Mostrando postagens com marcador Meninos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Meninos. Mostrar todas as postagens

09 outubro 2011

Noite dos meninos


Não se controlavam de tão eufóricos naquela noite. Tiraram as maquiagens de dentro dos armários, despiram-se de suas roupas de brechó e começaram a flertar com suas imagens refletidas no espelho do quarto.

Uns se equilibravam em cacos de vidro sujos de vinho que deixaram na noite anterior, outros se cortavam pouco a pouco num prazer estranho pela sensação de morrer.

De olhos contornados, braceletes exibidos e pés jogados para cima naquela cama leve como uma nuvem, os meninos disseram as palavras que guardavam em seus bolsos, nas jardineiras que outrora vestiam.

Orgasmo.
Skittles.
Cotonete.

E seguiram pela noite adentro embebedando-se e cruzando os dedos, uns com os outros, de modo que só se largavam quando o campo magnético que os unia fosse então desfeito. Tatuaram-se com o resto de coca-cola que sobrou da orgia da semana passada e se mostraram em câmeras escondidas debaixo do colchão de casal.

12 setembro 2011

Quase irmãos


Ali do lado nos encontrávamos e, debaixo da cama de montar, dormíamos escondidos, beijando-nos. Éramos como irmãos incestuosos, sem camisas e com shorts de dormir. Era a cama, nosso forte, e a vergonha, nossos chapéus de caubói. E quando cansamos de sermos irmãos, viramos inimigos que vira-mexe encontram-se em ruas escusas e transam os corpos suados e estranhos. Cada vez descobrimos algo. Um pêlo, um braço, um coração. E quando chegamos bem perto, descobrimos que é para ali que andamos voltando. Ali do lado, onde fica aquele quarto todo azul, de cama sempre feita, deitávamos e nunca nos amassamos. Era uma coisa linda, eram dois dorsos verdes.

Hoje, da janela da minha sala, o que vejo é seu dorso bronzeado, suando no sol em abril, lavando um carro como você costumava lavar meus cabelos na pia do banheiro. Hoje, o que temos é nosso fraterno amor estranho, que não conhece os limites do corpo. Talvez nem saiba dar nome às partes.

16 agosto 2011

O grupo fechado


Eles são cariocas e, por isso, são um grupo fechado. São masculinos. São fortes e bonitos. Se vestem bem, moram na cidade e têm trabalhos que pagam dignamente. Vão às festas mais hypes, ouvem as melhores músicas e têm os melhores sobrenomes.

Ai daquele que ousar destruir a perfeição do universo ali ao redor deles. Justo eles, que defendem com unhas e dentes. Aquela casa e aquela camisa de gola V daquela marca que desfila em Milão.

Pior ainda se tem espinha, esse infeliz. Onde já se viu? Justo com eles que são cariocas, com sotaques perfeitamente cariocas e bronzeados importados das ilhas gregas, junto aos tecidos das roupas de reveillon. Se tiver espinha, aí é que não tem chance.

Fecham as janelas dos apartamentos e ligam seus rádios ouvindo canções que ninguém ouve. O telefone sempre no viva-voz para poderem trocar informações daqueles que pretendem romper o cadeado, com aquele sotaque arrastado com cheiro de maresia da praia do Leblon.

11 agosto 2011

Crise

Do que tem medo aquele rapaz ninguém há de saber. Ele guarda para ele e não conta nada. Pode contar até dez, fazer cócegas ou lhe descer a porrada. Descer-lhe as calças e lhe dar prazer também seria em vão. Aquele rapaz continua calado, não se abre, apesar do sorriso nem um pouco fechado. Tem a voz mole e o sotaque acentuado. Fala como quem tem palavras saindo há flutuar em tapetes mágicos. Mas isso é só quando fala. Quando não fala, lança o sorriso, balança a cabeça negativamente.


Não adianta se calar, que ele insiste. Faz beiço, faz graça e se joga no chão. Tira a roupa, tira a língua. Argumenta e perde um tempo com tanto argumento. Não adianta parecer claro, falar com todas as palavras ou simplesmente sorrir. Ele quer ouvir a verdade. Quer saber o que o outro sente. Quer conhecer em meia hora, em meio dia. Chora, ri, se faz de safado. Usa das mágicas que possui. Leva na lábia, joga conversa fora. Tudo pra ouvir. Enrola os cachos nos dedos e depois emenda com uma história qualquer.

