosto 2017

Do armário



O armário é real. E são muitos. Um dentro do outro, como uma matrioska. O armário é infinito. A primeira porta que minha cara bateu foi aquela que meus pais implantaram sem nem perceberem, dizendo que menino faz isso e menina faz aquilo. Mas eu era só um menino querendo fazer coisas de todos os tipos. A segunda foi quando eu me apaixonei pela primeira vez e mal sabia ler e escrever. Escrevi que amava e fui pego no flagra. Aquilo não estava certo. Depois veio a porta da vergonha, do constrangimento, da humilhação. Por causa do meu tom de voz, da maneira com que eu me sentava ou que eu mexia meus braços. Descobri que eu tinha de ser mais rígido comigo mesmo do que eu vinha sendo. Literalmente. Não bastava me negar meus amores inocentes, nem minha vontade de me expressar. Eu precisava agir de um modo diferente do que eu agia espontaneamente. Nessa porta eu fiquei preso por anos, falando baixo, sussurrando para as vidas transparentes que me rodeavam. Sobras de vida. Sombras. Encontros escuros, decepções, mentiras e então quebrei a porta de fora antes quebrar a porta de dentro. Essa porta eu só quebrei com a minha cara transfigurada, inchada. Sangrando. E quando achei que veria a luz do dia, o que vejo é mais uma porta. Veio a porta dos meus amigos que só estava encostada. A porta da minha mãe, que eu abri com um giro leve na maçaneta. A porta do trabalho, que tive de destrancar. Tudo com elegância, sem fazer força. Mas aí vem a porta do medo, da notícia que diz que matam meninos, que os espancam, da estatística, dos absurdos das redes sociais, dos comentários dos portais. Estou preso na minha própria porta agora, tentando achar uma maneira de abrir e de entender quem sou. Vai saber o que tem lá fora? Provável que sejam outras portas. Vai saber a dificuldade de passar por essas novas portas? Futuras. Não sei. Mas a curiosidade e a necessidade de viver, de respirar, me dão ânimo para não fraquejar. Eu não preciso de mais portas. Mas preciso sempre ultrapassá-las.

17 julho 2017

Karma



Sempre esteve escrito nas estrelas, desde o dia em que você nasceu, através da posição dos astros, não adianta mudar a posição em que as pedras de búzios caiam, a lua determinou. Não adianta simpatia ou macumba, nem apelar para deuses escusos, nem pra deuses conhecidos. Não queira correr, é seu destino, é seu karma. O zodíaco é claro, bem como o horóscopo chinês e as linhas que se formam na sua mão. Não discuta, não insista, não faça barulho. Aceite os sussurros divinos dizendo o que eles decidiram há séculos atrás. O caminho da sua alma penada está traçado e provavelmente documentado em algum papel escondido, talvez nas costas de alguma carta do seu baralho velho, na nuvem quase opaca que se forma ao seu redor, onde está sempre chovendo. A chuva também tem seu motivo. Não abra guarda-chuvas, não chame por nomes de surdos, não leia de cabeça para baixo, não ouça ao contrário. De que vale acender velas e se ajoelhar?, de que vale fazer preces?, de que vale se vestir de branco? Está tudo decidido há milênios, já é conhecido de trás pra frente em todos os estados, em todas as borras de todos os cafés. Escute o vento que aos poucos te empurra do precipício e não resista a cair pois, acredite, lá embaixo há uma cama elástica cheia de pétalas de flores, cheia de corpos transados para que seu futuro seja de risos e sexo.

10 julho 2017

À distância



Não importa quão longe eu vá. O meu amor vai estar ainda distante. Hoje ele está em Búzios, de shorts e cabelos ao vento. Eu estou aqui, sentindo o vento das Minas Gerais. Aquele vento que tem voz grave e assustadora. Ou é isso, ou é a solidão aqui no meu quarto, enquanto eu converso com ele pela tela do meu computador.

Às vezes penso que eu não tenho mais idade para isso, lidar com um relacionamento sem ter carne e sem ter osso. Às vezes eu acho que é o vento que berra isso tudo nos meus ouvidos e me deixa louco. Não sei até quando suporto ser louco e sozinho. Não sei até quando suporto imaginar as praias que sopram o vento do lado de lá do meu amor, enquanto eu só sinto o vento dos vales daqui.

