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28 setembro 2014

Boêmio


Sonhava com você assim, meio malandro. Você falava arrastado e me trazia o cigarro aceso e um copo de conhaque. A gente ficava até tarde da noite olhando a vizinhança pela grade da nossa janela da sala. Quando você se cansava, pedia pra eu subir para o quarto e tirar toda a minha roupa. Queria você falando que me amava sem roupa e que não conseguia desgrudar os olhos de mim. Depois você subia bem devagarzinho, com um palito de dente enfiado na boca, fazendo um barulhinho irritante, mas eu adorava. Você cheirava à rua e aos bares que você ia, aqueles que eram sempre diferentes dos bares que você me levava. Pra mim, você tinha cheiro de cerveja e, quando caía em cima de mim e sujava a mim e ao lençol, deixava seu cheiro impregnado. Você sempre me olhava desafiador e gostava de mim porque eu estava sempre pronta. E eu adorava que você gostava de mim.

11 junho 2014

Precisa-se de amigos


Precisa-se de amigos que queiram mesmo se divertir. Pessoas antenadas, com bom-gosto musical e para cinema. Saber conversar coisas inteligentes em mesas de bar é essencial. Beber cerveja é um diferencial quase essencial. Não fazemos diferenciação por idade, sexo ou sabor favorito de Fanta. O importante, deixamos claro, é que o candidato queira mesmo se divertir. Disposto a fazer companhia em situações típicas de ínicio e fim de mês. Importante estar disposto também a arriscar um programa quando o mesmo parece furada. Otimismo, humor e séries de televisão são vistos com bons olhos. Assuntos relacionados a esporte e sertanejo universitário, ou não, não são necessários. Pessoas sem vícios em Foursquare, leve vício em Facebook e Instagram e paixão sem fim por Twitter.

Se você costuma saber sempre para onde ir e quais são os lugares mais bem frequentados onde se cobre menos de 10 reais por uma cerveja, fazer contato.

06 outubro 2011

Aquela festa na casa do Barney


Enquanto segurava meu copo de cerveja em uma mão e meus argumentos sobre o abuso da televisão em outra, olhava de rabo de olho para ter certeza que Barney estava me ouvindo, que pelo menos sabia que eu estava ali. Não adianta estar presente, é preciso ser notado, ser cheirado e ser comido. Enquanto ele não veio em minha direção e disse meia dúzia de palavras saltitantes não parei de beber, nem de fazer a cara de cool, aquela que guardo na porta da direita do meu armário de quinquilharias. Era só dar uma volta pela festa que vi que eu não era o único que tinha tirado do armário a cara de cool. Tantos jovens de camisas xadrez e Converse exibiam as suas. De todas as cores e formatos. Vi até uma que lembrava batata frita. Ou era isso ou era a minha cerveja fazendo efeito.

31 agosto 2011

Eu e minha amiga


Eu e ela saímos toda noite só com a passagem de ida. Quando temos a de ida e de volta, pegamos um taxi para ir. Normalmente quando decidimos ir àquela festa mais elegante. Trocamos vestidos porque ambas nos vestimos como piranhas, mas isso é só porque é tendência da estação. Ainda ano passado usamos calça de alfaitaria por causa daquela artista negra que talvez seja da Grã Bretanha e sua foto naquele editorial.

E quando não conseguimos alguém que nos pague a entrada pelo simples prazer de serem enganados por nós, porque vamos enganá-los, vamos fazê-los acreditar que vamos pra cama com ele quando não vamos, quando isso não acontece, nos beijamos na fila.

Passamos, cada uma com uma cerveja roubada da loja de conveniência da esquina, e encaramos todos na fila. Quando chegamos a ponta, o mais próximo possível da entrada, nos beijamos. Ela sempre coloca a mão na minha bunda. A cidade está cheia de homens tarados por bunda de mulher sendo apertada por outra mulher. Eu confesso: tenho a melhor bunda.

09 agosto 2011

Faça um desejo


Eu quero andar até sentir minha perna formigar e, no final de tanto chão, encontrar uma quantidade imensa daquele mato baixo como relva meio úmida com cheiro de flores que eu só encontrei até hoje na casa de veraneio daquele caso estranho que tive há um ano e meio.

