23 maio 2014
Teresa
07 setembro 2011
Dark room
De repente os olhos se fecham e só o que se sente é o cheiro de cigarro misturado ao de suor alcoólico daquela noite. E como toda noite é escura, os outros sentidos se aguçam nas pontas dos dedos da mão e nos fios de cabelo.
26 junho 2011
Francês
23 junho 2011
Macarrão com carne moída
04 setembro 2010
Sobre o sexo e a bicicleta
26 julho 2010
Entrevista de emprego

04 junho 2010
Aprenda

Ninguém nasce sabendo. Todo mundo aprende com a vida. Lá pelos 16, ou 18 anos. Alguns demoram até os 25, os mais tímidos. Mais que isso, pode ser considerado aberração. Ninguém nasce sabendo e são poucos os que acertam de primeira. Alguns demoram mais que os outros, o que importa é que um dia acerte. Unzinho que seja. E nesse dia haverá distribuição gratuita de pirulito de tutti-frutti, pela conta do felizardo que finalmente aprendeu. Aprender é difícil. Não subestime esse avanço. Existem aqueles que estão a vida toda se gabando de já terem aprendido, quando na verdade ninguém tem coragem de dizer que não é bem daquele jeito. E quando você termina é sempre bom dar uma olhadinha nos olhos da pessoa. Você pode fingir que é romântico e que liga para o famoso olho-no-olho, mas você tem de estar atento pra notar qualquer resíduo de insatisfação. Caso haja, tentar de novo na próxima vez, com mais afinco. Pra quem não aprendeu ainda, é bom rezar para haver a próxima vez. E a gente sempre tem que aprender mais, principalmente quando se muda muito de namorado. Mais ainda quando não namora. O importante é aprender e não ficar pra trás. Não desista dessa missão. Quando a gente aprende o mundo fica colorido e a gente pode sorrir mais. Aquele sorriso de orelha a orelha que só os que já aprenderam conseguem dar tão espontaneamente. Pra aprender é sempre bom exercitar. Com os mais experientes, de preferência, e estar aberto para as dicas que possa receber. Não entenda mal as críticas nem as mensagens de celular não respondidas. Parta para outra e aprenda. Tem gente que você se engana e que simplesmente não tem vocação para passar os ensinamentos da vida. Essas pessoas vão morrer cedo, provavelmente de alguma doença ligada ao sistema digestivo.
02 junho 2010
Médico

Médico formado pela Universidade Federal, alto, forte procura para relacionamento aberto, do tipo “venha na minha casa, coma um strogonoff de frango ou de camarão – caso você não seja alérgico também – e transe comigo um pouco”.
A comida fica por minha conta, disso eu me asseguro. Você só precisa trazer o “Sim” e o sorriso infantil. Também cuido da sua saúde se for o caso e aquela piadinha de “brincar de médico” vai ser cuidadosamente evitada. Questões de ética de trabalho.
Eu estava acostumado a ligar uma vez por semana, sempre às quintas-feiras, por volta das oito ou oito e meia. Bolava um plano sobre como nos encontraríamos e transávamos umas duas horas. Depois disso era hora de ir pra casa, pra faculdade ou pra Avenida Atlântica comer pipoca de madrugada.
Sou limpo, cabelo cortado e a unha também. Se você não for assim também, não adianta ligar porque não vai rolar. Podemos construir uma relação sem cobranças, sem compromissos, nos veríamos quando quiséssemos e quando eu estivesse de folga.
Você não me conta sobre a sua semana, nem pergunta sobre a minha. Podemos falar sobre doenças de idosos, premiações da música internacional ou sobre o último jogo de futebol. Moro em Copacabana, quase no Arpoador.
Não trocamos cumprimentos calorosos, que é pra manter a distância e a discrição. Você dorme na sua cama e eu na minha. Aviso de antemão que isso é essencial para o desenvolvimento do relacionamento ou desse lance que vamos ter. Não falo e não gosto de quem fala lance.
E quando você cansar de mim, simplesmente responda às minhas perguntas. Principalmente se eu lhe perguntar se você está me enrolando. Não gosto de ser enrolado, tenho muito trabalho a fazer durante a semana e gosto de relaxar na minha folga.
Quinta-feira estou disponível. Me procure no Barra D’Or. Se você está interessado entre em contato por email, telefone, Twitter, Facebook, Formspring ou MSN. Simplesmente entre em contato.
24 maio 2010
Virgem