Entre uma briga e outra, que eu acho que existem pra manter esse amor distante ao menos vivo, nós dormimos. Eu gostaria que ele deixasse a tela ligada, pra que eu pudesse ver quando a pálpebra dele pesasse. Ver quando o dia dele terminasse. Só então, à distância, eu poderia terminar o meu.

03 julho 2017

Vegas



Foi depois de ter entrado no dark room, de ter tocado em várias pessoas, de ter sentido suas peles úmidas e suas unhas. Depois do beijo doce, do cabelo fino. Depois de achar que o cabelo era branco, porque de alguma maneira doentia lembrei do cabelo da minha avó. Veio a língua áspera no meu pescoço e a quantidade de doenças bucais que eu listei naqueles segundos na escuridão. Possibilidades. Ah, as possibilidades!

Eu me lembro de como a parede caiu quando você gemeu e de como minha camisa ficou suja para sempre. Bêbado, eu saí dali, saí dele. Extasiado, iluminado, sentindo o cheiro de cigarro e de perfume importado. Sentindo o cheiro de suor, sentindo a energia das pessoas que cheiravam cocaína, que pairava no ar. Eu me lembro de ter girado, de ter olhado todos os rostos, da stripper no palco, dos pentelhos ruivos, em brasa. Eu me lembro de ser visto por você, lá no canto. Dos seus olhos meio caídos, alcoolizados, desistentes, sentados. Eu me lembro do tecido da poltrona, do vinil, do barulho do vinil, do cheiro, do suor. Eu me lembro do seu suor e da música que estava tocando quando eu sequei sua testa. Eu me lembro da vontade de te beijar, da vergonha de te beijar, daquele momento que precede os grandes acontecimentos que costumam nunca acontecer na minha vida.

Eu sempre me lembro desses momentos.

26 junho 2017

Gouinage



Eu o encontrei no ônibus, entre o banco de número três e o de número cinco. Era uma época em que eu adorava andar de ônibus, justamente por causa da chance de encontrar no ônibus tipos como ele. Ele era magro, mas não exibia fome alguma nos olhos rosados que ostentava no rosto fino e ossudo. Ele todo era ossudo, pude ver por baixo do algodão preto que lhe cobria o peito com finos e curtos fios de pelo que cresciam desde que ele tinha doze anos, lá no interior de São Paulo. A cabeça longa começava num queixo sem forma, com alguma barba já crescendo, e terminava numa cabeleira comprida, mas rala. Preta. Ele me falou com a voz enrolada que queria tomar um café na minha casa. Eu nem sabia seu nome. Quando descemos, no ponto aqui perto, já tinha sol nas nossas cabeças e ele me olhava com aquele ar de inebriado que a noite passada lhe dera. Olhava-me como se eu fosse de outro planeta, pé ante pé, sorria bobo e espremia os olhos para me enxergar ou para deixar de me ver. Descemos a ladeira em silêncio. Talvez ele estivesse pensando na dificuldade que seria descer a rua de pedras depois de tanta noite na cabeça, pé ante pé. Eu pensava na falta de café aqui no armário. Pensava no contorno que a perna magra dele tinha debaixo do jeans, no caminho de pêlos que lhe subiriam até o umbigo e que causariam ali naquela região um tornado, um furacão. Pensei na pele dele despida e quase gemi vendo um trechinho branco, quando ele levantou o braço e apoiou-se na parede do corredor, cansado. A porta estava mais uma vez aberta, como sempre está aberta para quem quer tomar um café. Naquela manhã, tomamos café no meu quarto, ainda que não tenhamos comido nada.

19 junho 2017

Do mundo



Nasci no mundo e sou feito de carne e osso. O que junta a minha carne ao meu osso é esse meu eterno estado de solidão, que é típico desse maldito mundo. Esse mesmo do qual faço parte. Onde, de tempos em tempos, ecoa a minha gargalhada, que eu nem me lembro ser minha mais. Por um minuto, um minuto que parece mais veloz que os minutos normais, o mundo se abala, minha carne se solta, prevejo o caos frente à falta de estrutura. Quando olho ao meu redor, não vejo viva alma, tremendo dos pés à cabeça como estou. Sobem fantasmas com corpos perfeitos, sorrisos maliciosos, olhos úmidos. Eles me olham com fome, mas só com fome, que também é típica desse maldito mundo. Por um minuto, o mundo vira um paraíso e eu até vejo motivo em ser desse mundo de novo. Sinto o prazer desse mundo e dos outros malditos que também são dele. Então ele some, o mundo. E eu fico de novo sem dono, perdido.