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25 agosto 2011

Doce


E trate de me dar aquela porção de doces que você sempre me promete quando estamos na cama. Me enche com seus algodões e seus suspiros. Me deixa todo melado quando comermos chocolates enquanto nos beijamos apaixonadamente. Me traz na boca aquele resto de brigadeiro e vai à cozinha para fazer mais. Me deixa gordo com essas balas e me refresca de sorvete com Leite Moça. Se não houver maneira de ser assim, vê se chega pelo menos na hora marcada com as paçocas e os beijinhos porque só assim posso te perdoar, enquanto me encho de bobeiras que vendem nas esquinas com a promessa de virem com vida. Me enche de vida e de amendoim, desses açucarados, cheios de açúcar. Mas muita atenção, quando você me interpreta se eu digo açúcar. Estou falando de açúcar mesmo. Toneladas. O suficiente pra me manter de olhos abertos e sorriso no rosto. Não importa o tamanho da minha barriga, me traga pavê pra gente se reconciliar. E se nem assim adiantar, você sabe o sabor da minha bomba favorita. Me suje de caramelo e lamba-me todo. Lamba-me como se meu suor fosse doce. Tão doce quanto os dedos de moça no chocolate que comemos outrora.

10 agosto 2011

Ilegais, imorais e gordos

menino do Rio
da caipirinha de maracujá e cinema na Voluntários
do temaki na Farani
"Quem segura o porta-estandarte Alcoolé Mini Bloco tem a arte"
"macaco quer banana?" Jack Kong
o único q pede 2 no Chico
responsável pela chaminé no meu albergue
forasteiro em Rio das Ostras (bem antes do Nova Lapa Jazz virar moda)
"rodoviária aqui? aff, senta lá!"
namorado de aluguel
ar arrogante
vinho dos desesperados
"careta vai queimar no mármore do inferno q é quente"
dados eróticos
réveillons de índio
apertador de bola Lucky
eleitor do presidente Kennedy (até Marilyn era)
caçador da escola campeã do carnaval 2010
samba canção...

só p dizer q os meus dias ficam mto mais ilegais, imorais e gordos com vc ^^

Isadora Pereira

05 julho 2011

25 anos



Ainda estão adiando fazer os 25 anos. Como se essa data fosse a filha da puta que te proíbe de ir em congressos de estudantes, encher a cara nas ruas da Lapa e conversar com desconhecidos na fila do metrô.

Bobeira. Eu mesmo vivo encontrando velhinha na fila do metrô puxando assunto. E velhinha bebendo na Lapa então? Não dá nos dedos de um time de futebol inteiro. Mas vai que eles, quando fizerem 25 anos, de repente, se tornem caretas?

Abandonam os brincos pendurados e os projetos de tatuagens que normalmente são horríveis ou de estrelas. Não que as estrelas não sejam horríveis e me desculpe quem tem estrelas tatuadas. Que não sejam no tornozelo, ao menos.

Pode ficar tarde demais para aquele copo de vodka ou whisky e claro que não pode faltar o Red Bull. Esse tipinho só pensa na hora que o limite de Red Bull acabar, mais ou menos junto com os benditos 25 anos. Daí eles terão que se contentar com garrafas de cerveja brasileira, dessas compradas por 4 reais e bebidas em copos de botequim acompanhadas de batata-frita excessivamente gordurosa.

E toda aquela gordura vai ficar ali, congestionada numa artéria ou acumulada debaixo do braço. Não haverá congresso de estudante ou micareta suficiente para tirá-la de seu lugar. Ela faz parte de você e você faz parte dos seus 25 anos. Ainda bem.

23 dezembro 2010

Do fim do ano



Natal é época de comprar garrafa de vinho, acender um cigarro e dormir tarde da noite, escutando fados portugueses. Suando, porque a gente insiste em fingir que vive na Europa nessa época do ano, quando pras bandas de cá faz sempre uns 37°C às nove, dez, onze da noite.

Natal é época de gastar, se endividar, comprar umas roupas e enfrentar o shopping lotado. No fim das contas, você vai acabar engordando mesmo e nada daquilo vai servir mais, vai ficar tudo encalhado no seu armário, pra quando aquela dieta finalmente surtir efeito. Se não for isso, as calças rasgam entre as pernas, porque isso que dá ter as pernas grossas, roçando a todo instante.

É época de comer mais do que deve e, a cada rabanada cheia de açúcar embebido em óleo de fritura ingerida, sentir aquele pouco de remorso, aquele leve inchar dos braços, da barriga, dos peitos e das bochechas, principalmente as bochechas.

