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02 julho 2011

Aleluia


Não era evangélico, nem católico, nem o Diabo que o carregue, parta e o faça bom proveito, mas dizia aleluia cheio de vontade. Só porque andava feliz, se via no direito de dizer aleluia pra mim e para os outros pequenos de alma, esses que somos parte daquela parcela da população que bebe vinho no gargalo, sozinho, assistindo a novela das oito ou um especial de Chico Buarque no Canal Brasil.

E toda vez que ele enchia aquela boca já cheia para falar aleluia e comemorar uns passinhos que eu dava, ou fingia dar para sair do fundo do poço, caía uma formiga tanajura no copo de leite com achocolatado de uma criança da pré-escola.

Vamos combinar que as crianças não tem culpa, baby. Nem da minha vida desregrada, nem dos seus aleluias por aí. E trate de não repetir, você não quer se sentir culpado por mais um menininho chorando no fim da noite ou ao abrir os olhos pela manhã.

Você não precisa falar nada. Basta seguir com sua vida perfeita, longe de formigas e invejosos bêbados. Talvez assim você se cale e aproveite todo esse silêncio para lembrar-se dos tempos em que você bebia vinho no gargalo assistindo a novela das oito ou um especial de Chico Buarque no Canal Brasil. Ou qualquer semelhante da época.

A gente merece respeito, não aleluias. Afinal de contas, você sabe bem que uma coisa não tem nada a ver com outra, não adianta se fazer de inocente. Eu abri minha casa e meu silêncio pra você e pra sua voz. Por favor, não me venha com aleluias.

13 outubro 2010

Joãozinho


POP é coisa de viadinho, já dizia Joãozinho, segurando aquela caneta esferográfica daquele jeito destemido. Gay ouve música popular, de preferência brasileira. Se for um nível superior de gay, ouve música francesa ou qualquer equivalente europeu. O resto, aqueles que ouvem Britney Spears e aquela mulher mulata com cabelo liso (sim aquela com a sobrancelha estranha), esses são viadinhos.

Joãozinho falava assim, no diminutivo, que era para fazer o efeito do desprezo que ele sentia pelos viadinhos. Ajudava o fato de todos eles serem pequenos. Quando ele diz pequeno, se refere só ao fato de medirem menos de um metro e sessenta e cinco, a isso e nada mais. O que sobrava era o que supostamente não era clichê e Chico Buarque.

Intercalava uma canção feita na Suécia com um filme italiano e tinha de saber de cor todos os versos desconexos, ou pelo menos eles eram assim para os viadinhos, das músicas eletrônicas que escutava quando ia à boate. Afinal de contas, precisava socializar. Gays socializam. Não com todos. Deixava de lado os viadinhos.

Se negava a assistir filme dublado e a usar corrente de prata, porque essa linhagem de viadinhos era a da pior espécie. Ele acreditava que faziam os que gostam de Lady GaGa se envergonharem. Por algum motivo todos os viadinhos se apaixonavam por ele e o chamavam por Joãozinho. Onde já se viu? João, um nome tão bonito.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.