Eu imagino sua vida como um filme independente. A fotografia fria, meio desfocada, um roteiro conciso, objetivo, com pouco diálogo. Algumas cenas de nudez, algumas piadas despretensiosas, mais ou menos como as piadas que se fala no dia a dia. Uma cena de noitada aqui, uma festa de amigos ali. Entre elas um monte de cenas em um apartamento pequeno e decorado da maneira mais cool que se possa imaginar. É para lá que você leva seus garotos e os beija sem o compromisso de uma relação. Ainda que eu saiba que sobra em você um pouco de romantismo, eu te imagino cínico. Eu diria sem esperanças, mas a verdade é que você só é adulto. Nesse cenário, você sabe que qualquer intensidade é puro artifício de filme ruim, então você leva a sua vida como se ela não fosse real, definitiva. Você bebe café e fuma um baseado. Isso ajuda a passar o sábado mais rápido. Vê um filme em casa, come mal, toma banho e usa o telefone celular para encontrar seus amigos. Você não trabalha porque não é esse tipo de filme. Ou trabalha, mas não tem muita importância. É um estilo de vida jovem, europeu, que só faz as coisas andando. Ou de trem. Não é muito consumista, gasta com viagens, onde você conhece outros garotos, ama outros garotos, esquece outros garotos. Tudo se passa em no máximo uma hora e meia. Momentos silenciosos, uma trilha sonora discreta. No fim, uma música de uma banda indie que ninguém conhece. Ousado na medida certa, real de modo que a audiência se identifique, legal para virar um clássico hipster. Quem liga se ser hipster já saiu de moda?
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29 agosto 2017
22 agosto 2017
Preta
Sentaram na beirada da fonte artificial e não havia nada mais artificial do que o ar que os rodeavam. Trocaram palavras de desabafo misturadas a palavras de encorajamento. Ninguém percebia naquele momento a importância daquelas palavras. Foi automática a cumplicidade, mesmo que as palavras fossem tão diferentes. No fundo tocava uma música e então eles estavam na pista de dança. Rodeados daqueles corpos que um dia conheceriam. Como eram inocentes aqueles dias! Beberam, riram, dançaram. Em uma época pré Instagram Stories ainda era possível se divertir com um desconhecido. Ninguém jamais irá lembrar se houve carona, quem pagou a conta e se marcaram outro programa para celebrar aquela estranha amizade. Ninguém jamais lembrará se alguém voltou bêbado, se houve briga no estacionamento, se esbarraram com alguém doido de cocaína. Arrisco a dizer que ninguém nem ao menos lembrará das músicas que ouviram, das conversas, do sabor artificial do ambiente perfumado. Será que alguém lembra ainda das palavras, dos desabafos, da fonte?
15 agosto 2017
Aqui
Parece que éramos só eu e você os normais no meio desse oceano de músculos e porra em que vivemos. Não é à toa que grudei em você. E que seguimos até hoje mais ou menos assim. Mesmo que eu não te veja, nem fale contigo. Ainda lembro daquela sensação de exclusão que tínhamos naquela época. Ninguém por aqui parecia dar importância para as coisas que dávamos. Ninguém falava nada próximo à nossa língua. E ainda é assim. São vários corpos malhados. E, quando não são malhados, são vidrados nesses corpos malhados. São vários corpos mortos e estúpidos, falando besteira, agindo com o rei na barriga, mascando chiclete e rindo da maneira como eu masco o meu chiclete. É tão hostil que não dá mais vontade de sair de casa, mais ou menos como você se sentia quando eu só ignorava tudo o que acontecia por aqui. Eu lembro que a gente tentava. A gente dava chance para não ser acusado de elitista, de arrogante. A gente chegava simpático, aberto. Até sentir que olhavam para a gente como se a nossa testa estivesse suja de cocô. Ainda é assim. Todo mundo só fala de sexo e de comida vegana. De sol, de festas e de Britney. Todo mundo se acha muito bom porque assiste série ruim, porque vê o filme da moda e porque não tem espinha no rosto. Porque mora bem, porque tem um emprego e tem disposição para sair sexta, sábado e domingo. São tantos corpos em camisas floridas, calças jeans rasgadas, segurando iPhones em uma mão e um drink doce na outra. Eu fico me perguntando se você mudou, se por aí você se juntou a caras assim. Se é que tem caras assim por aí. Às vezes eu acho que só aqui para as pessoas serem assim. Eu prefiro nem saber. Se for o caso nem me responde. Não é como se a gente tivesse que ser os underdogs para sempre. Mas não quero imaginar um lugar em que você ria de alguém como riam da gente. Que você cochiche falando mal de alguém deslocado, que se vanglorie das suas realizações e das suas transas. Eu prefiro nem saber. Prefiro manter você como você era aqui, aquele que não se encaixava, que não combinava, que tinha desprezo por esse tipo de gente superficial. Pode ser bobeira da minha parte, egoísmo não permitir que você mude. Mas por aqui tem tão pouco para mim, ainda hoje, que eu acho que eu tenho o direito de ser assim.