Natal é época de pensar no ano-novo, uma semana depois. Decidir que esse ano vai beber até passar mal, encher a cara para fazer valer a pena nem que seja na última noite, quando estiver lembrando dos meses anteriores e pensando o quanto tudo fora em vão.

É época de se vestir de branco, ficando uns quatro quilos mais gordo do que realmente você é. Fazer novas resoluções, estudar mais, comer menos, transar mais, gastar menos. Sabendo que tudo é pura balela, dar os sete pulinhos, ou catorze para os mais desesperados. Fazer preces para casar. Na minha idade, a gente precisa ter certeza que vai casar.

É época de reencontrar os amigos da escola, da padaria, da catequese. Atualizá-los com as últimas novidades. Fulana casou, beltrano separou e cicrano agora fica com meninos também. E comer, porque essas reuniões sempre são em restaurantes.

É época de dormir e acordar um ano depois, rezando pra que todos dias do ano sejam assim. Como se dormir um dia e acordar um ano depois fosse a melhor coisa do mundo. Quase tão bom quanto tesoura afiada e a dança das Bachianas brasileiras n° 04.

25 outubro 2010

Talento


Eu sei escrever sobre solidão, sobre gordura, excesso de gordura. Sei escrever sobre ir ao cinema sozinho e fofoca. Sei escrever sobre mim, ainda que eu não me conheça. Exagero nos defeitos, pra ter certeza que não estou sendo injusto com a sinceridade. Ela não merece.

Sei escrever sobre envelhecer e sobre como é ter 21 anos. Mais ainda, como passar dos 20 aos 21. Não fazer esportes, ouvir música POP e um pouquinho mais sobre gordura. Sei lá, é uma coisa que nasceu comigo.

Sei falar da vida dos outros também e transformar qualquer vida numa piada sem-graça. Sou ótimo em piadas sem-graças e não tão bom com palavras desconexas, como se pode perceber.

Tem algo que me intriga em palavras desconexas, em coisas que não fazem sentido, mais do que me intriga a solidão e a gordura. É uma curiosidade por saber o que passa na cabeça da pessoa. Na minha, muitas vezes não passa nada e é por isso que eu digo que não sou tão bom.

Não sei escrever sobre política, nem miltância, nem moda. Sempre estou fora de moda. Não sei escrever sobre cinema. Só sei ver, eu acho. Sou uma negação em descrições - lugares, pessoas, comidas gordurosas ou estantes de CD.

Comigo carrego um caderno de anotação, onde mudo os felizardos contemplados no meu testamento, de tempos em tempos. Normalmente quando o tempo fica chuvoso ou quando não tem aquele bendito joelho de queijo com presunto na vitrine da lanchonete.

05 agosto 2010

Supermercado


É preciso fazer a lista corretamente e com atenção, que é pra não chegar em casa com nada que não estivesse nos planos desde o início da operação. A gente sempre precisa voltar de vez em quando durante o mês, não tem como evitar. Tem coisa que apodrece se a gente guarda, é por isso que a gente volta com freqüência. O que não apodrece a gente deixa em estoque. Guardado lá naquele armário. A gente vai uma vez só, compra o que dá pra um mês e quando vê dura uma eternidade. Se não apodrecer mesmo depois de uma eternidade, use. Não tenha medo de tirar do armário e não coloque em nenhuma lista enquanto o seu não tiver acabado. Pra que gastar por nada? Não se iluda com aquelas guloseimas, elas engordam, fazem mal ao sistema sanguíneo e dão uma falsa sensação de felicidade. Ninguém quer uma falsa sensação de felicidade, a não que você esteja a beira da demissão. Essas coisas que chamam atenção da vista, deixe lá, não carregue. Quem tem ecobag então, tem menos direito. Saiba que você cresceu e que é sua responsabilidade escolher o que é útil e o que é fútil. E isso é fútil, vai por mim. Se você não resistir, finja-se de boba. Dê também uma de João-sem-braço e jogue na sacola, aquela que você leva o mais essencial e o absorvente.

26 julho 2010

Entrevista de emprego


O que você gosta de fazer nos fins de semana?
Sair pra encher a cara, principalmente se eu não tenho um tostão furado no bolso e consigo voltar pra casa bêbado às custas de alguém. Se esse alguém dormir comigo depois, melhor ainda. Gosto também de ir ao cinema, mas só assisto sessões legendadas e de preferência sem 3D. Não curto muito o 3D, não.

Qual é o sua maior qualidade?
Difícil, eu sou muito auto-crítico. Isso conta?