08 julho 2011

Cadu


O Cadu também é perfeito, ele pensava enquanto falava do namorado da amiga. No fundo, se iludia achando que o único perfeito era ele próprio, com seus gostos pseudo-refinados em música, cinema e televisão. Com seus livros off The New York Times. Com suas conversas cínicas e engraçadas, um humor carregado de inteligência forçada e medida. Achava que isso era perfeição e que só ele e os personagens de suas séries favoritas tinham nascido com aquele dom. Mas Cadu também era perfeito. Cadu apreciava bons vinhos e fazia academia. Estudara em boas escolas e ouvia samba de raiz. Ele ouvia música clássica e toda semana ia ao teatro. Depois dava uma volta na orla, só pra ver como a noite estava linda. Cadu fumava um cigarro de vez em quando, só quando queria parecer cool e usava a palavra cool com frequência e urgência. Ele achava que, na cidade, ele era o único perfeito, mas enquanto citava Cadu em suas conversas de bar, percebia o quão infantil era pensar assim. Estava cheio de Cadus aí fora, depois do portão de ferro corroído, esperando serem descobertos e até então fazendo dietas, a barba e academia.

05 julho 2011

25 anos



Ainda estão adiando fazer os 25 anos. Como se essa data fosse a filha da puta que te proíbe de ir em congressos de estudantes, encher a cara nas ruas da Lapa e conversar com desconhecidos na fila do metrô.

Bobeira. Eu mesmo vivo encontrando velhinha na fila do metrô puxando assunto. E velhinha bebendo na Lapa então? Não dá nos dedos de um time de futebol inteiro. Mas vai que eles, quando fizerem 25 anos, de repente, se tornem caretas?

Abandonam os brincos pendurados e os projetos de tatuagens que normalmente são horríveis ou de estrelas. Não que as estrelas não sejam horríveis e me desculpe quem tem estrelas tatuadas. Que não sejam no tornozelo, ao menos.

Pode ficar tarde demais para aquele copo de vodka ou whisky e claro que não pode faltar o Red Bull. Esse tipinho só pensa na hora que o limite de Red Bull acabar, mais ou menos junto com os benditos 25 anos. Daí eles terão que se contentar com garrafas de cerveja brasileira, dessas compradas por 4 reais e bebidas em copos de botequim acompanhadas de batata-frita excessivamente gordurosa.

E toda aquela gordura vai ficar ali, congestionada numa artéria ou acumulada debaixo do braço. Não haverá congresso de estudante ou micareta suficiente para tirá-la de seu lugar. Ela faz parte de você e você faz parte dos seus 25 anos. Ainda bem.

23 outubro 2010

Sobre o moicano, a gonorréia e o metrô


Um estudo da Universidade de Michigan, publicado em abril passado confirmou que o uso do corte de cabelo moicano em rapazes de 20 a 28 anos de idade é proporcional ao aumento de gonorréia na mesma população que circula no metrô.

A amostragem foi feita a partir de 1250 rapazes com essa idade em oito estados dos Estados Unidos entre a terceira quarta-feira de dezembro de 2009 e até a segunda terça-feira de abril de 2010.

Os rapazes ficaram um pouco intimidados ao assumir para os pesquisadores que tinham gonorréia e outros ficaram realmente chocados quando descobriram que usavam moicano como corte de cabelo.

Os depoimentos mais recorrentes indicavam um intenso apelo ao corte pelo fato que as meninas e os meninos afeminados se sentirem atraídos por meninos com moicano. Muitos dos entrevistados não imaginavam tal ligação - entre a doença e o corte de cabelo - e ficaram seriamente perturbados com a idéia de serem obrigados a cortarem o cabelo com outro corte como primeiro passo para o tratamento contra gonorréia.

As autoridades no metrô carioca e paulistano, perante os estudos, já vêm analisando a possível criação de um vagão para moicanos, entre o vagão dos que lêem Paulo Coelho e o vagão das que usam unha francesinha.

