Às vezes parece que tudo dá errado para mim. É nessas horas
eu sinto vontade de morrer. Não é morrer por morrer, como as crianças de doze
anos sentem vontade. Quero morrer para não morrer de cansaço. Tem gente que não
tem sorte; que, por mais que tente, simplesmente não nasceu para o sucesso e
talvez eu seja uma dessas pessoas. E, para agilizar todo o processo de
tenta/decepciona/morre, quero morrer agora. Só por isso. Por isso e por causa
da falta que você me faz. Me pergunto quem é você, onde você está e o que está
vestindo, como no filme que eu acabei de assistir, mas nem tenho tanto
interesse assim em saber. O que me interessa agora é morrer. Morrer e acabar
com a falta de paz que a tua falta me faz.
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14 dezembro 2014
16 novembro 2014
Silicone
Eu achei que a culpa era minha por você não me olhar. Eu era
muito magra, muita branca, muito cheia de espinhas e de não-me-toques. Eu,
então, me maquiei toda, passei perfume e coloquei enchimento no sutiã. Sorri
para você como sorriem as mocinhas dos filmes que a gente assiste no verão, e
fiz aquele olhar de peixe morto que elas fazem e que deixam os homens assim tão
encantados. Treinei durante meses na frente do espelho. Imitava os trejeitos
das estrelas e fazia nascer em mim esse brilho que parece que é só das outras.
Você não olhava para mim. Se olhava, se distraía depois de alguns segundos. Eu aumentava
o decote, diminuía a saia e regulava meu sex appeal, mas você só queria elas. Eu
desfilava com outros homens e me entregava para aqueles que não chegavam aos
seus pés, mas você nem me percebia. Eu engordei, emagreci, coloquei silicone. Pintei
o cabelo, alisei o cabelo, escovei o cabelo. Mudei meus gestos, mudei meu
emprego e o meu tom de voz. Mas você só se dirigia a mim como a menina sem sal,
com tranças compridas que um dia eu fui.
13 agosto 2011
O entediante
Sou um chato mesmo. Ele dizia isso entre os dentes, sentado na cadeira do computador, sem se virar e encarar os meus olhos. Um cigarro na sua mão, aos poucos acabando, sendo consumido a cada tragada. Na cabeça o próximo cigarro e o isqueiro que iria acendê-lo.
Um chato desses que fumam cigarros como se fumam em filmes europeus, que usam cabelos curtos e caras de quiabo mal preparado. Tomara que a força que faz para manter essa pose de quem assiste Godard seja suficiente para explodir sua cabeça.
Eu irei catar cada migalha e guardar numa caixinha cheia de rendas, que é porque eu nunca achei ele chato. Sempre me encantou o papo lento e desconhecido, o cigarro bem colocado entre os dedos e a voz pretensiosamente mais inteligente do que podia na verdade ser.
E, no fim, vamos rir de tudo isso e dos dias que fez calor aqui em casa. Dias regados a Coca-cola sem gás e cigarros importados. Porque só eu te entendo e só eu sou capaz de não te achar mais um.
23 junho 2011
Macarrão com carne moída
Ele só queria aquilo. O outro só queria dormir. Deitava de lado, no sofá mesmo, entre um filme água-com-açúcar e outro delicado que passava em qualquer desses canais de filmes femininos.
Dizia que o problema era o trabalho, que não agüentava de cansaço, ainda que as coisas estivessem bem entre eles na altura do joelho. Não gostava de forçar, já tinha perdido vários com tanta força. Diziam que ele só queria saber daquilo.
Dessa vez fez café-da-manhã e deixou-o dormir. Da vez seguinte fez o almoço e depois o jantar. Macarrão com carne moída, que era a única coisa que não salgava demais. Comprou refrigerante de uva porque viu na revista que era bom para relacionamentos sérios. Afinal de contas, era isso que queria.
O sono não passava, o fim de semana só passava. Na rua, os meninos descamisados cresciam, mostravam os músculos e passavam gel no topete. Ele bebia a cerveja toda que estava na geladeira, fumava o cigarro todo que ficava do lado do computador e esperava que o sono passasse.
Entre um cigarro e outro, fazia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída. O outro dormia, mantendo o relacionamento sério pelo qual tanta ansiara. Pensava que a juventude lhe traria um pouco de virilidade, força. Mas a única força que via era a força que fazia para tentar tirá-lo da cama.
Mas a cama sempre ocupada. Sempre por um e por mais ninguém. Aquele que comia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída e uma pitada de raiva do mundo.
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