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23 maio 2014

Teresa


Teresa só pensa naquilo. Por aquilo leia-se pães de mel e dormir grudado sem roupa. Fui capaz de levar a situação o quanto pude até que me faltou força física. Muito antes já estava esgotado de ouvir seus gemidos e maquinar uma maneira de, na noite seguinte, controlar aquela mulher. Ela vivia dizendo o que queria. Um corpo colado ao seu durante toda a noite, acordar sendo beijada na parte interna da coxa, sentir perfume e suor nas primeiras e últimas horas do dia. Entre tudo isso, pedia por um caminhão de pães de mel. Implorava até. Seus dedinhos frágeis tremiam todos quando eu me deitava. Em menos de cinco minutos tamborilavam sobre minhas costas. Por muitas vezes ignorei até pegar no sono. E Teresa chorava ali do lado, se contorcia, não se segurava. Outras vezes cedi, mesmo a contragosto. Valia a pena por uma noite de sono bem dormida, sem as lamentações daquela alma perdida. E quando a encontrava, no fim do dia antes da janta, estava sempre com aquele olhar seco e vazio. O rosto sempre meio corado e a pele que ardia em febre. As unhas sujas de doce até que ela as lambia e pedia por mais.

07 setembro 2011

Dark room


De repente os olhos se fecham e só o que se sente é o cheiro de cigarro misturado ao de suor alcoólico daquela noite. E como toda noite é escura, os outros sentidos se aguçam nas pontas dos dedos da mão e nos fios de cabelo.

Quando sente a mão puxar os fios de cabelo tão ralos e finos, parece puxar dentro de si a noite escondida e toda a escuridão daquela noite. E como os olhos estão fechados, o que enxerga é o halo que semeia em seu peito cabeludo, debaixo dos anos que se passaram.

É como se todas as luzes se apagassem, consumidas pelas mordidas úmidas. As costas suadas e o toque do suor, que desce correndo pelo corpo trêmulo e escuro. Tomados pelo gozo combinado, aquele seca o corpo e banha a camisa xadrez.

Se o cheiro fosse suficiente. Se o toque dos dedos dissesse algo. Se o gemido e o elogio pudessem ser sentidos.

26 junho 2011

Francês


Altas horas da madrugada, entre um sorriso bobo e outro, eu deitado no seu braço esticado, nossas pernas entrelaçadas e o teto sobre nós. Branco azulado, aquela luz da lua filtrada pelo lençol que esticamos na janela.

Era ali que eu me sentia ao todo, com as gotas de suor que brotavam nos pedaços de peles, minha e sua, que se tocavam. A cama desarrumada, os pratos com uvas verdes ali no canto e a penumbra do resto do nosso amor.

Seus dedos compridos e finos passavam levemente por cima do meu ombro e desciam até o peito. Acariciava os mamilos e beijava minha testa, se entortando todo para alcançar sua boca. Mas não me largava, não me tirava dos seus braços e era assim que devia ter sido para todo o sempre.

E quando as horas passavam, todas, e o sono nos tomava pelos calcanhares, você me pedia para falar francês, ainda que eu não soubesse nenhuma palavra. Eu sabia que era só pra ouvir minha voz, eu preferia pensar com essa dose grande de romantismo. Eu dizia as mesmas coisas e cantava as mesmas canções.

Sempre achava que fazia papel de bobo, que era idiotice recitar palavras que não se sabe significado nem pronúncia. Mas as falava de qualquer modo e segurava sua outra mão, rezando para que você mantivesse seus olhos abertos junto a mim.

Rezava, entre aquelas palavras-mitos, para que você me visse adormecer porque isso era tudo o que você queria para a vida. Que aquele momento e aquela minha voz ficariam para sempre presos naquele seu quarto, debaixo daquele teto, sentindo o cheiro da uva que apodrecia no calor da cidade.

E quanto mais eu falasse, maiores seriam as chances de você não ir. Dos seus olhos não se fecharem, de você não me esquecer. Eu sofria com a possibilidade, eu sofria. Tola inocência aquela que ouve as palavras e pensa que não fazem sentido. Tola inocência.

23 junho 2011

Macarrão com carne moída


Ele só queria aquilo. O outro só queria dormir. Deitava de lado, no sofá mesmo, entre um filme água-com-açúcar e outro delicado que passava em qualquer desses canais de filmes femininos.

Dizia que o problema era o trabalho, que não agüentava de cansaço, ainda que as coisas estivessem bem entre eles na altura do joelho. Não gostava de forçar, já tinha perdido vários com tanta força. Diziam que ele só queria saber daquilo.