Salões de beleza foram instalados nas principais praças dos principais centros urbanos em todo o Brasil, onde meninos com corte moicano podem mudar de corte por um valor simbólico de R$ 2,50, que será revertido para Associação do Apoio à Gonorréia.

09 outubro 2010

No fim da semana


No fim da semana, ele nem lembra seu nome. Se acostume com isso, vivemos no terceiro milênio. Quando o sexo pode ser casual e sua mãe pode saber que é casual, quando sua mãe entende o que é sexo casual e seu filho também, quando beber coca-cola virou hábito banal, bandas de rock devem ser estranhas e chatas, fumar é visto como coisa feia e ninguém lembra seu nome.

Ele pode dormir no sofá da sala, transar loucamente ou simplesmente beber uma cervejinha importada gelada, aquela que você guarda para as ocasiões especiais. Com certeza, no fim da semana, ele já terá apagado o seu telefone do celular dele. Deve ser celular smartphone, porque ele é antenado.

Não espere um convite para uma segunda, a cabeça dele funciona em outra velocidade. A essa altura ele já deve estar dormindo em outro sofá, transando loucamente com outra pessoa ou simplesmente bebendo uma cervejinha importada que não é você quem guarda para as ocasiões especiais.

Nem pense em se suicidar, vai dar muito trabalho pra quem catar os restos.

07 outubro 2010

As mexericas de Miriam Leitão


Miriam Leitão escolheu as bananas e as tangerinas. De início não entendeu quando o feirante, rapazinho franzino e até bonitinho, indicou as mexericas, que estavam grandes, doces e macias. Com tangerinas inteiras ela partiu para casa, pensando no tal feirante, com o sotaque carregado, a roupa encardida, mas o cabelo perfeito. Pensou nele nu, os músculos em desenvolvimento e os pêlos pubianos. Pêlos pubianos eram recorrentes em sua cabeça, principalmente ao volante, é de um relaxamento que só pensando pra saber. Até então experimentara de tudo. Claro, com a devida orientação de sua psicanalista, aquela mulherzinha de cabelo liso, loiro e volumoso. Como invejava o cabelo da psicanalista. Pensar na tal mulherzinha lhe estressava e lhe tirava a atenção do transito. Também já experimentara isso, naquele dia que acabou encostando no poste e foi obrigada a partir para a cirurgia plástica. Aquela era outra Miriam Leitão, uma que não se controlava e não pensava em pêlos pubianos. Ah, os pêlos pubianos daquele feirante, homenzinho franzino e suado.

11 agosto 2010

Entre o nada e o quase lá

Era como se todo o deslocamento fosse igual a zero. Ele nunca saía do lugar, pra onde quer que ele fosse, o quanto ele andasse. Ele continuava ali parado, entre o nada e quase lá. O que o mantinha? Sua criatividade, sua esperança de que as metáforas que lia nas poesias deixassem de ser só metáforas. Era o mesmo que lhe dava forças para acordar todos os dias e, a cada dia, colocar uma roupa diferente, fumar um cigarro diferente e ouvir uma nova canção no rádio. Mudava o rádio, mas não a si próprio. E como se o carro também não saísse do lugar, ele ia para os lugares onde devia ir e sempre dava no início, aquele beco entre o nada e o quase lá. Estacionava, fazia o que tinha de fazer, improvisar uma vida, ensaio-geral para estréia sem data prevista, e entrava de novo no carro, dirigindo em contra-mão pro lugar onde começou. Entre o nada e o quase lá. Pra, quando chegar, poder dormir em paz e sonhar com o dia que verá novos rostos e novas paisagens. Que elas não sejam infinitas, figuras de linguagem daquela poesia barata que lê depois do almoço no jornal da tarde. Que sejam reais e em três dimensões. Sonhar com o dia em que o carro deslizará e dará na rua debaixo, quando a rua debaixo for diferente da de cima, em todas as direções. Ele vai acordar cada dia numa cama, cada dia de um sonho diferente.

