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01 fevereiro 2015

Esses


Tem quem não nasceu para amar. Esses são bombardeados diariamente com o amor dos outros, aqueles que nem percebem porque estão ocupados demais, amando. Tem quem chega à conclusão de que nunca existiu essa coisa de amor. Esses olham tudo com olhos cínicos, da ladeira de Santa Teresa ao casal apaixonado na portaria do prédio. Tem quem vive tentando. Esses dão o sangue e horas em conversas vazias sem fim porque não admitem que não fazem parte do seleto elenco da Malhação. Tem quem ama perdidamente. Esses, de tanto amar perdidamente, se perdem irreversivelmente e nunca se acham nessa matéria negra e líquida que nasce de dois. Tem quem prefere aproveitar. Esses amam um pouco aqui e um pouco ali e sentam em mesas de bares dizendo que não amam nunca ninguém. Tem quem acha que aquele é o amor e ponto. Esses estão sempre falando de estabilidade e de The Voice Brasil, achando um absurdo quando cruzam com aquele casal loucamente apaixonado na saída do metrô.

E tem eu.

25 janeiro 2015

Sobre como ser romântico estando sozinho


Maior besteira é se esforçar pra encontrar amor. No fim das contas, o que sobra sou eu e o lado esquerdo da minha cama vazio. Melhor forçar um sorriso, sair pra beber, falar palavrão. Melhor mesmo é fumar um maço de cigarros infinito, porque só depende de você quando o maço acaba e os cigarros te abandonam. Não faz sentido conhecer gente nova e viver uma história de três noites na tela do iPhone. Bom mesmo é viver com segurança a vida da Lady Mary Crawley na tela da TV por cinco temporadas, de setembro a dezembro. O que não faltam são Ladys Marys.

Ninguém precisa de ninguém, nem de nada. Hoje eu sei que é possível abrir mão de um amor como os da Disney ou do sonho de doce de leite daquela padaria de Copacabana, que eu comia quando eu saía da noitada, uns seis anos atrás. Agora nem sei mais o endereço daquele lugar. Mas tudo fica bem, um dia a gente aprende. A princípio você se sente mal, dá vertigem, é como um abismo pra morte. Mas a verdade mesmo, aquela que você descobre depois que abre os olhos e toma uma caneca de café preto, é que ninguém morre por estar só. Ninguém.

18 janeiro 2015

A pessoa da sua vida


Quando você conhece a pessoa da sua vida, você acha que ela será a pessoa da sua vida porque você vai viver a vida inteira com ela. Vai vê-la envelhecer, vai ouvi-la reclamar do trânsito, comentar o jornal, mencionar aquela consulta ao oftalmologista mal-educado. Maior burrice. A pessoa da sua vida pode ser a pessoa em que você pensa, insistentemente. Depois de quatro anos, depois de dezesseis, depois de trinta e um anos, três dentes arrancados e cinco colonoscopias. A pessoa da sua vida nunca deixa de ter a pele lisa. Fuma Hollywood vermelho, mas não tem aquela mancha amarelada entre o indicador e o dedo médio. A pessoa da sua vida está sempre sorrindo em câmera lenta, ou então é o mundo todo ao redor que está em alta velocidade.

Às vezes eu penso na pessoa da minha vida. Mentira, mesmo sem querer eu penso a toda hora. Como um desses fanáticos, perseguidores, doentes mentais. A pessoa da sua vida é aquela que você lembra frequentemente, ainda que tenha certeza que ela nem sabe mais pronunciar seu sobrenome. A pessoa da sua vida é aquela que vem na sua cabeça quando toca aquela música. A música mesmo pode ser do Roberto Carlos, do Rod Stewart ou dos Beatles. O repertório é longo, as pessoas também, as sentenças que eu crio para falar da pessoa da minha vida. Tudo é longo, em se tratando da pessoa da sua vida. Por mais curtos que sejam aqueles segundos. Por mais desfocado que tudo pareça aos seus olhos.

11 janeiro 2015

Goodbye


Eu te amo, mas talvez eu ame mais outro alguém. Por isso me despeço de você. Se nada der certo nos encontramos daqui a uns dias. Voltamos a nos encontrar. Voltamos a ser um do outro. Mas por enquanto, preciso me despedir.

