Mostrando postagens com marcador Velho. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Velho. Mostrar todas as postagens

20 junho 2014

Ainda não fiz 40


Ainda não fiz quarenta mas pareço um velho. Daqueles que se lembram de quando não existiam as prestações da casa e do carro. Que sentam na beira da praia e passam horas com um desconhecido contando as aventuras dos vinte anos em tantas noites que essa cidade proporciona. Hoje em dia passo a noite sentado vendo os meninos andando pra lá e pra cá atrás de sexo segurando um drink colorido.

Ainda não fiz quarenta mas tenho um monte de dor nas pernas e incontinência urinária. Algumas vezes fica impossível não passar vergonha na frente da possível transa da noite. Na maioria das vezes, nem tenho disposição pra procurar a tal transa e volto de mãos abanando sozinho dizendo que o que eu queria mesmo quando deixei minha casa era uma boa noite de bebedeira com os meus amigos e só.

Ainda nem fiz 40 mas não fico mais bêbado. Não importa o que eu bote pra dentro. Gasto toda a grana que eu poderia gastar naquele mês em uma noite e fumo todo cigarro que a venda dali debaixo oferece mas acordo com os olhos de quem dormiu o sono dos justos.

Não que eu não tenha dormido. Ah, eu durmo. Acho que não fico sem dormir há mais de três anos. É quase religioso. Mas é que dá uma vergonha quando me olho no espelho e vejo toda a minha juventude descendo pelas rugas que o tempo vai trazer pro meu pescoço. 

02 junho 2014

Abraço


O que eu quero agora é um abraço, daqueles que não ganho desde os meus dezessete anos. Os abraços antigamente tinham cheiros de baunilha e laranja misturados e eram tão quentes e frequentes. Lembro de quase todos os que recebi desde então e nenhum deles fez com que eu me sentisse realmente abraçado. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando adormecido e não sente mais abraço de ninguém. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não é abraçado devidamente. Parece que eu me enfiei em um buraco sem corda de salvamento e sem abraço. Por mais que eu tente entender esse olhar de pena que um monte de gente lança em mim como se tivesse o mesmo conforto que os abraços dos meus dezessete anos, simplesmente não consigo. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando menos imaginativo. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não imagina devidamente.

30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez

06 setembro 2010

1900 e antigamente


A gente envelhece quando não liga mais pra bebida liberada e se importa com a hora de ir embora. Quando fica chocado ao ver três meninos se agarrando, ainda que insista em não parecer moralista. A gente envelhece quando é o primo da gente, que tem seis anos, que é fã de Justin Bieber. A coisa só é pior quando você descobre através desse primo quem é o tal Justin Bieber. Envelhecemos quando Crepúsculo, pouco a pouco, toma o lugar do Harry Potter. E quando ninguém mais liga pra ver clipe na MTV. A gente envelhece quando se senta às duas da manhã, antes de tocar todas aquelas músicas da moda e, mais ainda, quando se diverte sentado. A gente envelhece quando deixa de querer comprar revista com pôster e quando pára de tomar Smirnoff Ice, porque cerveja é mais barata e mais gostosa. A gente envelhece quando vê que o primeiro lugar no Disk MTV é de uma integrante do RBD e piora quando percebe que aquele nem é o Disk MTV. Quando percebe que ninguém lembra das Spice Girls, nem do filme delas. A gente envelhece quando fala de novela velha e lembra a abertura. A gente envelhece quando não atura show de rock e volta pra casa sóbrio. A gente envelhece quando, sábado à noite, só tem vontade de dar uma volta na rua e assistir um filme no cinema. Ou quando ficar em casa parece ainda melhor. Quando cansamos do carnaval e dispensamos um beijo numa noitada. A gente envelhece quando dispensa uma noitada. A gente envelhece quando não conhece nenhum ator do elenco de Malhação e quando diz “na minha época era bem melhor”. A gente envelhece quando não entende a bissexualidade das bandas emo que fazem sucesso. Não tem como evitar, a gente envelhece.