03 agosto 2010

Parada


Eles dançam como se fosse carnaval, sob o sol das três da tarde às três da manhã. E cantam músicas atrás do trio-elétrico mais brega de todos os tempos. Carregam faixas com dizeres, se fantasiam e usam o salto alto que fica escondido o ano inteiro. Colocam as perucas, sorriem e bebem aquela cerveja. Sim, três por dez. Alguns se arriscam mais e levam uma garrafa de alguma bebida quente e os outros aparecem lá com a roupa do trabalho. Vi até meia arrastão. É a oportunidade perfeita de misturar quem vem da Zona Sul com quem vem da Zona Norte. E ainda sobra aquele gringo com o chapéu de palha do lado daquela mulata(?) de vestido grudado. Ainda tem aqueles que se asseguram da paz. Eles ficam lá em cima, na varanda, olhando o mar que vem depois do mar de gente. E o mar anda tão colorido ultimamente. Tem sempre uma mulher, em cima do trio-elétrico, cantando, dançando e falando coisas engraçadas. Normalmente alguém que pareça com a Preta Gil, que é a Claudia Leite daquele dia, daquela praia. Sim, ainda tem a praia, ao fundo, cheia de gente que se diverte todos os dias do ano e não só naquele feriado. Alguns se beijam, beijam os amigos e os amigos dos amigos. Ao mesmo tempo. Isso depende de cada um. O que importa é que está meio que tudo liberado. Não, não se assuste, é só um dia, só uma praia. As pessoas falam de orgulho e sorriem, porque orgulho dá alegria ou alegria dá orgulho. E falam como se fosse militância usar bermuda de surfista, piercing e desfilar sem camisa. Evite a palavra desfile. Faça uma parada, antes que a Farme de Amoedo exploda, e finja que o que está fazendo é revolução.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.

26 maio 2010

Perfil Fake no Orkut


E daí que o Garoto namora o Perfil Fake no Orkut? Eles trocam recados, marcam-se em fotos, e roubam um a senha do outro pra escrever, no status ou em qualquer outra lacuna que o Google disponibiliza, que se amam.

E se eles se amam também não é problema nosso. Hoje em dia existe amor de todas as maneiras. Uma vez me disseram isso e eu acreditei piamente. O que importa é o amor, esse é o mundo moderno.

Perfil Fake no Orkut grita aos quatro ventos e aos outros também que o Garoto é a melhor coisa que já lhe aconteceu. Que depois dele o mundo se tornou melhor e todas aquelas lamentações que só os apaixonados no Orkut sabem o que significa.

As pessoas se perguntam o que Garoto vê em Perfil Fake no Orkut. Garoto teria chances de conseguir quem quisesse na fila de qualquer boate que enfrentasse. Ele iria entrar, beber, dançar e se enroscar com qualquer pessoa lá dentro. Mas por algum motivo ele prefere Perfil Fake no Orkut. Ele prefere entrar à noite na internet, logar no Orkut e inventar palavras para que o amor deles tenha sentido. Ele prefere preencher as lacunas de Perfil Fake no Orkut a ter suas próprias lacunas esvaziadas pelas filas de boates.

17 maio 2010

O filho perfeito


Era o filho perfeito, estudante universitário. Curso de Humanas. Falava algumas línguas com fluência. As outras, manipulava como ninguém. Sorria sempre no momento certo, isso era algo de que se orgulhava.

Nunca aprendera a andar de bicicleta, mas ainda assim era o orgulho da família toda. Principalmente da mãe, que era muito possessiva e andava satisfeita desde que descobriu que o crescimento dos pêlos pubianos do filho não tinha nada a ver com conhecer sua futura nora. Ou as futuras noras.

Ele nunca levava ninguém em casa. Exceto pelas amigas, era o que diziam os dois, enquanto todos se riam deles – o casal – rodeando a mesa do almoço de domingo. Eles coravam, como devia ser. Ela mais que ele.

Não sabia o que seria da sua vida se não fossem suas amigas, que aturavam o almoço com a sua mãe e as piadas do seu pai.

Ele seguia humanamente, na perfeição de um filho exemplar. Daqueles que não bebem e não voltam depois das onze da noite. Aquela mãe dormia tranqüila depois que seu filho estava na cozinha comendo a sobra da janta. Ele estava com fome. Fora exaustiva a reunião com seu orientador naquele quarto de motel.