E o seu maior defeito?
Sou o dono da verdade, sou difícil de lidar, autoritário, às vezes sou fofoqueiro também, mas só quando a fofoca vale a pena.

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Qualquer coisa? (pausa para pensar com os olhos perdidos no ventilador de teto empoeirado) Eu deixaria de ser viciado em comida. Isso me atrapalha muito. Se eu não fosse tão gordo, transaria com muito mais freqüência e com muito mais pessoas. E quando eu quisesse sossegar meu facho também seria mais fácil porque minhas chances de arranjar alguém legal seriam maiores que as de uma pessoa gorda.

Por que você escolheu Engenharia Química?
Dinheiro. Só por isso mesmo. Eu odeio cálculo, odeio física e odeio o fato de não ter nenhum ramo na Engenharia Química que seja ligado à literatura. Foi por dinheiro mesmo. Me disseram, na época da escola, que daria dinheiro, que é um mercado em expansão. A história do petróleo e tal. Então, aí eu fiz.

Qual área da Engenharia Química você prefere?
Escritório, de preferência projeto. Sem prazo. Odeio prazos. Mas no escritório seria bom. Morro de medo de ter que passar a vida toda usando jaleco. (vira os olhos e faz cara de nojo – a mesma cara que ostenta desde o início do diálogo) No escritório é legal porque eu posso ir bem vestido, vou ter uma mesa e um computador pra ficar atualizando o Twitter durante o dia ou vendo pornografia.
(a mulher anota algumas coisas no caderno que tem a sua frente)

Obrigada, quando a gente tiver uma resposta a gente entra em contato, ok?
Ok.

21 julho 2010

Do dia em que eu quase me suicidei


Tocava Prince no meu MP3, repetidas vezes. Purple Rain. Era assim que eu queria morrer, ouvindo o som melódico dos anos 80, debaixo da chuva fina que caía na rua. Já eram mais de onze da noite e ninguém me esperava em casa com uma comida pronta. Eu nem poderia comer, porque comer engorda. Meu guarda-chuva estava fechado na minha mochila e o meu cabelo já estava fora de corte. Naquela noite, deu uma vontade de me suicidar. Dessas que não se controla, sabe? Que você, simplesmente, se lembra dos remédios velhos que a sua velha usava quando estava em depressão. E você se lembra das garrafas de licor, vodka e uísque que estão na porta de vidro do armário da cozinha. Lembra do copo de licor que seu amigo trouxe de Paris e dos milhares de rodízios que você não recusou. Aí você sente ainda mais vontade de se suicidar. Minha blusa estava apertada, daquele jeito que ficam as blusas dos gordos que insistem usar roupas da época que fora o mais próximo que se tenha chegado de magro. Eu sou do tipo de garoto gordo que continua usando blusa da época que era o mais próximo que um dia cheguei de ser magro. Talvez eu morra sem saber o que é ser magro, é o que me diz os joelhos que eu como entre as cinco e as seis. Taí mais um motivo pra eu me suicidar. Tinha que ser de um jeito leve. Sem traumas. Nada de morrer e se traumatizar. Já basta o trauma em vida de ser gordo, insistir em usar roupa de “magro” (entre aspas mesmo) e ouvir Prince no meu MP3. Os remédios da época da depressão da minha mãe talvez agora serviriam de algo. Já que não tirou ela da depressão. Mas não antes de chegar naquela parte onde o Prince mexe com a voz daquele jeito que me arrepia. Podia ser a última vez que eu ouviria um barulho tão belo. Faço questão.

04 maio 2010

Menino do queixo protuberante


Não se apaixone por meninos que tenham o queixo protuberante. Nem mesmo comam meninos assim. Eles são indigestos. Podem parecer educados, à primeira vista, mas são uns espertinhos. Há muita sabedoria escondida debaixo de tanto queixo. Alguns vêm com a desculpa de que o problema é dentário ou no maxilar. A verdade é que o problema é de caráter. Eles só querem se aproveitar. Das suas piadas e dos seus amigos. Eles sempre gostam dos seus amigos. Eles gostam de ser amados e, por isso, são tão bonzinhos e educados. Não se engane com tamanha ilusão, nem com o tamanho do queixo. Sim, queixo. Sim, ilusão. Tanto quanto a sombra no pescoço. Meninos com queixo protuberante são a pior espécie. Eles vêm antes dos gordos e dos que deixam-rolar. E eu não digo isso só porque eu sou gordo. Nem porque eu deixo rolar. Digo isso porque sei. Eles querem amolecer você e te tornar inútil. Ninguém gosta de ninguém mole. E quando você está mole, eles revelam os mistérios sobre toda a protuberância do queixo. Eles só querem intimidade. Aquela intimidade que eu tenho com a minha amiga do Ensino Médio.

