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24 agosto 2014

Gargalhando


Ele sabia tudo o que eu pensava e tinha a mania de adivinhar minhas palavras, na frente dos nossos amigos, antes que eu as dissesse. Depois, quando lembrávamos desses momentos, nós dois na mesa do café da manhã de domingo, ríamos. Gargalhávamos por nada e adorávamos gargalhar. Às vezes eu sentia meus olhos úmidos de tanto rir e eu adorava essa sensação. Adorava também ver, a cada dia, um vinco novo no rosto dele e ele dizia que os vincos surgiam de tanto que nós ríamos. Eram dias de felicidade. Esse tipo de felicidade calma que a gente nunca percebe que existe, até que ela não existe mais. Quando eu pegava ele me olhando daquele jeito bobo, admirando o que eu fazia ou falava, eu o encarava. E quando ele via que eu estava encarando ele, com um sorriso torto na minha boca, caíamos na gargalhada de novo porque era o que a gente fazia melhor, rir. Gargalhar.

Se alguém me perguntasse que eu imaginaria ele, rindo comigo desse jeito, depois de tantos anos de adiamento, eu diria que era loucura, mas afinal essas coisas existem mesmo. Quando você percebe, você está rindo sem motivo e chorando de tanto rir. Gargalhando. 

16 junho 2014

Boa noite


Você está aqui, diante de mim, depois de todos esses anos em que não nos encontramos, em que não ouvimos um a voz do outro. Eu sei que você tem alguém ao seu lado. Eu sei que você talvez nem se lembre de mim. Foram tantas coisas que aconteceram entre o dia em que não nos despedimos e hoje. Eu não sei o que dizer ao passar do seu lado. Minhas mãos estão suadas, minhas pernas tremem, meu coração bate acelerado. Seguro a taça com um pouco mais de força do que seguraria normalmente e vou andando na sua direção. Enquanto ando mesmo sem sentir meus pés, penso no tom de voz que quero usar. Quero parecer um corpo sem tensão alguma, como se te ver me deixasse feliz, mas com uma felicidade banal. Nada que me faça perder a noite pensando no seu sorriso. Nada que faça eu te dizer para viver uma outra vida comigo, ainda que isso implique em você largar sua família. Eu aceitaria sua família de qualquer maneira, você não teria de abrir mão de nada. Viveríamos escondidos, viajaríamos para o interior um fim de semana por mês, nos encontraríamos no lado de lá da cidade. E quando estivermos andando de mãos dadas por uma praça qualquer e encontrarmos um conhecido seu, nos afastaremos e fingiremos que não nos conhecemos. Meia hora depois, nos encontramos e nos amamos. Talvez isso fosse a coisa certa a dizer quando eu alcançasse você do outro lado do salão. Você e sua companhia. Dou mais um gole no vinho pra ver se tomo coragem, mas percebo que só o vinho não é suficiente. Estou cada vez mais perto de você. Tanto que já sinto seu cheiro no meio desse monte de cheiros ao nosso redor. Ouço sua voz falando alto alguma coisa com alguma pessoa que nunca vi. Ouço sua risada. Meus olhos ficam cheios de lágrimas, meu estômago revira e meu coração parece revirar junto. Nunca me senti assim. Parece que vou morrer ao te ver. E quando o pensamento da morte passa pela minha cabeça, aí seus olhos me acham. Agora parece que não resisto, justo quando você sorri para mim como quem diz “Quanto tempo!”. No meio do desespero, do medo, do nervosismo e da dor de estômago aguda, esboço um sorriso no meu rosto. Tenho certeza que não é meu melhor sorriso, tenho certeza que não pareceu tão sensual quanto eu gostaria que fosse. Meu primeiro sorriso para você em anos, a primeira vez que nos vemos. Quando chego tão perto que posso te tocar, não me seguro e te toco, desses toques que parecem ocasionais e que não despertam atenção alguma. Um toque de leve no cotovelo e, ao sentir sua pele, parece que todos os meus poros que vinham adormecidos se acendem. Sinto o meu coração ficar quente e a minha pele brilhar. Meus olhos sorriem mais do que minha boca. Da sua boca vem o som que há tanto tempo espero ouvir.