04 maio 2010

Menino do queixo protuberante


Não se apaixone por meninos que tenham o queixo protuberante. Nem mesmo comam meninos assim. Eles são indigestos. Podem parecer educados, à primeira vista, mas são uns espertinhos. Há muita sabedoria escondida debaixo de tanto queixo. Alguns vêm com a desculpa de que o problema é dentário ou no maxilar. A verdade é que o problema é de caráter. Eles só querem se aproveitar. Das suas piadas e dos seus amigos. Eles sempre gostam dos seus amigos. Eles gostam de ser amados e, por isso, são tão bonzinhos e educados. Não se engane com tamanha ilusão, nem com o tamanho do queixo. Sim, queixo. Sim, ilusão. Tanto quanto a sombra no pescoço. Meninos com queixo protuberante são a pior espécie. Eles vêm antes dos gordos e dos que deixam-rolar. E eu não digo isso só porque eu sou gordo. Nem porque eu deixo rolar. Digo isso porque sei. Eles querem amolecer você e te tornar inútil. Ninguém gosta de ninguém mole. E quando você está mole, eles revelam os mistérios sobre toda a protuberância do queixo. Eles só querem intimidade. Aquela intimidade que eu tenho com a minha amiga do Ensino Médio.

19 abril 2010

Maçã-do-amor


“Que cheiro é esse de maçã-do-amor?”, ele pensou, quando se aproximou. Na hora, teve a reação de voltar um passo para trás. Se distanciou um pouco da quermesse que exalava aquele cheiro. Vestia xadrez, como toda barraquinha de maçã-do-amor da região, e usava aqueles óculos de emo-gay-adolescente. É, aqueles que os artistas de Hollywood usam também. Também era moda entre as barraquinhas daquele tipo, na cidade. Mas o cheiro de maçã-do-amor, apesar de lhe embrulhar o estômago, lhe convidava a um pouco de doce. Era o que tinha de mais doce na lista da manicure. Maçã-do-amor só era páreo para invejinha-boa, mas todo mundo sabe que inveja nenhuma tem cheiro. A não ser aquela daquele cara que não tem que sentir cheiro nenhum de maçã-do-amor enjoativo. Começou a pensar num jeito de esquecer o cheiro. Se acostumar. Mas quanto mais pensava, mais o estômago embrulhava.

27 março 2010

Aquele menino

Ele era mais velho que eu, ganhava mais dinheiro que eu, era mais sério também. Talvez por ser mais sério, fosse mais interessante. No fim das contas, a gente sempre quer quem parece mais sério. Já beirava um quarto de século e ainda não sabia o que era estar dentro de alguém. Não sabia o que era amar. O carinho que se dava e que se ganhava, na cama com outra pessoa. Confiou esse carinho a mim. De início tive medo de decepcionar, perfeccionista que sou. Mas foi como um punhado de areia que voa ao vento. Foi natural. Ele queria me dar aquele carinho. Aquele de que tanto me ouviu contar. Que nem sempre existiu nas minhas camas. O carinho que o tornou o melhor de todos. Ele tinha a inocência de um menino no corpo de um homem. Na força de braços que não sabiam como se mover. As pernas moviam-se sem que ele sentisse ou quisesse. Ele tremia, encostado na madeira quente do seu armário. Só sossegou quando estávamos nus. Enquanto beijava sua nuca e acariciava suas costas, que agora eram minhas. Ele me amou, nem que tenha sido por cinco, dez ou quinze minutos. Não importa quanto tempo tenha durado, ou que palavras tenham sido ditas ou omitidas, o amor estava por ali. Em algum canto entre o tremor de suas pernas e o resto dos seus quase dois metros de altura.


07 março 2010

DDD

Depois de trinta minutos ele ainda estava excitado quando voltou pra cama. Não era permitido reclamar. Sempre foi de conhecimento que ele era comprometido. Que ele gastava horas no telefone, fazendo juras de amor.

