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19 maio 2010

Socialista


Ajudar os pobres era sua função de vida. Ela os pegava na rua, levava para seu apartamento, dava-lhes postas de salmão e copos de vinho. Bancava os programas a dois, a três e em comunidade. Bancava a erva que fumavam juntos em ocasiões especiais.

O que pedia em troca era um pouco de atenção, uns beijos na boca, submissão, carinho e algumas noites de sexo. Não os tratava como superior, ela gostava de se sentir igual, afinal vivia numa nação socialista.

O que pedia em troca era um bom cabelo crespo, mantido a base de falta de banho e, se houvesse banho, falta de shampoo. Não falava o que queria com todas as letras, só deixava a entender quando servia o almoço do dia.

Levar meninos carentes para casa era sua função. Não via graça nos que conseguiam pagar sua própria passagem de ônibus, ainda que não gostasse de ser assim. As tentativas de levar meninos auto-suficientes para casa foram todas fracassadas.

Mendigos carregavam nos olhos um pouco do que é genuíno e carioca. Mendigos eram a alma das ruas por onde passava e a voz dos discursos políticos que ela ouvia. Mendigos declaravam poemas que ela não conhecia e isso já bastava. Isso e o bom cabelo de dread grudado num couro cabeludo de pele escura.