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16 novembro 2014

Silicone


Eu achei que a culpa era minha por você não me olhar. Eu era muito magra, muita branca, muito cheia de espinhas e de não-me-toques. Eu, então, me maquiei toda, passei perfume e coloquei enchimento no sutiã. Sorri para você como sorriem as mocinhas dos filmes que a gente assiste no verão, e fiz aquele olhar de peixe morto que elas fazem e que deixam os homens assim tão encantados. Treinei durante meses na frente do espelho. Imitava os trejeitos das estrelas e fazia nascer em mim esse brilho que parece que é só das outras. Você não olhava para mim. Se olhava, se distraía depois de alguns segundos. Eu aumentava o decote, diminuía a saia e regulava meu sex appeal, mas você só queria elas. Eu desfilava com outros homens e me entregava para aqueles que não chegavam aos seus pés, mas você nem me percebia. Eu engordei, emagreci, coloquei silicone. Pintei o cabelo, alisei o cabelo, escovei o cabelo. Mudei meus gestos, mudei meu emprego e o meu tom de voz. Mas você só se dirigia a mim como a menina sem sal, com tranças compridas que um dia eu fui.