Pelo menos ele sempre voltava com havia ido, excitado. Não era preciso nenhum esforço maior para que as coisas voltassem ao clima. Ele simplesmente conseguia manter o clima.

Quando voltava pra cama se amavam, porque ele era do tipo que fazia amor. Odiava falar de sexo casual, fazia carinho como ninguém. Não havia pessoa que não se derretesse aos seus encantos. Ele fazia qualquer pessoa se sentir única. Exceto enquanto estava no telefone.

Não tinha medo de ser descoberto. Ele sabia mentir da maneira certa e de vez em quando conseguia até se fazer de vítima, parecer inseguro, fingia ter medo de ser trocado por outro.

Mas nunca se sabe quando você será trocado, eu dizia a ele.


Enquanto isso ele ocupava a cama alheia, amando mais a si próprio do que a qualquer outra pessoa. Alguns diziam que ele estava certo. Eu sentia uma certa repulsa. Coisas do meu falso moralismo, da minha hipocrisia estendida na minha testa pra qualquer um que queira ver.

Trocava telefones, porque adorava telefonar. Aqueles malditos planos de celulares pré-pagos que te dão direito a falar horas pagando bem pouco. Quem pagava mesmo era quem esperava por ele na cama. Eu já achava caro pagar na mesa do bar. Quase nunca eu pago. Nem caro, nem barato.

Ele era do tipo que te chamava de “meu anjo” porque tinha medo de te chamar de “meu amor”. Amor só tem um, certo? E ele estava longe, esperando sua ligação. Mais trinta minutos de celular, mais 350 juras de amor (?), mais algumas mentiras, encenando uma falsa tristeza. Esse tipo de pessoa sempre parece triste pelo telefone. Pelo menos mais do que pessoalmente.

Quando ele volta pra cama, ele está excitado. Tem gente que acha que isso que é importante. Um telefonema pra outra cidade com o intuito de aquecer o coração de alguém amado e um sexo ereto com o intuito de aquecer a cama de quem se satisfaz com isso. Só com isso.

Porque ele era carinhoso, ele chamava de “meu anjo”. Já é melhor que chamar de coisa alguma. Porque até quando ele enganava era perfeito. Cada um se contenta com o que tem.

26 fevereiro 2010

Aham, Cláudia, senta lá

Ele não recusava um convite para ir ao restaurante japonês e comia temaki cheio de desenvoltura, até virava os olhinhos só em ouvir falar da truta da Patagônia do Koni Store. Mas virar olhinhos nem sempre é uma atitude muito gay.

Ele não sabia nada sobre futebol, nem se importava que seu time estava na segunda divisão. Ele só dizia que torcia para aquele time porque seu avô o obrigara. É time de tradição, meu filho, neto meu não nega nossas raízes lusitanas. Ele nem sabia o que era segunda divisão.

Nunca soltou pipa com os meninos e sempre foi viciado em mangá. Principalmente aqueles que falavam de meninas com olhos estranhos, cabelos que variavam do lilás ao rosa-chá. Ele sabia a diferença entre lilás e rosa-chá.

Fingia que não sabia nada sobre blusa frente-única. Mas uma coisa era verdade, ele odiava Lil’ Wayne e funk. Uma festa que não tocasse Beyoncé ou Lady GaGa era uma festa perdida. Ele sabia as coreografias da Beyoncé, mas não gravava nada em vídeo caseiro para colocar no YouTube, afinal de contas, isso seria muito gay.

Ele era apaixonado por uma amiga nossa. Ela tinha namorado. Mas o namorado dela não curtia comida japonesa, não curtia Rihanna nem nunca lera um gibi (ou qualquer outro objeto que contenha letras). Por algum motivo, isso o tornava mais interessante.

Certa noite, ele foi visto numa boate gay. Blusa listrada, calça jeans e uns bons passinhos de musical da Broadway na memória. Bebia cerveja em copo descartável com o objetivo de ficar doido o suficiente para tirar a camisa e subir no queijo. Ele não malhava.

Exibia as axilas cheias de pelos. Mais uma herança do avô. Era o orgulho da avó, talvez por isso. Todo mundo quer um neto que tenha a axila cabeluda. Quanto mais pelos, mais responsabilidade, mais cedo ele se casaria com uma menina bonita e educada, de boa família, para irem juntos curtir uma comédia romântica depois de comer uma porção de sashimi de peixe branco.

