Você se lembra do dia que a gente dançou aquela música? Você
dizia que aquela música era nossa e eu não entendia. Mesmo assim, sempre que
ouvia, me lembrava da tarde que a gente dançou junto. Você parecia tão leve,
tão infantil, tão doce. Seu cabelo também cheirava a doce. Eu lembro porque eu
queria morder ele todo, colocar cada fio na minha boca e sentir seu gosto como
quem come algodão doce. Você se lembra do toque da minha mão, guiando você? Eu
me lembro do toque da sua. Sua mão estava meio úmida e você me dizia que estava
assim porque era dezembro. A gente dançou e eu acho que durou só cinco minutos.
Mesmo assim, só me lembro daquela dança, quando ouço aquela música. Eu lembro
que o dia estava agitado e quente; que você usava aquela blusinha de alça e o
cabelo amarrado. Eu lembro que eu queria te rodar mais vezes, que é para o vento
que se formava ao nosso redor nos refrescasse um pouco. Mas você se mantinha
estática, como quem espera uma sinfonia de cordas começar. E você me olhava.
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23 novembro 2014
05 outubro 2014
Banda moderna
Nós estamos aqui, separados somente pelo ar úmido do verão
que rodeia e envolve as extremidades dos nossos corpos. Passamos horas sem
falar nada, um para o outro, só permanecemos deitados, de olhos abertos, lado a
lado. Ouvimos as canções que tocam no rádio, enquanto o dia acaba no lado de
fora da nossa casa. Você costuma sorrir para o teto e eu gosto de guardar esses
momentos particulares, ainda que você nunca me diga por que sorri. Eu tenho a
mania de ficar pensando mil coisas e analiso cada minuto que passo com você em
tempo real, percebo quando você levanta a sobrancelha direita e quando pisca
seus olhos mais vezes seguidas do que o normal. Uma banda ecoa em minha cabeça,
uma dessas bandas modernas e alternativas, com pratos e violoncelos, e eu
começo a imaginar como será quando ela tocar no nosso casamento. Você morde a
parte interna da bochecha e faz aquelas coisas que você costuma fazer nessa
altura do dia.
20 junho 2011
Bachianas #4
Estou aqui, trancafiado no meu quarto, esperando que a noite termine e que mais um dia se inicie. Que eu possa sorrir os sorrisos de sempre e evitar mais um constrangido com minha depressão, com a minha falta de vontade de viver. Mas pra que viver? Pra quê? Se tudo o que eu tenho é esse quarto onde me tranco, essa porta fina que filtra os sons dos que estão fora. Os felizes e os que fingem estar felizes. Nem sei se posso mais fingir. Tampouco sei se posso ser feliz. O que tenho é a melodia que me toma, me dá um pouco de vida. Eu diria, se eu não estivesse como estou, que tudo o que eu preciso é vida. Um pouco de vida. Assim como quem diz que está quente, que precisamos de uma chuva. Eu preciso de vida. E quando houver vida de um pouco de força para viver. Enquanto isso, me tranco, esperando o momento em que finalmente vou poder tomar minha caneca de vinho, fumar o cigarro da noite e esperar o dia surgir. Porque todo dia, ele surge. Surpreendendo os pessimistas como eu e confirmando os otimistas como eu. E depois de todo dia, vem a noite. Tão certa quanto essa melodia.
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