Eu te amo, mas há tanto a ser vivido. Tantos rostos pra eu amar, tantos pra eu velar enquanto dormem, do jeito que eu faço com você. Se nenhum rosto me distrair como você hoje me distrai, te ligo. Mas por enquanto preciso viver.

Eu te amo, mas talvez esteja enganado. Dizem que nessa idade a gente se engana. Vai ver tudo não passou de um erro. Tudo não passou de confusão. E se o acerto for voltar pra você, juro que volto.

Eu te amo, mas não deve ser para vida toda. Preciso achar esse meu amor. Aquele que vai durar uma eternidade. Com quem terei meus filhos e envelhecerei. Se nenhum outro amor durar, passo na sua casa. Eu sei que você não vai se mudar.

Ouvindo: Goodbye - Natalie Imbruglia

04 janeiro 2015

Coragem


Sozinha é que eu não fico. Disso eu tenho certeza. Não é porque você está dizendo que precisa ir embora que eu tenho que ficar aqui. Vou andar por outros lugares, conhecer outros ares, aproveitar a vida, como eles dirão mais frequentemente daqui a uns dez ou vinte anos. Só não admito ficar só. Não sendo jovem, não com tanta beleza, não com tanta vida dentro de mim.

E se em algum momento eu ficar mal, se eu repensar minha vida, se eu achar que devia ter te implorado hoje para ficar, me prenda, me bata, me mate. Não me deixe duvidar de mim, não me deixe rever minhas escolhas, não me deixe me arrepender. Se eu gritar por ajuda, se eu chorar, nem assim estenda a sua mão. Se eu chegar a esse ponto, aí sim mereço a solidão.

Hoje não. Hoje eu mereço a luz dos postes da cidade, mereço o barulho, mereço o caos que tem ao redor de quem tem coragem de vivê-lo. Sua ida talvez seja a coragem que me faltava para olhar a luz sem medo de me cegar. Agora, que estou prestes a tirar meus óculos escuros, não tenho medo de nada. Porque eu sei que não mereço nada de ruim.

28 dezembro 2014

Será errado?


Será errado pensar em você quando a noite chega e eu me tranco no meu quarto? Será errado imaginar você e a sua boca roçando na minha orelha enquanto diz alguma coisa da qual irá se envergonhar no futuro? Será errado me sentir o homem mais poderoso quando vejo em minha mente meu corpo dominando o seu? Será errado amar seu coração e querer sua virilha ao mesmo tempo? Será errado imaginar sua pele clarinha e macia debaixo desse tecido velho que você usa de segunda a sexta?

Depois de toda a alegria que eu gero em meu corpo. Depois que os pelos dos meus braços se assentam novamente na minha pele. Depois que eu consigo fechar os olhos, já cansado. Só depois que eu penso em todas essas coisas. Enquanto me culpo por ser como sou, por não resistir à fantasia que tenho de você. Suas coxas meio abertas, sentada na minha cama de solteiro, me chamando para acompanhá-la, enquanto o Lanterna Verde nos observa no pôster do meu quarto.

21 dezembro 2014

Futuro


Das noites que nos divertiremos, guardo o seu sorriso. Você vive animada com a possibilidade de toda uma vida de amor. Sim, nós envelheceremos e não nos esqueceremos do que é sentir esse amor. Nem teremos vergonha, como nossos contemporâneos. Nós amaremos a vida, a música que toca no carro, aquelas noites.

O vento que bate no seu cabelo é o mesmo que me leva para um futuro, quando andaremos de mãos dadas por qualquer lugar que seja. Andaremos ainda que tenhamos sede. Andaremos porque é o que fazemos de melhor. Sonharemos com o futuro e com a felicidade verdadeira guardada nele.

Você já não fica melancólica com qualquer voz áspera que toca no meu Philco e eu estou sempre ao seu lado para te colocar uma flor atrás da orelha, como venho fazendo desde muitos anos atrás. E tudo vai valer a pena porque você vai sorrir naquelas noites. Esses sorrisos alimentam até hoje os meus sonhos, quando me sinto cansado, mas nunca para te acompanhar.