Ele não usava a expressão curtir, nem qualquer outra gíria. Era antenado nos vídeos do momento e guardava as melhores frases para usar no seu dia-dia. Mas quando questionado se também era gay, negava.

Todo mundo percebia que ele era heterossexual. Não há gay que saiba dançar Single Ladies. Não há gay que sincronize os movimentos da mão e do pescoço tão bem quanto ele. Isso é puro preconceito. E isso não admitimos por aqui.


Mas naquela noite ele bebera muito. Nem sempre se consegue dosar direito o quanto de vodka com Red Bull devemos ingerir. E em determinado momento ele estava com algo pendurado no pescoço. E não eram os versos de uma canção da Gretchen. Não.

Aquilo tinha pés que calçavam entre 40 e 42 e aposto todos os episódios de Will And Grace que também tinha as axilas peludas. Sobravam traços da cultura ibérica naquele nariz.

Fiz meu papel e avisei. Não queria que ele passasse por gay. Às vezes a gente não sabe o que está pendurado no nosso pescoço. A gente pode nem sentir. Ainda mais se a gente estiver preocupado com os pelos nas axilas. E isso preocupa, cá entre nós.

Tem gente que queria comer ele só porque ele era hetero. Particularmente? Acho isso um absurdo.

25 fevereiro 2010

O garoto que bebia Heineken

“Todo mundo merece uma segunda chance”, foi assim que ela começou a história sobre o nosso amigo que bebia Heineken. A primeira pode não ser boa devido à falta de intimidade, ou devido ao álcool. Ninguém costuma transar sem álcool no copo de cristal ou no copo de requeijão.

A primeira deles não foi boa. E não era problema dela, disso ela tinha certeza. Fizera tudo direitinho. Ainda que eles estivessem em pé. Ainda que seus pés estivessem tremendo também devido ao excesso de álcool. Quem não perde um pouco de força nas pernas quando passa dos limites e exagera no álcool? A Lei Seca está aí pra isso.

No resto da semana, a gente observava ele com sua garrafa verde, pra tudo que era lado. Ele ostentava aquilo, como se ele até transasse bem. E esse assunto nos fazia discutir sobre as pessoas e como elas transavam. Se fodiam bem ou se fodiam mal. Ele nos enganou, alguns diziam. Maldita garrafa de Heineken.


Mas quem sofreu mesmo com tudo isso foi ela. Pobre coitada. Caiu no conto da Heineken. Ele andava com polo da Tommy, sapatenis de adulto, mas foder que é bom... necas de pitibiriba, como diria uma tia-avó minha. A Heineken sempre na mão esquerda. A direita coçava o saco e mostrava sua masculinidade.

Vai ver foi isso, sua mão direita estava ocupada enquanto transavam da primeira vez. Ele nem pôde mostrar sua masculinidade naquele dia, na parede do prédio. A esquerda segurava a Heineken, como habitual.

Outra certeza de que a culpa não fora dela nascia do fato de ele ter gostado. Ele queria repeteco, como diziam os pagodes da época. Ela daria a segunda chance, como dizia sua teoria.

Todo homem merece uma segunda chance. Mais que isso, toda transa merece uma segunda chance. É uma série de fatores que pode acabar levando um sexo a ser ruim e por puro preconceito ou preguiça de tentar de novo, você pode estar perdendo a foda da sua vida.

Mas na segunda chance ele não se ocupou de nada com a mão direita. E nem exibia a Heineken na esquerda. Mas a masculinidade também não estava por ali. Era estranho o modo como ele agia. Ele só queria tomar banho e fazer carinho. Ela queria beber a tão bendita Heineken e ouvir palavras de sacanagem com sotaque carioca. Vai dizer que não é o que toda menina de Zona Sul quer?

Duas chances eram o suficiente. Quando um homem não acha a masculinidade depois de duas chances, é sinal de que ela está muito perdida. Talvez afundada entre os cascos verdes e vazios das boas Heinekens que ele tanto se orgulhava de consumir.