Dessa vez fez café-da-manhã e deixou-o dormir. Da vez seguinte fez o almoço e depois o jantar. Macarrão com carne moída, que era a única coisa que não salgava demais. Comprou refrigerante de uva porque viu na revista que era bom para relacionamentos sérios. Afinal de contas, era isso que queria.

O sono não passava, o fim de semana só passava. Na rua, os meninos descamisados cresciam, mostravam os músculos e passavam gel no topete. Ele bebia a cerveja toda que estava na geladeira, fumava o cigarro todo que ficava do lado do computador e esperava que o sono passasse.

Entre um cigarro e outro, fazia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída. O outro dormia, mantendo o relacionamento sério pelo qual tanta ansiara. Pensava que a juventude lhe traria um pouco de virilidade, força. Mas a única força que via era a força que fazia para tentar tirá-lo da cama.

Mas a cama sempre ocupada. Sempre por um e por mais ninguém. Aquele que comia o café-da-manhã, o almoço e o jantar. Macarrão com carne moída e uma pitada de raiva do mundo.

04 setembro 2010

Sobre o sexo e a bicicleta


Se transar é como andar de bicicleta, eu já começo na desvantagem porque nunca aprendi a andar de bicicleta. E quando ficam estupefatos se eu digo isso, eu logo argumento perguntando onde uma bicicleta leva uma pessoa normal, como eu ou como você. Dessas pessoas que vão à faculdade na parte da manhã, ao bar na parte da noite e curtem um cineminha pdeudo-cult aos fins de semana. A bicicleta não leva ninguém a lugar nenhum, ela é uma lenda criada pela Ri Happy para vender brinquedos para as crianças de sete ou oito anos. Os pais nunca perceberam isso, mas bicicleta é uma coisa muito cara. Eu hei de proibir meu filho um dia de andar de andar de bicicleta.

Mas, se transar é como andar de bicicleta, e a gente nunca esquece, existe a chance de a gente não fazer feio quando o mundo der Aquela oportunidade. O sexo, ao contrário da bicicleta, nos leva a muitos lugares. Ainda que para muitos seja tão lenda quanto. Principalmente para aqueles que não aprenderam. Se transar é como andar de bicicleta, como explicar o fato de eu nunca querer proibir meu filho de transar?

Se esquecer como transar é quase tão impossível quanto esquecer como se anda de bicicleta, pelo menos para os que um dia aprenderam, transar não deverá ser um problema depois de meses sem sexo, pensava aquele menino que há tempos não sentia o vento no rosto. Basta segurar o guidão e deixar a rua seguir abaixo de suas rodas, dizia sua mãe, tranqüilizando-o. 

26 julho 2010

Entrevista de emprego


O que você gosta de fazer nos fins de semana?
Sair pra encher a cara, principalmente se eu não tenho um tostão furado no bolso e consigo voltar pra casa bêbado às custas de alguém. Se esse alguém dormir comigo depois, melhor ainda. Gosto também de ir ao cinema, mas só assisto sessões legendadas e de preferência sem 3D. Não curto muito o 3D, não.

Qual é o sua maior qualidade?
Difícil, eu sou muito auto-crítico. Isso conta?

E o seu maior defeito?
Sou o dono da verdade, sou difícil de lidar, autoritário, às vezes sou fofoqueiro também, mas só quando a fofoca vale a pena.

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Qualquer coisa? (pausa para pensar com os olhos perdidos no ventilador de teto empoeirado) Eu deixaria de ser viciado em comida. Isso me atrapalha muito. Se eu não fosse tão gordo, transaria com muito mais freqüência e com muito mais pessoas. E quando eu quisesse sossegar meu facho também seria mais fácil porque minhas chances de arranjar alguém legal seriam maiores que as de uma pessoa gorda.

Por que você escolheu Engenharia Química?
Dinheiro. Só por isso mesmo. Eu odeio cálculo, odeio física e odeio o fato de não ter nenhum ramo na Engenharia Química que seja ligado à literatura. Foi por dinheiro mesmo. Me disseram, na época da escola, que daria dinheiro, que é um mercado em expansão. A história do petróleo e tal. Então, aí eu fiz.

Qual área da Engenharia Química você prefere?
Escritório, de preferência projeto. Sem prazo. Odeio prazos. Mas no escritório seria bom. Morro de medo de ter que passar a vida toda usando jaleco. (vira os olhos e faz cara de nojo – a mesma cara que ostenta desde o início do diálogo) No escritório é legal porque eu posso ir bem vestido, vou ter uma mesa e um computador pra ficar atualizando o Twitter durante o dia ou vendo pornografia.
(a mulher anota algumas coisas no caderno que tem a sua frente)

Obrigada, quando a gente tiver uma resposta a gente entra em contato, ok?
Ok.

