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18 janeiro 2015

A pessoa da sua vida


Quando você conhece a pessoa da sua vida, você acha que ela será a pessoa da sua vida porque você vai viver a vida inteira com ela. Vai vê-la envelhecer, vai ouvi-la reclamar do trânsito, comentar o jornal, mencionar aquela consulta ao oftalmologista mal-educado. Maior burrice. A pessoa da sua vida pode ser a pessoa em que você pensa, insistentemente. Depois de quatro anos, depois de dezesseis, depois de trinta e um anos, três dentes arrancados e cinco colonoscopias. A pessoa da sua vida nunca deixa de ter a pele lisa. Fuma Hollywood vermelho, mas não tem aquela mancha amarelada entre o indicador e o dedo médio. A pessoa da sua vida está sempre sorrindo em câmera lenta, ou então é o mundo todo ao redor que está em alta velocidade.

Às vezes eu penso na pessoa da minha vida. Mentira, mesmo sem querer eu penso a toda hora. Como um desses fanáticos, perseguidores, doentes mentais. A pessoa da sua vida é aquela que você lembra frequentemente, ainda que tenha certeza que ela nem sabe mais pronunciar seu sobrenome. A pessoa da sua vida é aquela que vem na sua cabeça quando toca aquela música. A música mesmo pode ser do Roberto Carlos, do Rod Stewart ou dos Beatles. O repertório é longo, as pessoas também, as sentenças que eu crio para falar da pessoa da minha vida. Tudo é longo, em se tratando da pessoa da sua vida. Por mais curtos que sejam aqueles segundos. Por mais desfocado que tudo pareça aos seus olhos.

31 maio 2011

Mentiroso


Eu sou é um mentiroso. Todo escritor é um mentiroso, mas nem todo mentiroso é um escritor. E quem disse que eu sou um escritor? Ah, é, eu mesmo tinha dito dias atrás. Mas isso também é mentira. Mentira das grandes.

Menti todas as vezes que falei que te amo, porque só o que eu pensei era na cena, no momento, pra depois lembrar e me emocionar, como se finalmente eu tivesse realizado meu sonho da fotografia e da montagem perfeitas.

Menti quando escrevi porque é isso que a gente faz. A gente mente e vende ilusão a preço barato que é pra qualquer miserável que tenha um computador poder comprar e depois se decepcionar.

Mentiroso porque inventei metade da minha vida. Pelo menos a metade que eu quero que você saiba. A outra guardo no cantinho do armário. Debaixo daquela camiseta da Reserva que não cabe mais em mim.

Minto até agora quando assumo que minto. Tão mais fácil se depreciar. Só pra chegar alguém e desmentir e dizer tudo o que você já sabe que é a verdade, afinal você é o mentiroso. E o que mais é o mentiroso senão o detentor da verdade?

Sou um mentiroso que se senta na frente do computador ou na mesa de um bar. Conta histórias para entreter e para esquecer a rotina. Aquela mesmice de acorda-levanta-dorme. Sou um mentiroso perfeito porque ninguém percebe minha mentira, porque eu crio o que eu bem entendo e o que os outros não entendem. Por bem ou por mal.

Bem mais simples viver assim, incompreensível. É como se não pudessem pegar você na mentira. Nem sequer pegar você de qualquer jeito. Você se torna inatingível. Fica ali, mais ou menos na altura que você escolheu para ela. A sua bendita mentira.