08 agosto 2017
Errado
Então eu estava errado quando dormimos na mesma cama. Quando você reclamou da sua namorada. Quando assistimos pornografia juntos. Quando você tirou sua roupa na minha frente, ainda um pouco excitado, e entrou no banho. Eu estava errado quando você me chamou para tomar banho com você. Quando ficamos nus e molhados. Eu estava errado quando você me confessava em segredo que só eu te entendia. Que eu era a sua pessoa favorita. Eu estava errado quando percebia tantas coisas em comum entre a gente. Quando passávamos horas conversando no telefone. Quando planejávamos viagens juntos para conhecermos os lugares que sempre sonhamos conhecer. Eu estava errado quando decidimos passar metade do dia juntos, diariamente. Quando você ainda queria passar umas horas a mais. Estava errado quando achei que você tinha saudades de mim quando foi exatamente isso que você disse. Eu estava errado que nossa relação era estranha. Que uma simples amizade não funciona desse jeito. Eu estava errado quando achei que o que a gente tinha era mais do que amizade. Eu estava errado porque sonhei que um dia tudo ficaria claro entre a gente. Que iríamos ficar juntos para sempre. Que uma história como a nossa não acaba mal. Eu estava errado quando decidi me abrir para você. Estava errado quando achei que você me olharia com ternura e o que eu vi no seu rosto foi raiva. Quando vi no seu rosto uma raiva de mim que nunca vi você sentindo por ninguém. Estava errado quando achei que eu era especial. Quando achei que você só precisasse de tempo para se entender. Quando esperei um carinho imediato seu. Eu estava errado quando deixei que você visse a minha mais verdadeira face. Quando falei tudo o que eu precisava falar. Estava errado por ter te dado um ultimato. Por ter achado que eu sairia vencedor dessa negociação. Que você dormiria mais uma vez do meu lado. E mais uma vez. E mais outra vez. Então eu estava errado.
01 agosto 2017
Do armário
O armário é real. E são muitos. Um dentro do outro, como uma matrioska. O armário é infinito. A primeira porta que minha cara bateu foi aquela que meus pais implantaram sem nem perceberem, dizendo que menino faz isso e menina faz aquilo. Mas eu era só um menino querendo fazer coisas de todos os tipos. A segunda foi quando eu me apaixonei pela primeira vez e mal sabia ler e escrever. Escrevi que amava e fui pego no flagra. Aquilo não estava certo. Depois veio a porta da vergonha, do constrangimento, da humilhação. Por causa do meu tom de voz, da maneira com que eu me sentava ou que eu mexia meus braços. Descobri que eu tinha de ser mais rígido comigo mesmo do que eu vinha sendo. Literalmente. Não bastava me negar meus amores inocentes, nem minha vontade de me expressar. Eu precisava agir de um modo diferente do que eu agia espontaneamente. Nessa porta eu fiquei preso por anos, falando baixo, sussurrando para as vidas transparentes que me rodeavam. Sobras de vida. Sombras. Encontros escuros, decepções, mentiras e então quebrei a porta de fora antes quebrar a porta de dentro. Essa porta eu só quebrei com a minha cara transfigurada, inchada. Sangrando. E quando achei que veria a luz do dia, o que vejo é mais uma porta. Veio a porta dos meus amigos que só estava encostada. A porta da minha mãe, que eu abri com um giro leve na maçaneta. A porta do trabalho, que tive de destrancar. Tudo com elegância, sem fazer força. Mas aí vem a porta do medo, da notícia que diz que matam meninos, que os espancam, da estatística, dos absurdos das redes sociais, dos comentários dos portais. Estou preso na minha própria porta agora, tentando achar uma maneira de abrir e de entender quem sou. Vai saber o que tem lá fora? Provável que sejam outras portas. Vai saber a dificuldade de passar por essas novas portas? Futuras. Não sei. Mas a curiosidade e a necessidade de viver, de respirar, me dão ânimo para não fraquejar. Eu não preciso de mais portas. Mas preciso sempre ultrapassá-las.
31 julho 2017
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