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19 outubro 2014

Night Club


Não durmo há oito meses porque tenho medo de fechar meus olhos e nunca mais me acostumar com as luzes fluorescentes que piscam na noite lá fora. Às vezes preciso de um descanso, mas tenho medo de parar para descansar e nunca mais me levantar. Eu vivo ouvindo as vozes estranhas e rindo sorrisos vazios para pessoas que não sabem se comunicar comigo. Pode ser que nem eu saiba me comunicar comigo hoje em dia. Culpa da falta de tempo, aquele tempo que eu usava para comer pão na chapa, beber café com leite e ler o jornal de domingo pela manhã. Agora eu não vejo o sol, porque estou trancada num quarto de motel com algum desconhecido. Espero que ele pague meu taxi na volta e que ele não peça para dividir a conta só porque eu bebi uma latinha de Pepsi do frigobar. Enquanto eu retoco a maquiagem, eu penso no sapato que vou usar na noite seguinte e no tipo de cara de paisagem que vou fazer durante a noite quando encontrar aquele cara com quem eu dormi num desses fins de festas e que nunca me retornou. Aquele até seria um bom namorado. Por ele, eu abriria mão das luzes das boates.

14 setembro 2014

As noites


E todas as noites me trouxeram aqui. Todas as músicas, todas as roupas, todos os lenços sujos. E eu nunca liguei realmente por estar sozinha porque eu me divertia com todos os que estavam comigo. Eu bebia, eu dançava, eu transava. Fazia tranças que atavam os meus cabelos aos de todos eles e, por isso, não nos separávamos nunca mais. Eram todas aquelas noites de cantoria e amor que faziam a minha felicidade. Era a voz do cantor do rádio, o sabor dos cigarros, o cheiro da multidão.

Eu nunca tive o que reclamar porque quando eu fechava os braços ao meu redor, pegava os corpos que dormiam espalhados em pé. A minha volta eram montanhas de roupas e sapatos, eram as noites de trovadores, eram os rastros. Passos de crianças que deixávamos nas areias para que soubéssemos voltar de onde tínhamos vindo. Era a doçura da juventude sem saber o quê ou o porquê.

23 maio 2014

Teresa


Teresa só pensa naquilo. Por aquilo leia-se pães de mel e dormir grudado sem roupa. Fui capaz de levar a situação o quanto pude até que me faltou força física. Muito antes já estava esgotado de ouvir seus gemidos e maquinar uma maneira de, na noite seguinte, controlar aquela mulher. Ela vivia dizendo o que queria. Um corpo colado ao seu durante toda a noite, acordar sendo beijada na parte interna da coxa, sentir perfume e suor nas primeiras e últimas horas do dia. Entre tudo isso, pedia por um caminhão de pães de mel. Implorava até. Seus dedinhos frágeis tremiam todos quando eu me deitava. Em menos de cinco minutos tamborilavam sobre minhas costas. Por muitas vezes ignorei até pegar no sono. E Teresa chorava ali do lado, se contorcia, não se segurava. Outras vezes cedi, mesmo a contragosto. Valia a pena por uma noite de sono bem dormida, sem as lamentações daquela alma perdida. E quando a encontrava, no fim do dia antes da janta, estava sempre com aquele olhar seco e vazio. O rosto sempre meio corado e a pele que ardia em febre. As unhas sujas de doce até que ela as lambia e pedia por mais.

14 maio 2014

Meu Amor



Você foi quem eu mais amei. Hoje a noite, antes de fechar meus olhos e dormir, acabei aceitando isso. Por mais que pareça antigo, ultrapassado e doentio, eu não encontro outras palavras para isso que eu senti por você, que às vezes acho que ainda sinto. Se não sinto com a mesma intensidade, sinto de alguma maneira. Alguma maneira meio louca, estranha e sem explicação. Eu sei que toda vez que lembro da sua voz e do toque áspero do seu rosto que por poucas vezes toquei, ressuscito o fantasma do meu amor por você e de repente não existe mais ninguém. Nem nunca existiu. É como se todo o resto que passou por mim e todas carícias, todos os toques e declarações de amor não tivessem significado algum. Nesse meu quarto, no qual ainda tento dormir e superar a sua falta, só sobra espaço para você, meu amor. Não me julgue pela minha loucura depois de todos esses anos. Desisti de me controlar porque acho que os anos vão passar e as letras do seu nome não vão sair da minha língua. Meu idioma é você. E não há loucura que me cure.  

07 setembro 2011

Dark room


De repente os olhos se fecham e só o que se sente é o cheiro de cigarro misturado ao de suor alcoólico daquela noite. E como toda noite é escura, os outros sentidos se aguçam nas pontas dos dedos da mão e nos fios de cabelo.

Quando sente a mão puxar os fios de cabelo tão ralos e finos, parece puxar dentro de si a noite escondida e toda a escuridão daquela noite. E como os olhos estão fechados, o que enxerga é o halo que semeia em seu peito cabeludo, debaixo dos anos que se passaram.

É como se todas as luzes se apagassem, consumidas pelas mordidas úmidas. As costas suadas e o toque do suor, que desce correndo pelo corpo trêmulo e escuro. Tomados pelo gozo combinado, aquele seca o corpo e banha a camisa xadrez.

Se o cheiro fosse suficiente. Se o toque dos dedos dissesse algo. Se o gemido e o elogio pudessem ser sentidos.