Eu quero deixar meu rosto largar toda a tensão que segura as rugas em seus lugares num sorriso bobo por qualquer coisa que me digam, por qualquer bobeira que eu veja sendo feita no outro lado da calçada enquanto vou para o trabalho de ônibus com ar-condicionado.

O que eu quero mesmo é sair por aí pela madrugada com uma garrafa de cerveja bem gelada na mão e, quando aquele vento frio que sempre bate às três e meia da manhã aqui no Rio finalmente bater pelas minhas pernas, parar onde quer que eu esteja e tomar um longo gole da tal cerveja que carrego.

Sentir o corpo todo amortecido pelo frio e por isso fechar os olhos e, quando abri-los, encontrar meu amor pendurado em meus lábios. Eu quero é que esse amor tenha gosto de amora daquelas que colhia do pé nas férias dos meus oito ou nove anos.

Eu quero oito ou nove anos para levantar da cama ou da cadeira de balanço onde provavelmente passei esse tempo todo descansando. E quando eu levantar, me olhar no espelho da esquina e ver a vida toda arrumada, como num dos filmes de arte que insistia em assistir, há oito ou nove anos atrás.

05 julho 2011

25 anos



Ainda estão adiando fazer os 25 anos. Como se essa data fosse a filha da puta que te proíbe de ir em congressos de estudantes, encher a cara nas ruas da Lapa e conversar com desconhecidos na fila do metrô.

Bobeira. Eu mesmo vivo encontrando velhinha na fila do metrô puxando assunto. E velhinha bebendo na Lapa então? Não dá nos dedos de um time de futebol inteiro. Mas vai que eles, quando fizerem 25 anos, de repente, se tornem caretas?

Abandonam os brincos pendurados e os projetos de tatuagens que normalmente são horríveis ou de estrelas. Não que as estrelas não sejam horríveis e me desculpe quem tem estrelas tatuadas. Que não sejam no tornozelo, ao menos.

Pode ficar tarde demais para aquele copo de vodka ou whisky e claro que não pode faltar o Red Bull. Esse tipinho só pensa na hora que o limite de Red Bull acabar, mais ou menos junto com os benditos 25 anos. Daí eles terão que se contentar com garrafas de cerveja brasileira, dessas compradas por 4 reais e bebidas em copos de botequim acompanhadas de batata-frita excessivamente gordurosa.

E toda aquela gordura vai ficar ali, congestionada numa artéria ou acumulada debaixo do braço. Não haverá congresso de estudante ou micareta suficiente para tirá-la de seu lugar. Ela faz parte de você e você faz parte dos seus 25 anos. Ainda bem.

17 junho 2011

Já tomei porre


Já tomei porre, tá? Vocês estão pensando o quê? Nessas minhas idas e vindas na vida, muitas vezes afoguei mágoas em copos de bebidas e ri sem nem saber por quê. Já tomei porre, sim, daqueles que se acorda com os olhos inchados, cheios de remela, lá pelas três da tarde. Já acordei assim até na casa dos outros. Já dormi em quarto em que fizeram sexo. Só pra constar, eu não participei. De certo estava de porre. Eu perco os limites quando fico de porre e fico de porre quando perco os limites.

Aí você olha pra mim, com esse rosto sem marcas, essa cara de menina, esses meus olhos inocentes e meu sorriso cheio de dentes, pensando “óbvio que ela nunca tomou um porre, talvez nunca tenha ingerido sequer uma gota de álcool”. Doce ilusão. Já tomei porre, sim, e fiz até burradas sob o efeito do álcool.

Com essas minhas mãos magras, finas e brancas, extendidas em unhas compridas e vermelhas, desde que o esmalte vermelho voltou à moda, posso bater no meu peito e dizer com orgulho que vivi. Que já bebi em botequim e no Lapa 40°. Que sou uma expert em porre e em Engov. Posso dizer que já dormi bêbada e acordei misteriosamente acompanhada e essas coisas que toda menina da minha idade fazem.