Ser virgem é um estado de espírito. Ainda que você tenha feito sexo ontem à noite com aquele desconhecido, naquele banheiro limpo de boate cara e bem freqüentada. Ou naquele banheiro sujo mesmo do barzinho da Voluntários.
É que quando você acorda e olha pras suas próprias mãos e vê aquela aparência juvenil, aquela que você achava que não tinha há muito tempo. Então você é virgem, do mesmo jeito que os meninos do Jonas Brothers, ainda que você não precise escutá-los.
E ninguém vai falar nada contra você. Afinal de contas, ser virgem também é uma escolha. Você escolheu ir dormir sozinho depois de ter assistido um drama espanhol no Tele Cine Cult na sexta-feira à noite. Muitas pessoas que fazem sexo nos banheiros de boates também vão dormir sozinhas, mas já é sábado de manhã. Elas também são virgens.
Portanto, se hoje à noite você tiver de pegar a condução e cruzar o túnel que te traz de volta pra realidade sozinho, não lamente. Você é virgem e muitos gostariam de estar no seu lugar. Porque você ostenta ainda o cheiro de álcool e o gosto nas papilas gustativas. Você é virgem porque não há ninguém pra te desvirginizar.
19 maio 2010
Socialista

Ajudar os pobres era sua função de vida. Ela os pegava na rua, levava para seu apartamento, dava-lhes postas de salmão e copos de vinho. Bancava os programas a dois, a três e em comunidade. Bancava a erva que fumavam juntos em ocasiões especiais.
O que pedia em troca era um pouco de atenção, uns beijos na boca, submissão, carinho e algumas noites de sexo. Não os tratava como superior, ela gostava de se sentir igual, afinal vivia numa nação socialista.
O que pedia em troca era um bom cabelo crespo, mantido a base de falta de banho e, se houvesse banho, falta de shampoo. Não falava o que queria com todas as letras, só deixava a entender quando servia o almoço do dia.
Levar meninos carentes para casa era sua função. Não via graça nos que conseguiam pagar sua própria passagem de ônibus, ainda que não gostasse de ser assim. As tentativas de levar meninos auto-suficientes para casa foram todas fracassadas.
Mendigos carregavam nos olhos um pouco do que é genuíno e carioca. Mendigos eram a alma das ruas por onde passava e a voz dos discursos políticos que ela ouvia. Mendigos declaravam poemas que ela não conhecia e isso já bastava. Isso e o bom cabelo de dread grudado num couro cabeludo de pele escura.
07 março 2010
DDD
Pelo menos ele sempre voltava com havia ido, excitado. Não era preciso nenhum esforço maior para que as coisas voltassem ao clima. Ele simplesmente conseguia manter o clima.
Quando voltava pra cama se amavam, porque ele era do tipo que fazia amor. Odiava falar de sexo casual, fazia carinho como ninguém. Não havia pessoa que não se derretesse aos seus encantos. Ele fazia qualquer pessoa se sentir única. Exceto enquanto estava no telefone.
Não tinha medo de ser descoberto. Ele sabia mentir da maneira certa e de vez em quando conseguia até se fazer de vítima, parecer inseguro, fingia ter medo de ser trocado por outro.
Mas nunca se sabe quando você será trocado, eu dizia a ele.
Enquanto isso ele ocupava a cama alheia, amando mais a si próprio do que a qualquer outra pessoa. Alguns diziam que ele estava certo. Eu sentia uma certa repulsa. Coisas do meu falso moralismo, da minha hipocrisia estendida na minha testa pra qualquer um que queira ver.
Trocava telefones, porque adorava telefonar. Aqueles malditos planos de celulares pré-pagos que te dão direito a falar horas pagando bem pouco. Quem pagava mesmo era quem esperava por ele na cama. Eu já achava caro pagar na mesa do bar. Quase nunca eu pago. Nem caro, nem barato.
Ele era do tipo que te chamava de “meu anjo” porque tinha medo de te chamar de “meu amor”. Amor só tem um, certo? E ele estava longe, esperando sua ligação. Mais trinta minutos de celular, mais 350 juras de amor (?), mais algumas mentiras, encenando uma falsa tristeza. Esse tipo de pessoa sempre parece triste pelo telefone. Pelo menos mais do que pessoalmente.
Quando ele volta pra cama, ele está excitado. Tem gente que acha que isso que é importante. Um telefonema pra outra cidade com o intuito de aquecer o coração de alguém amado e um sexo ereto com o intuito de aquecer a cama de quem se satisfaz com isso. Só com isso.
Porque ele era carinhoso, ele chamava de “meu anjo”. Já é melhor que chamar de coisa alguma. Porque até quando ele enganava era perfeito. Cada um se contenta com o que tem.