14 dezembro 2014

A suicida


Às vezes parece que tudo dá errado para mim. É nessas horas eu sinto vontade de morrer. Não é morrer por morrer, como as crianças de doze anos sentem vontade. Quero morrer para não morrer de cansaço. Tem gente que não tem sorte; que, por mais que tente, simplesmente não nasceu para o sucesso e talvez eu seja uma dessas pessoas. E, para agilizar todo o processo de tenta/decepciona/morre, quero morrer agora. Só por isso. Por isso e por causa da falta que você me faz. Me pergunto quem é você, onde você está e o que está vestindo, como no filme que eu acabei de assistir, mas nem tenho tanto interesse assim em saber. O que me interessa agora é morrer. Morrer e acabar com a falta de paz que a tua falta me faz.

07 dezembro 2014

Sardas


Eu gosto quando você diz que as sardas que você carrega nos seus ombros aparecem todas as vezes que você tem vontade de confessar o seu amor a uma certa pessoa. E você fala assim "certa pessoa" como quem tem vergonha de amar demais ou de todas as sardas que você carrega nos ombros. E eu passo horas imaginando que essa "certa pessoa" sou eu, mesmo que você nunca me diga quem é. Não importa o que eu prometa, você nunca me diz. Aí eu acho que você faz de propósito. Que essa é a sua maneira de dizer que me ama e que sente vontade de me dizer, mesmo que você nunca me diga. Pode parecer loucura, mas é assim que é. 

E toda vez que eu olho você e suas sardas nos ombros, eu sinto como se lesse meu nome. Como se elas formassem um coração. Todas essas coisas clichês que casais apaixonados escrevem em árvores ou em papéis de carta. Mas você prefere escrever na pele, mesmo que seja involuntário. E só quem pode ler sou eu. Talvez porque eu não esteja no meu melhor estado mental. Talvez porque fosse tudo o que eu internamente desejasse. 

30 novembro 2014

Maria


Maria era menina para casar. Sempre soube disso, desde que a vi, correndo no mato, debaixo do sol de setembro, que é lindo aqui na nossa cidade. E de vez em quando ela virava para trás e me olhava. Soltava um sorriso, desses sorrisos de boca e de olho. O cabelo dela balançava, parecia ter vida própria quando Maria corria. Ela costumava andar descalça e ainda assim parecia limpa. Cheirava a baunilha e a verão, qual fosse a estação. Decidi naquele dia que Maria seria minha. Ela não falava alto, não encostava o cotovelo na mesa na hora da janta, não roía as unhas das mãos. Maria não dava conversinha nem sorria aquele sorriso dela para qualquer um. Maria parecia que era só minha. Se comportava nas festas, não tinha Tinder, nem ex-namorado Maria tinha. Ela tinha uma voz doce e cantarolava a canção da abertura da novela toda vez que tomava banho. Aqui fora, no nosso quarto, ainda hoje me encanto com a voz da Maria debaixo do chuveiro. Tão afinada é Maria.

23 novembro 2014

Daquela dança


Você se lembra do dia que a gente dançou aquela música? Você dizia que aquela música era nossa e eu não entendia. Mesmo assim, sempre que ouvia, me lembrava da tarde que a gente dançou junto. Você parecia tão leve, tão infantil, tão doce. Seu cabelo também cheirava a doce. Eu lembro porque eu queria morder ele todo, colocar cada fio na minha boca e sentir seu gosto como quem come algodão doce. Você se lembra do toque da minha mão, guiando você? Eu me lembro do toque da sua. Sua mão estava meio úmida e você me dizia que estava assim porque era dezembro. A gente dançou e eu acho que durou só cinco minutos. Mesmo assim, só me lembro daquela dança, quando ouço aquela música. Eu lembro que o dia estava agitado e quente; que você usava aquela blusinha de alça e o cabelo amarrado. Eu lembro que eu queria te rodar mais vezes, que é para o vento que se formava ao nosso redor nos refrescasse um pouco. Mas você se mantinha estática, como quem espera uma sinfonia de cordas começar. E você me olhava.