30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez

12 outubro 2011

Eu sou


Eu sou e não adianta mais fingir. Vem sorrir do meu lado que é bem mais legal desse jeito, baby. Vem dar a mão pra mim pra gente ir sorrindo na cara de todo mundo por aí, enquanto desfilamos com o que somos, eu e você. Sou porque é o melhor jeito que encontrei de ser e o que me resta na verdade é rir de tudo isso, rezando pra que no fim você ria junto comigo desse jeito meio gargalhada, perdendo o fôlego e se afogando em alegria. Essa alegria que é da gente e que eu sou.

Sou um só que não se esconde, mas que também não precisa ser a todo momento. Sou isso de acordar e dormir e sorrir nos intervalos pelo simples motivo de ser. Sou essa mágica que as pessoas acham que não entendem, mas que vive na nossa cara todo dia. Sou esse truque de felicidade e de cores.

Vem ser comigo isso que eu sou, ainda que você não seja. Vem me acompanhar nessa estrada de tijolos amarelos, vem brincar de ciranda o resto do dia porque do jeito que sou, sou até verão. E gosto de ser, gosto de ter, gosto de ver.

30 setembro 2011

Sorria


Porque acordei hoje com a nossa canção, sorri. Aquele sorriso frouxo com os olhos inchados por tanto ter chorado na noite anterior. Chorei de rir, isso sim, quando você me fazia cócegas e deitava sobre o meu corpo totalmente nu. Tomamos café da manhã juntos naquele dia e isso me fez rir o resto do dia, isso e o beijo que você me deu quando ia embora da minha casa com meu casaco, indo para o trabalho. Saí de casa às duas da tarde e só de ver a cor do sol sorri, olhando para o céu. Caminhei a calçada toda olhando para o céu, sorrindo para as cores que estavam por ali. E quando me cansei do passeio, quando senti saudades de você, voltei a sorrir. Lembrando da noite hilária que tínhamos tido, disquei seu número e esperei atender.

Sorri porque não sinto vontade de fazer outra coisa com a boca que não seja sorrir. Ou quem sabe beijar você até amanhecer, contando com a sorte de que a madrugada demore dessa vez mais tempo do que costuma demorar.

24 julho 2010

No ar


Essa é daquelas fases que eu ando sempre uns três centímetros acima do chão. E não é só pra me vangloriar do que tem acontecido, é porque eu simplesmente não consigo me segurar perto da terra. Eu flutuo. Eu deixo os meus dentes, que nem são tão bonitos do lado de fora da boca. E a minha boca se estica de uma orelha à outra orelha. Tinha tempo que esse fenômeno não era visto. E é raro. Eu tenho vontade de colocar óculos escuros e nem penso em começar uma dieta, mais um sinal de que as coisas andam bem, de que eu ando ocupado com tanta flutuação. Ando falando feliz com a minha mãe, sem tempo para a internet e os amores de internet. Sem tempo também para os amores imaginários. Eu ando vivendo. Eu flutuo vivendo. Quase tão alto quanto o mais alto dos que podem flutuar. Só me falta um cabelo que cresça pra cima. Ou um cabelo crescido. E é desse jeito que eu sigo no ar. Respirando aquele que é menos poluído e os que não curtem Ivete Sangalo. Porque posso estar nessa fase, mas na minha fase não entra Ivete Sangalo. Não entra mais um monte de gente, ainda que eu flutue bem alto, que eu impressione. Simplesmente tem coisas que nunca mudam. É como se o caminho para o mundo da lua mudasse toda vez que a gente entra nesse tempo. Isso não acontece. O mundo vive sempre no mundo da lua. É como quando a gente descobre como chegar lá. É só uma maneira de se assegurar.