04 junho 2010

Aprenda


Ninguém nasce sabendo. Todo mundo aprende com a vida. Lá pelos 16, ou 18 anos. Alguns demoram até os 25, os mais tímidos. Mais que isso, pode ser considerado aberração. Ninguém nasce sabendo e são poucos os que acertam de primeira. Alguns demoram mais que os outros, o que importa é que um dia acerte. Unzinho que seja. E nesse dia haverá distribuição gratuita de pirulito de tutti-frutti, pela conta do felizardo que finalmente aprendeu. Aprender é difícil. Não subestime esse avanço. Existem aqueles que estão a vida toda se gabando de já terem aprendido, quando na verdade ninguém tem coragem de dizer que não é bem daquele jeito. E quando você termina é sempre bom dar uma olhadinha nos olhos da pessoa. Você pode fingir que é romântico e que liga para o famoso olho-no-olho, mas você tem de estar atento pra notar qualquer resíduo de insatisfação. Caso haja, tentar de novo na próxima vez, com mais afinco. Pra quem não aprendeu ainda, é bom rezar para haver a próxima vez. E a gente sempre tem que aprender mais, principalmente quando se muda muito de namorado. Mais ainda quando não namora. O importante é aprender e não ficar pra trás. Não desista dessa missão. Quando a gente aprende o mundo fica colorido e a gente pode sorrir mais. Aquele sorriso de orelha a orelha que só os que já aprenderam conseguem dar tão espontaneamente. Pra aprender é sempre bom exercitar. Com os mais experientes, de preferência, e estar aberto para as dicas que possa receber. Não entenda mal as críticas nem as mensagens de celular não respondidas. Parta para outra e aprenda. Tem gente que você se engana e que simplesmente não tem vocação para passar os ensinamentos da vida. Essas pessoas vão morrer cedo, provavelmente de alguma doença ligada ao sistema digestivo.

02 junho 2010

Médico


Médico formado pela Universidade Federal, alto, forte procura para relacionamento aberto, do tipo “venha na minha casa, coma um strogonoff de frango ou de camarão – caso você não seja alérgico também – e transe comigo um pouco”.

A comida fica por minha conta, disso eu me asseguro. Você só precisa trazer o “Sim” e o sorriso infantil. Também cuido da sua saúde se for o caso e aquela piadinha de “brincar de médico” vai ser cuidadosamente evitada. Questões de ética de trabalho.

Eu estava acostumado a ligar uma vez por semana, sempre às quintas-feiras, por volta das oito ou oito e meia. Bolava um plano sobre como nos encontraríamos e transávamos umas duas horas. Depois disso era hora de ir pra casa, pra faculdade ou pra Avenida Atlântica comer pipoca de madrugada.

Sou limpo, cabelo cortado e a unha também. Se você não for assim também, não adianta ligar porque não vai rolar. Podemos construir uma relação sem cobranças, sem compromissos, nos veríamos quando quiséssemos e quando eu estivesse de folga.

Você não me conta sobre a sua semana, nem pergunta sobre a minha. Podemos falar sobre doenças de idosos, premiações da música internacional ou sobre o último jogo de futebol. Moro em Copacabana, quase no Arpoador.

Não trocamos cumprimentos calorosos, que é pra manter a distância e a discrição. Você dorme na sua cama e eu na minha. Aviso de antemão que isso é essencial para o desenvolvimento do relacionamento ou desse lance que vamos ter. Não falo e não gosto de quem fala lance.

E quando você cansar de mim, simplesmente responda às minhas perguntas. Principalmente se eu lhe perguntar se você está me enrolando. Não gosto de ser enrolado, tenho muito trabalho a fazer durante a semana e gosto de relaxar na minha folga.

Quinta-feira estou disponível. Me procure no Barra D’Or. Se você está interessado entre em contato por email, telefone, Twitter, Facebook, Formspring ou MSN. Simplesmente entre em contato.

24 maio 2010

Virgem


Ser virgem é um estado de espírito. Ainda que você tenha feito sexo ontem à noite com aquele desconhecido, naquele banheiro limpo de boate cara e bem freqüentada. Ou naquele banheiro sujo mesmo do barzinho da Voluntários.

É que quando você acorda e olha pras suas próprias mãos e vê aquela aparência juvenil, aquela que você achava que não tinha há muito tempo. Então você é virgem, do mesmo jeito que os meninos do Jonas Brothers, ainda que você não precise escutá-los.

