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24 outubro 2011

Perseguindo


Eu persigo e fantasio com todos vocês. Já namorei alguns, transei com outros e até comi fondue assim, sem nem estar fazendo frio. Eu encontrei todos vocês em lugares e joguei meu charme, aquela coisa de olhar e depois desviar fingindo ser mais tímido do que sou. A gente já viajou junto e, na viagem, conhecemos um ao outro intensamente. Eu e todos vocês. Não pense que você escapa, você que parece nem ter importância. Ainda ontem de noite, nos imaginei na cama, conversando sobre televisão. Depois nós bebemos uma taça de vinho tinto para celebrar que já passavam das duas e que você me deu a chance. É o que a gente vai fazer, eu e qualquer um de vocês, no dia em que eu tiver a chance. Nós vamos deitar, transar, comer e beber. O lençol, o ombro, a fumaça do cigarro.

Ah, se eu te encontro ali na esquina. Ah, se você me sorri, como sorriu quando eu imaginei a gente dobrando a rua. Pode assustar, mas é só uma pobre alma correndo atrás de felicidades. É só a chance de cada um de vocês ser a felicidade. Até você, que franze a testa e pensa: quanta besteira!

06 outubro 2011

Aquela festa na casa do Barney


Enquanto segurava meu copo de cerveja em uma mão e meus argumentos sobre o abuso da televisão em outra, olhava de rabo de olho para ter certeza que Barney estava me ouvindo, que pelo menos sabia que eu estava ali. Não adianta estar presente, é preciso ser notado, ser cheirado e ser comido. Enquanto ele não veio em minha direção e disse meia dúzia de palavras saltitantes não parei de beber, nem de fazer a cara de cool, aquela que guardo na porta da direita do meu armário de quinquilharias. Era só dar uma volta pela festa que vi que eu não era o único que tinha tirado do armário a cara de cool. Tantos jovens de camisas xadrez e Converse exibiam as suas. De todas as cores e formatos. Vi até uma que lembrava batata frita. Ou era isso ou era a minha cerveja fazendo efeito.

29 junho 2011

Cotidiano


Acorda às duas da tarde, liga o computador e consulta seus perfis nas redes sociais que faz parte. Levanta depois de uma hora mais ou menos, sem escovar os dentes e entregue à claridade da tela do computador. As janelas do quarto fechadas, a luz intensa do sol barrada, a temperatura alta. Porta trancada, roupas jogadas no chão. Ao sair do quarto, empurra uma calça jeans um pouco para a esquerda para poder abrir a porta e vai ao banheiro. A casa vazia, o corredor com aquela claridade típica dos dias de janeiro no Rio de Janeiro. A janela na sala fechada, a TV da sala desligada. Entra no banheiro, abre a torneira e deixa a água rolar. Se olha no espelho por uns dois minutos, enquanto escuta a água cair da torneira e bater contra o metal do ralo do lavatório. Continuamente. Depois abre o armário por trás do espelho e tira sua escova de dentes e o creme dental. Prepara o ritual e senta no vaso. Escova os dentes por sete a dez minutos, ainda ouvindo a torneira aberta. Ao fim, lava o rosto, fecha a bica e mija. Dá descarga, lava a mão e volta ao quarto. Senta novamente em sua cama, coloca o computador na coxa e se entrega a mais algumas horas.

05 junho 2011

Beijo gay


O garoto que nunca viu um beijo gay ligou a televisão às seis da noite e só saiu da cadeira de vime que mantinha sobre o tapete verde, herdada do avô materno, às dez da noite. Terminava assim mais uma noite de um dia sem beijo gay.

Naquela noite em especial, deitou-se sem conseguir se concentrar no sono. Pensava em bocas por trás de barbas cerradas, pensava em atores globais e em militâncias na praia de Ipanema. Se revirava de um lado para o outro, listando os motivos, os prós e os contras de um beijo gay.

Quantas oportunidades já tivera, quantas desperdiçadas, fazendo com que a vida continuasse a mesma, dia após dia, noite após noite, novela após novela. Era como se o mundo abrigasse menos personagens de Seinfield em troca de um espaço para o Bob Esponja, aquele trapalhão.

Levantou-se da cama, foi até a sala e ajoelhou-se, perto do pôster daquela loira velha. Pediu com todas as forças que tinha nos músculos em desenvolvimento que Deus permitisse que amanhã fosse um dia melhor. Que finalmente Deus acabasse com esse tormento e colocasse o beijo gay em uma novela.

Não importava se era das seis, sete ou oito. Podia ser até no Big Brother, mas que o beijo gay existisse. Com ou sem língua. Que fosse entre dois homens ou entre duas mulheres. Tanto fazia, ele não se importava. Na verdade, poderia ser até entre um homem e uma mulher, mas que a mulher fosse muito masculina.

Pegou no sono ali mesmo, ajoelhado. Na manhã seguinte acordou com dor na coluna e na lombar, adorava a palavra lombar e mais ainda a lombar dolorida. Lá pelas cinco, sentou-se na mesma cadeira de vime, rezando para que o sacrifício tivesse valido a pena.