16 novembro 2014

Silicone


Eu achei que a culpa era minha por você não me olhar. Eu era muito magra, muita branca, muito cheia de espinhas e de não-me-toques. Eu, então, me maquiei toda, passei perfume e coloquei enchimento no sutiã. Sorri para você como sorriem as mocinhas dos filmes que a gente assiste no verão, e fiz aquele olhar de peixe morto que elas fazem e que deixam os homens assim tão encantados. Treinei durante meses na frente do espelho. Imitava os trejeitos das estrelas e fazia nascer em mim esse brilho que parece que é só das outras. Você não olhava para mim. Se olhava, se distraía depois de alguns segundos. Eu aumentava o decote, diminuía a saia e regulava meu sex appeal, mas você só queria elas. Eu desfilava com outros homens e me entregava para aqueles que não chegavam aos seus pés, mas você nem me percebia. Eu engordei, emagreci, coloquei silicone. Pintei o cabelo, alisei o cabelo, escovei o cabelo. Mudei meus gestos, mudei meu emprego e o meu tom de voz. Mas você só se dirigia a mim como a menina sem sal, com tranças compridas que um dia eu fui.

09 novembro 2014

Bicicleta


Fui eu que ensinei você a andar de bicicleta e a beijar na boca. Nada mais justo que você se apaixonasse mesmo por mim. Mas eu tenho tantos sonhos. Ainda hão de existir tantas bocas a quem eu possa ensinar a me beijar. Tantas bicicletas para montar. Eu vou andar por todas as ruas, olhando em todas as esquinas, procurando o mesmo olhar de curiosidade e surpresa que você me olha quando eu toco na sua pele com alguma novidade. Talvez quando eu me cansar de todas essas bocas e todas essas bicicletas, talvez aí eu volte para você.

Eu não sei como, exatamente, você vai estar; não sei nem se você vai me aceitar. Mas o que eu quero mesmo é que seja a sua vez de me surpreender e me ensinar coisas. Te deixo seguir adiante agora, para depois conhecer de novo você.

02 novembro 2014

Eu quero


Eu quero ter a sorte de encontrar o amor que meus pais encontraram. Eu vejo os dois sentados na mesa de jantar, bebendo chá verde e de camomila, olhando um para o outro. Eles trocam olhares apaixonados. Eu sei, porque é o mesmo olhar que eu vejo na TV, na novela das seis.

Eu quero acordar de manhã com a sua voz meio distante, cantarolando Roberto Carlos, na calçada da minha casa. Os vizinhos todos saindo na janela para ver a paixão que você declara por mim. Eu vou sorrir da sacada do meu quarto e mandar beijos para você, enquanto você dedilha as cordas do seu ukulele.

Eu quero morder um pandeló e sentir o metal da aliança, enquanto você ri, sentado na minha frente, saboreando toda a perspicácia e romantismo na hora de me pedir em casamento. Eu aceito, você me beija. Nós dois saímos pela noite, de mãos dadas, andando pelas ruas da cidade a exibir o brilho nos meus dedos.

26 outubro 2014

A casa


Nossa casa vai ter um quintal gigantesco que é pra eu me deliciar com você de short, toda descabelada, pendurando as roupas das crianças nos varais. E vai ter goiabeira, e bananeira, e mangueira, e amoreira. Vai ter muita sombra no nosso quintal, mesmo em janeiro. As crianças vão correr e rolar no chão de mato capinado. O mesmo chão onde o nosso pastor alemão faz as sujeiras dele.

Na sala vai ter a minha poltrona, bem de frente para a TV, onde eu vou ficar fumando um cigarro depois da janta, ouvindo o homem do jornal contando as notícias. Do meu lado vai ter uma mesinha, que é pra você apoiar o copinho de licor de menta que você traz pra mim, pra ajudar minha digestão.

Nosso quarto vai ser um ninho. Teu cheiro espalhado pra todo lado. Teu gosto, tuas roupas, tuas joias. Eu só quero mesmo é deitar na nossa cama e ficar olhando você voltando do banheiro de camisola e touca na cabeça.

19 outubro 2014

Night Club


Não durmo há oito meses porque tenho medo de fechar meus olhos e nunca mais me acostumar com as luzes fluorescentes que piscam na noite lá fora. Às vezes preciso de um descanso, mas tenho medo de parar para descansar e nunca mais me levantar. Eu vivo ouvindo as vozes estranhas e rindo sorrisos vazios para pessoas que não sabem se comunicar comigo. Pode ser que nem eu saiba me comunicar comigo hoje em dia. Culpa da falta de tempo, aquele tempo que eu usava para comer pão na chapa, beber café com leite e ler o jornal de domingo pela manhã. Agora eu não vejo o sol, porque estou trancada num quarto de motel com algum desconhecido. Espero que ele pague meu taxi na volta e que ele não peça para dividir a conta só porque eu bebi uma latinha de Pepsi do frigobar. Enquanto eu retoco a maquiagem, eu penso no sapato que vou usar na noite seguinte e no tipo de cara de paisagem que vou fazer durante a noite quando encontrar aquele cara com quem eu dormi num desses fins de festas e que nunca me retornou. Aquele até seria um bom namorado. Por ele, eu abriria mão das luzes das boates.