11 junho 2011

Aquele professor


Aquele seu professor, dentro da camiseta pólo e da calça jeans ou daquela camisa de manga comprida branca que ele costuma usar dois dias seguidos na semana. Aquele professor parece existir só pra deixar no ar que ele trai a esposa. Que dorme fora e, por isso, não faz a barba. De quebra faz questão de parecer com o Malvino Salvador, falando com um sotaque do interior, o s puxado, a lingua presa. Quando te cumprimenta, passa a mão no seu ombro, e quando está numa festa, bebe cerveja. Aliás, cerveja já foi motivo de conversa. Aquele seu professor que insiste em fazer a barba em véspera de prova, pra mostrar que tem tudo sob controle. A prova pronta, a barba feita. Que fica feliz com o seu desempenho nas aulas, nas provas e vai falar com você nos corredores até o fim da faculdade. Terminar as disciplinas que ele ministra não deve ser sua meta. Nem terminar a faculdade. Pra que gastar tanta força com isso? Sua meta, quando todo ano inicia, deve ser levá-lo pra cama, tirar a camisa, morder a língua e desbravar o Malvino Salvador que tem ali.

06 setembro 2010

1900 e antigamente


A gente envelhece quando não liga mais pra bebida liberada e se importa com a hora de ir embora. Quando fica chocado ao ver três meninos se agarrando, ainda que insista em não parecer moralista. A gente envelhece quando é o primo da gente, que tem seis anos, que é fã de Justin Bieber. A coisa só é pior quando você descobre através desse primo quem é o tal Justin Bieber. Envelhecemos quando Crepúsculo, pouco a pouco, toma o lugar do Harry Potter. E quando ninguém mais liga pra ver clipe na MTV. A gente envelhece quando se senta às duas da manhã, antes de tocar todas aquelas músicas da moda e, mais ainda, quando se diverte sentado. A gente envelhece quando deixa de querer comprar revista com pôster e quando pára de tomar Smirnoff Ice, porque cerveja é mais barata e mais gostosa. A gente envelhece quando vê que o primeiro lugar no Disk MTV é de uma integrante do RBD e piora quando percebe que aquele nem é o Disk MTV. Quando percebe que ninguém lembra das Spice Girls, nem do filme delas. A gente envelhece quando fala de novela velha e lembra a abertura. A gente envelhece quando não atura show de rock e volta pra casa sóbrio. A gente envelhece quando, sábado à noite, só tem vontade de dar uma volta na rua e assistir um filme no cinema. Ou quando ficar em casa parece ainda melhor. Quando cansamos do carnaval e dispensamos um beijo numa noitada. A gente envelhece quando dispensa uma noitada. A gente envelhece quando não conhece nenhum ator do elenco de Malhação e quando diz “na minha época era bem melhor”. A gente envelhece quando não entende a bissexualidade das bandas emo que fazem sucesso. Não tem como evitar, a gente envelhece.

07 agosto 2010

Daquela conversa sobre aquele professor

Uma cerveja: Estávamos os três, eu, você e ela.

Duas cervejas: Ela? Ela também estava?

Uma cerveja: Estava. Falou alguma coisa relacionada a mil e depois emendou com cervejas, mas eu não imagino que tenha alguma coisa a ver com mil cervejas.

Duas cervejas: Não lembro.

Uma cerveja: Ela falou dele. Lembra? Que ele desmunhecava.

Duas cervejas: Disso eu sempre soube. Vocês que sempre foram contra mim, diziam que era coisa da minha cabeça. Ela também já viu? E olha que ela nem faz aula nenhuma com ele, né?

Uma cerveja: Não. Ela é orientanda dele.

Duas cervejas: Jura?

Uma cerveja: Você não lembra mesmo? Ela falou do Aaron e de como ele é gostoso.

Duas cervejas: Eu falei alguma coisa?

Uma cerveja: Ela que falou. Falou também do Gustavo. E de como ele também é super gostoso.

Duas cervejas: E eu?

Uma cerveja: Você falou dele, que ele desmunhecava.

