Tem gente que não é tão profunda. Se é, não é profunda o
suficiente pra encher um texto, um romance ou uma música barata. Às vezes acho
que eu sou desses, que no fundo não tem nada dentro de mim. Que, por mais que
eu floreie aqui, eu sei que eu termino na altura do joelho. Demoro a aceitar
essa realidade. Insisto que sou especial. Escrevo meia dúzia de palavras. No fim
do dia, não existe nada que me satisfaça mais do que me ver escrito. Mas quando
eu me olho no espelho e me vejo vivo, dá até uma tristeza, daquelas tristezas
meio frustradas. Ou é o meu reflexo ou é o mês de maio que está chegando. Sempre
fico meio triste quando chega maio e nem é porque eu me lembro de ninguém. Porque
eu não me lembro mesmo. E isso é coisa de gente rasa. Nada me faz lembrar nada.
Nem o mês de maio chegando. Nada me desperta tristeza nem alegria. Eu continuo
olhando os dias passarem, sorrio e fecho os olhos na hora de dormir. E quando
eu sonho, se naquela noite eu tiver esse privilégio, quero sonhar com esse
monte de sentimentos que não tenho, com essas histórias que eu conto uma atrás
da outra. Queria sonhar com o rosto que eu não lembro, mas que fosse aquele rosto
que dá calafrio, sabe? Esses calafrios que começam no estômago. Queria sonhar
com isso.