07 abril 2010

Rodízio de Pizzas


O dia em que a Pizza de Pepperoni se encontrou no mesmo prato que a Pizza de Tomate Seco Com Rúcula foi um dia especial. Ainda me lembro que era dia de semana, terça-feira. Beirávamos o final de março e chovia torrencialmente do lado de fora da pizzaria. Estava vazia, apesar de já estar na hora do almoço. E quando digo vazia não falo só a respeito da área reservada ao rodízio. Me refiro à pizzaria como um todo. Das 40 mesas do local, não mais que 5 estavam ocupadas. Em uma delas, entre as doze e doze e trinta daquele dia chuvoso, no Rio de Janeiro, se encontrava o Obeso responsável por unir aquelas duas pizzas. Pizza de Pepperoni estava meio engordurada, enquanto Pizza de Tomate Seco Com Rúcula exibia imensas folhas de rúcula. Elas eram de um verde espetacular. Pizza de Pepperoni ainda se lembrava quando ouviu a voz do garçom, ali mesmo onde estava, naquele prato de porcelana barata. Ele disse: “Tomate Seco Com Rúcula?” Em seguida a voz do Obeso: “Desce.” Foram rápidos dois minutos nos quais habitaram o mesmo prato. As pizzas felizes, pois nunca imaginaram que se encontrariam assim. Foi uma surpresa. Pizza de Tomate Seco Com Rúcula ficou assistindo Pizza de Pepperoni ser ingerida. O Obeso levou menos de um minuto engolindo-a. Foi um momento emocionante. Suas folhas se arrepiaram, os tomates deixaram parte do azeite escapar, tamanha emoção. Pizza de Pepperoni se despediu com um aceno discreto e mal-educado. Deu pra sentir o cheiro apimentado no arroto do Obeso. Pizza de Tomate Seco Com Rúcula sabia o que aquilo significava. Logo estariam juntas novamente, para toda a eternidade, localizadas na imensa papada embaixo do rosto do Obeso, vivendo felizes para sempre.

02 abril 2010

Sobrepeso


Era o quarto tratamento para emagrecer que ela fazia. Esse era à base de puro otimismo. Ela acordava, sorria na frente do espelho, aceitava os desaforos do chefe no trabalho, do trocador do ônibus e ia dormir com o sentimento de que o dia seguinte seria melhor. Era a receita que diziam ser mágica e infalível para emagrecer em torno de sete quilos em um mês. Sete quilos era o suficiente para entrar naquele vestido que seu amigo gay dizia que ela arrasava, anos atrás. Era o vestido daquela noite, quando ela beijou cinco pessoas, mas acabou sozinha comendo um cachorro-quente. Todo cachorro-quente tem sua parcela de culpa em sete quilos engordados. O prazo para o tratamento era de um mês. Ela já exercitava seu otimismo. Mesmo sem o tratamento acabar, já ia para as boates com o sentimento de que conseguiria descolar um beijo na boca de algum rapaz, nem que ele usasse roupa falsificada e morasse na Tijuca. Se não fosse um beijo, teria que ser uma passada de mão em sua bunda. Nesse caso, fazia questão de alguém da Barra ou da Zona Sul. Ipanema pra lá, perto da praia, no máximo duas quadras. Bebia bebida quente, que diziam ser menos calórica e sorria com o objetivo de aumentar seu otimismo e ajudar no emagrecimento. Lera a respeito em algumas revistas interessantes. Parecia que a Penélope Cruz usara essa dieta pra fazer Volver. O que se notava era uma falsa alegria, dessas que toda mulher magra exibe. Mas o vestido continuava pequeno demais para o seu quadril. Ela odiava seu quadril. O vestido era preto. Tamanho 36. Só quem veste 36 consegue ser feliz, disse uma vez certa pessoa sábia. Uma mulher que veste mais que isso há de ter problemas. Seja de relacionamento com homens ou roupas, ou de colesterol – para casos mais sérios. Não era o seu caso. No fim de um mês, toda aquela falsa verdade do otimismo foi por água abaixo. Ela continuava uma gordinha atarracada, com um sorriso assustador no rosto e piadas sobre qualquer tragédia. Daquelas gordinhas que vêem o lado bom de tudo. Até do manequim 44. As benditas gordinhas que se sentem bem gordinhas. Aquelas que traumatizam as que acreditam em dietas à base de otimismo e anorexia nervosa. Assim nasce o bom-humor. Que seja estranhamente feliz quem veste mais que 36.