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07 setembro 2014

Ela


Foi com ela que tive meus filhos e com ela que passei os dias mais lindos da minha vida. Foi por ela que trabalhei tanto tempo na repartição e por ela que esperava os sábados e as festas das nossas crianças. Foi ela que me fez ir à igreja e foi ela que me tirou o vício da cachaça. Foi por causa dela que cheguei em casa na hora certa e por causa dela que trouxe o buquê de flores. Foi ela que fez com que eu não visse mal algum em trazer flores, foi ela que tirou da minha boca o amor que eu tinha dentro de mim e nem sabia que existia. Foi ela que vi no jeito que minha filha andava e na letra do garoto quando entrava no ginásio. Foi dela que herdei as xícaras que hoje bebo meu café e era dela o perfume que se mantém intacto na minha cabeceira. Foi porque ela olhou para mim que eu sosseguei e foi porque ela me acompanhou que cheguei até aqui.

04 setembro 2010

Sobre o sexo e a bicicleta


Se transar é como andar de bicicleta, eu já começo na desvantagem porque nunca aprendi a andar de bicicleta. E quando ficam estupefatos se eu digo isso, eu logo argumento perguntando onde uma bicicleta leva uma pessoa normal, como eu ou como você. Dessas pessoas que vão à faculdade na parte da manhã, ao bar na parte da noite e curtem um cineminha pdeudo-cult aos fins de semana. A bicicleta não leva ninguém a lugar nenhum, ela é uma lenda criada pela Ri Happy para vender brinquedos para as crianças de sete ou oito anos. Os pais nunca perceberam isso, mas bicicleta é uma coisa muito cara. Eu hei de proibir meu filho um dia de andar de andar de bicicleta.

Mas, se transar é como andar de bicicleta, e a gente nunca esquece, existe a chance de a gente não fazer feio quando o mundo der Aquela oportunidade. O sexo, ao contrário da bicicleta, nos leva a muitos lugares. Ainda que para muitos seja tão lenda quanto. Principalmente para aqueles que não aprenderam. Se transar é como andar de bicicleta, como explicar o fato de eu nunca querer proibir meu filho de transar?

Se esquecer como transar é quase tão impossível quanto esquecer como se anda de bicicleta, pelo menos para os que um dia aprenderam, transar não deverá ser um problema depois de meses sem sexo, pensava aquele menino que há tempos não sentia o vento no rosto. Basta segurar o guidão e deixar a rua seguir abaixo de suas rodas, dizia sua mãe, tranqüilizando-o. 

17 maio 2010

O filho perfeito


Era o filho perfeito, estudante universitário. Curso de Humanas. Falava algumas línguas com fluência. As outras, manipulava como ninguém. Sorria sempre no momento certo, isso era algo de que se orgulhava.

Nunca aprendera a andar de bicicleta, mas ainda assim era o orgulho da família toda. Principalmente da mãe, que era muito possessiva e andava satisfeita desde que descobriu que o crescimento dos pêlos pubianos do filho não tinha nada a ver com conhecer sua futura nora. Ou as futuras noras.

Ele nunca levava ninguém em casa. Exceto pelas amigas, era o que diziam os dois, enquanto todos se riam deles – o casal – rodeando a mesa do almoço de domingo. Eles coravam, como devia ser. Ela mais que ele.

Não sabia o que seria da sua vida se não fossem suas amigas, que aturavam o almoço com a sua mãe e as piadas do seu pai.

Ele seguia humanamente, na perfeição de um filho exemplar. Daqueles que não bebem e não voltam depois das onze da noite. Aquela mãe dormia tranqüila depois que seu filho estava na cozinha comendo a sobra da janta. Ele estava com fome. Fora exaustiva a reunião com seu orientador naquele quarto de motel.

21 abril 2010

Filhos


Nossos filhos vão brincar de Lego. Disso eu me asseguro. Nem que pra isso eu tenha que chantageá-los. Só vão entrar na internet se brincarem de Lego. E depois que eles montarem, seja lá o que for que suas criatividades decidirem montar, eu quero ver. Só pra me assegurar que eles não estão me enganando.

Eles vão estudar no Pedro II ou no Colégio Militar. Os dois ali nos arredores da Tijuca. Só porque eu não estudei nem em um, nem em outro. E não vão fazer faculdade na UERJ. Não admito nada a menos que UFRJ. Eles poderiam também sair da cidade. Deve ser bom viver longe dos pais e experimentar todas as coisas que a universidade proporciona. Em último caso, eles estudarão na PUC.

Nossos filhos vão perder a virgindade antes dos 15 ou depois dos 20, o que tiver na moda na época. E todos, eu disse todos, serão bissexuais. Os heterossexuais sofrerão preconceito, do mesmo jeito que os emos remanescentes dos anos 2000 e as caminhoneiras dos anos 1990.

Nossos filhos usarão o telefone só pra telefonar. Ninguém mais vai querer câmera de celular nem mp-qualquer-número. Ele ouvirão o equivalente ao Justin Bieber e usarão cabelo black-power. Drad vai ser coisa de inseguro e de tradicional.

Eles serão fãs dos filhos da Lady GaGa, que terão uma banda de músicas cantadas, sem gagueiras nem auxílio de artefatos eletrônicos. Eles irão namorar cedo e vão trair seus namorados. Vão ser melhores que a gente na hora de contar uma mentira e de serem enganados também. Serão facilmente traídos.

Vão comer no Burger King, mas sem a batata frita. Desde aquele artigo que deu numa matéria no Fantástico que fala sobre os perigos da batata no Brasil, nosso país nunca mais será o mesmo, nem os lanches do Bob’s, do McDolnald’s e do Burger King. A cenourinha não vai funcionar, nem a calabresa e o preço do lanche vai ter que diminuir. Eles só vão comer lá porque é mais barato que o restaurante do momento, pra dias especiais.

Vão se casar, diferente de mim, e vão ter filhos que nascerão com alguma anomalia que depois vai se descobrir ser coisa da geração. Os filhos deles também serão bissexuais e não entenderão de início como a coisa funciona. Nossos netos torcerão pro Botafogo. O Fluminense vai virar time amador e treinar ali no Aterro do Flamengo.

Quando eu estiver levando meus netos pro CCBB, pra exposição do filho da Deborah Secco, sobre as obras de Drummond, a gente vai parar pra dar uma olhada no treino, rezando pra poder ver de longe o busto do Renato Gaúcho enferrujado. Há dias que a gente tentava fazer isso. Há dias.