E ninguém vai falar nada contra você. Afinal de contas, ser virgem também é uma escolha. Você escolheu ir dormir sozinho depois de ter assistido um drama espanhol no Tele Cine Cult na sexta-feira à noite. Muitas pessoas que fazem sexo nos banheiros de boates também vão dormir sozinhas, mas já é sábado de manhã. Elas também são virgens.

Portanto, se hoje à noite você tiver de pegar a condução e cruzar o túnel que te traz de volta pra realidade sozinho, não lamente. Você é virgem e muitos gostariam de estar no seu lugar. Porque você ostenta ainda o cheiro de álcool e o gosto nas papilas gustativas. Você é virgem porque não há ninguém pra te desvirginizar.

19 maio 2010

Socialista


Ajudar os pobres era sua função de vida. Ela os pegava na rua, levava para seu apartamento, dava-lhes postas de salmão e copos de vinho. Bancava os programas a dois, a três e em comunidade. Bancava a erva que fumavam juntos em ocasiões especiais.

O que pedia em troca era um pouco de atenção, uns beijos na boca, submissão, carinho e algumas noites de sexo. Não os tratava como superior, ela gostava de se sentir igual, afinal vivia numa nação socialista.

O que pedia em troca era um bom cabelo crespo, mantido a base de falta de banho e, se houvesse banho, falta de shampoo. Não falava o que queria com todas as letras, só deixava a entender quando servia o almoço do dia.

Levar meninos carentes para casa era sua função. Não via graça nos que conseguiam pagar sua própria passagem de ônibus, ainda que não gostasse de ser assim. As tentativas de levar meninos auto-suficientes para casa foram todas fracassadas.

Mendigos carregavam nos olhos um pouco do que é genuíno e carioca. Mendigos eram a alma das ruas por onde passava e a voz dos discursos políticos que ela ouvia. Mendigos declaravam poemas que ela não conhecia e isso já bastava. Isso e o bom cabelo de dread grudado num couro cabeludo de pele escura.

07 março 2010

DDD

Depois de trinta minutos ele ainda estava excitado quando voltou pra cama. Não era permitido reclamar. Sempre foi de conhecimento que ele era comprometido. Que ele gastava horas no telefone, fazendo juras de amor.

Pelo menos ele sempre voltava com havia ido, excitado. Não era preciso nenhum esforço maior para que as coisas voltassem ao clima. Ele simplesmente conseguia manter o clima.

Quando voltava pra cama se amavam, porque ele era do tipo que fazia amor. Odiava falar de sexo casual, fazia carinho como ninguém. Não havia pessoa que não se derretesse aos seus encantos. Ele fazia qualquer pessoa se sentir única. Exceto enquanto estava no telefone.

Não tinha medo de ser descoberto. Ele sabia mentir da maneira certa e de vez em quando conseguia até se fazer de vítima, parecer inseguro, fingia ter medo de ser trocado por outro.

Mas nunca se sabe quando você será trocado, eu dizia a ele.


Enquanto isso ele ocupava a cama alheia, amando mais a si próprio do que a qualquer outra pessoa. Alguns diziam que ele estava certo. Eu sentia uma certa repulsa. Coisas do meu falso moralismo, da minha hipocrisia estendida na minha testa pra qualquer um que queira ver.

Trocava telefones, porque adorava telefonar. Aqueles malditos planos de celulares pré-pagos que te dão direito a falar horas pagando bem pouco. Quem pagava mesmo era quem esperava por ele na cama. Eu já achava caro pagar na mesa do bar. Quase nunca eu pago. Nem caro, nem barato.

Ele era do tipo que te chamava de “meu anjo” porque tinha medo de te chamar de “meu amor”. Amor só tem um, certo? E ele estava longe, esperando sua ligação. Mais trinta minutos de celular, mais 350 juras de amor (?), mais algumas mentiras, encenando uma falsa tristeza. Esse tipo de pessoa sempre parece triste pelo telefone. Pelo menos mais do que pessoalmente.

Quando ele volta pra cama, ele está excitado. Tem gente que acha que isso que é importante. Um telefonema pra outra cidade com o intuito de aquecer o coração de alguém amado e um sexo ereto com o intuito de aquecer a cama de quem se satisfaz com isso. Só com isso.

Porque ele era carinhoso, ele chamava de “meu anjo”. Já é melhor que chamar de coisa alguma. Porque até quando ele enganava era perfeito. Cada um se contenta com o que tem.