Eu tinha tanto pela frente. Tenho certeza disso toda vez que
penso no assunto. Ainda que a minha vida tenha sido um monte de momentos de
solidão e sexo desvairado, gosto de acreditar que eu tinha o potencial para ser
aquilo que sempre achei que ia ser. Não quer dizer que eu seria o que a minha
mãe sonhou. Pelo menos não completamente, mas também não é essa figura amarga e
carrancuda que me olha no espelho do corredor. Me sinto cansada e negativa como
uma personagem de Dostoiévski. Não era assim que eu imaginei que seria. Fiz planos
de almoços felizes, da casa cheia de crianças e a gente bebendo vinho até bem velhinho,
fumando nossos cigarros e falando de poesia. Talvez esse sonho seja só de um
outro escritor. Talvez seja tão negativo quanto Dostoiévski. O que sei é que
quando olho pra essa realidade estranha em que vivo, sinto a impotência que via
nos olhos da minha mãe e das suas amigas. Fico imaginando se seus olhos hoje em
dia também têm essa impotência, se você se sente incompleto porque não está ao
meu lado.
