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14 julho 2011

De olhos virados


Ele só não olhava para mim. Nem quando estávamos só nós dois. A televisão parecia mais atraente e até o cinzeiro lotado de guimbas apagadas. Passava horas a não me olhar e a não tocar meu corpo como eu desejava que tocasse.

E quando foi a hora de eu me ir embora, quando eu esperava que tudo mudasse e que, enfim, ele visse que eu estava alí ao seu lado esperando pelo conforto e pelo desejo que partia de cada um dos seus poros aquecendo os meus, nem nessa hora ele me viu.

O que viu foi meu corpo jogado na cama de casal vazia e meu pijama listrado desacompanhado no meio da madrugada. Entre um cigarro e outro fumado, entre uma palavra e outra falada, permanecia entre nós a distância que seu olhar matinha do meu.

Não pude fazer nada senão deitar para o lado esquerdo, imginando seu corpo jogado no seu lado da cama, quase único, sob a gravidade da tensão que mantinha nossos corpos tão separados. Ainda hoje sou capaz de dizer a cor daquela tensão, até seu cheiro. Porque seu cheiro permanece pairando no cômodo amadeirado enquanto dividirmos o mesmo luar.

26 junho 2011

Francês


Altas horas da madrugada, entre um sorriso bobo e outro, eu deitado no seu braço esticado, nossas pernas entrelaçadas e o teto sobre nós. Branco azulado, aquela luz da lua filtrada pelo lençol que esticamos na janela.

Era ali que eu me sentia ao todo, com as gotas de suor que brotavam nos pedaços de peles, minha e sua, que se tocavam. A cama desarrumada, os pratos com uvas verdes ali no canto e a penumbra do resto do nosso amor.

Seus dedos compridos e finos passavam levemente por cima do meu ombro e desciam até o peito. Acariciava os mamilos e beijava minha testa, se entortando todo para alcançar sua boca. Mas não me largava, não me tirava dos seus braços e era assim que devia ter sido para todo o sempre.

E quando as horas passavam, todas, e o sono nos tomava pelos calcanhares, você me pedia para falar francês, ainda que eu não soubesse nenhuma palavra. Eu sabia que era só pra ouvir minha voz, eu preferia pensar com essa dose grande de romantismo. Eu dizia as mesmas coisas e cantava as mesmas canções.

Sempre achava que fazia papel de bobo, que era idiotice recitar palavras que não se sabe significado nem pronúncia. Mas as falava de qualquer modo e segurava sua outra mão, rezando para que você mantivesse seus olhos abertos junto a mim.

Rezava, entre aquelas palavras-mitos, para que você me visse adormecer porque isso era tudo o que você queria para a vida. Que aquele momento e aquela minha voz ficariam para sempre presos naquele seu quarto, debaixo daquele teto, sentindo o cheiro da uva que apodrecia no calor da cidade.

E quanto mais eu falasse, maiores seriam as chances de você não ir. Dos seus olhos não se fecharem, de você não me esquecer. Eu sofria com a possibilidade, eu sofria. Tola inocência aquela que ouve as palavras e pensa que não fazem sentido. Tola inocência.