12 outubro 2014

Nota de despedida


Querido,

Desculpe por não esperar você acordar, mas é que tudo isso faz parte da minha rotina. Eu me fui assim, sem me despedir, para que você me esqueça e para que eu nem me lembre de você. Não quero me lembrar de como te amei mais do que a qualquer outro que amei ontem, da hora que acordei à hora que deixei você aí.

Aconselho você a tomar uma boa caneca de café e ajeitar as almofadas no sofá da sala. Só hoje, que é pra ver se faz com que você supere a solidão mais rápido. E vá trabalhar, vá ver outras pessoas, saia de casa nem que seja para comprar cigarro. Saia.


Quem sabe você não encontra outra pessoa por aí, no caminho de volta pra casa? Quem sabe essa pessoa não sou eu?

05 outubro 2014

Banda moderna


Nós estamos aqui, separados somente pelo ar úmido do verão que rodeia e envolve as extremidades dos nossos corpos. Passamos horas sem falar nada, um para o outro, só permanecemos deitados, de olhos abertos, lado a lado. Ouvimos as canções que tocam no rádio, enquanto o dia acaba no lado de fora da nossa casa. Você costuma sorrir para o teto e eu gosto de guardar esses momentos particulares, ainda que você nunca me diga por que sorri. Eu tenho a mania de ficar pensando mil coisas e analiso cada minuto que passo com você em tempo real, percebo quando você levanta a sobrancelha direita e quando pisca seus olhos mais vezes seguidas do que o normal. Uma banda ecoa em minha cabeça, uma dessas bandas modernas e alternativas, com pratos e violoncelos, e eu começo a imaginar como será quando ela tocar no nosso casamento. Você morde a parte interna da bochecha e faz aquelas coisas que você costuma fazer nessa altura do dia.

28 setembro 2014

Boêmio


Sonhava com você assim, meio malandro. Você falava arrastado e me trazia o cigarro aceso e um copo de conhaque. A gente ficava até tarde da noite olhando a vizinhança pela grade da nossa janela da sala. Quando você se cansava, pedia pra eu subir para o quarto e tirar toda a minha roupa. Queria você falando que me amava sem roupa e que não conseguia desgrudar os olhos de mim. Depois você subia bem devagarzinho, com um palito de dente enfiado na boca, fazendo um barulhinho irritante, mas eu adorava. Você cheirava à rua e aos bares que você ia, aqueles que eram sempre diferentes dos bares que você me levava. Pra mim, você tinha cheiro de cerveja e, quando caía em cima de mim e sujava a mim e ao lençol, deixava seu cheiro impregnado. Você sempre me olhava desafiador e gostava de mim porque eu estava sempre pronta. E eu adorava que você gostava de mim.

21 setembro 2014

Clássica


Eu sempre tinha sonhado com você assim. Você e sua maquiagem sempre perfeita. Quem sabe uma echarpe creme cuidando dos seus cabelos? Vai que eles se perdem no vento e ninguém mais te vê daquele jeito que você é. Eu queria você assim, de vestido preto, na altura do joelho, sorrindo despretensiosa. Ao mesmo tempo dama e prostituta. E ia beber uma taça de Martini e me olhar por baixo das sobrancelhas finas com olhos de excitada, como quem pede para que eu coloque logo as minhas mãos entre as suas pernas e a faça gozar. E toda manhã você acordava já meio cansada, com hálito de maçã verde e os olhos borrados, como uma mulher de outro tempo, do passado. E você tinha umas unhas longas, pintadas de vermelho, da mesma cor que o sapato de salto alto que você nunca tirava do pé. Trepava comigo calada e enfiava as unhas nas minhas costas, no mesmo ritmo que me beijava louca.