Duas cervejas: Mas ele desmunheca.

Uma cerveja: E o que isso quer dizer, afinal de contas?

Duas cervejas: Não sei. Não sei. (segura o queixo com a mão esquerda)

03 agosto 2010

Parada


Eles dançam como se fosse carnaval, sob o sol das três da tarde às três da manhã. E cantam músicas atrás do trio-elétrico mais brega de todos os tempos. Carregam faixas com dizeres, se fantasiam e usam o salto alto que fica escondido o ano inteiro. Colocam as perucas, sorriem e bebem aquela cerveja. Sim, três por dez. Alguns se arriscam mais e levam uma garrafa de alguma bebida quente e os outros aparecem lá com a roupa do trabalho. Vi até meia arrastão. É a oportunidade perfeita de misturar quem vem da Zona Sul com quem vem da Zona Norte. E ainda sobra aquele gringo com o chapéu de palha do lado daquela mulata(?) de vestido grudado. Ainda tem aqueles que se asseguram da paz. Eles ficam lá em cima, na varanda, olhando o mar que vem depois do mar de gente. E o mar anda tão colorido ultimamente. Tem sempre uma mulher, em cima do trio-elétrico, cantando, dançando e falando coisas engraçadas. Normalmente alguém que pareça com a Preta Gil, que é a Claudia Leite daquele dia, daquela praia. Sim, ainda tem a praia, ao fundo, cheia de gente que se diverte todos os dias do ano e não só naquele feriado. Alguns se beijam, beijam os amigos e os amigos dos amigos. Ao mesmo tempo. Isso depende de cada um. O que importa é que está meio que tudo liberado. Não, não se assuste, é só um dia, só uma praia. As pessoas falam de orgulho e sorriem, porque orgulho dá alegria ou alegria dá orgulho. E falam como se fosse militância usar bermuda de surfista, piercing e desfilar sem camisa. Evite a palavra desfile. Faça uma parada, antes que a Farme de Amoedo exploda, e finja que o que está fazendo é revolução.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.

26 julho 2010

Entrevista de emprego


O que você gosta de fazer nos fins de semana?
Sair pra encher a cara, principalmente se eu não tenho um tostão furado no bolso e consigo voltar pra casa bêbado às custas de alguém. Se esse alguém dormir comigo depois, melhor ainda. Gosto também de ir ao cinema, mas só assisto sessões legendadas e de preferência sem 3D. Não curto muito o 3D, não.

Qual é o sua maior qualidade?
Difícil, eu sou muito auto-crítico. Isso conta?

E o seu maior defeito?
Sou o dono da verdade, sou difícil de lidar, autoritário, às vezes sou fofoqueiro também, mas só quando a fofoca vale a pena.

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Qualquer coisa? (pausa para pensar com os olhos perdidos no ventilador de teto empoeirado) Eu deixaria de ser viciado em comida. Isso me atrapalha muito. Se eu não fosse tão gordo, transaria com muito mais freqüência e com muito mais pessoas. E quando eu quisesse sossegar meu facho também seria mais fácil porque minhas chances de arranjar alguém legal seriam maiores que as de uma pessoa gorda.

Por que você escolheu Engenharia Química?
Dinheiro. Só por isso mesmo. Eu odeio cálculo, odeio física e odeio o fato de não ter nenhum ramo na Engenharia Química que seja ligado à literatura. Foi por dinheiro mesmo. Me disseram, na época da escola, que daria dinheiro, que é um mercado em expansão. A história do petróleo e tal. Então, aí eu fiz.

Qual área da Engenharia Química você prefere?
Escritório, de preferência projeto. Sem prazo. Odeio prazos. Mas no escritório seria bom. Morro de medo de ter que passar a vida toda usando jaleco. (vira os olhos e faz cara de nojo – a mesma cara que ostenta desde o início do diálogo) No escritório é legal porque eu posso ir bem vestido, vou ter uma mesa e um computador pra ficar atualizando o Twitter durante o dia ou vendo pornografia.
(a mulher anota algumas coisas no caderno que tem a sua frente)

Obrigada, quando a gente tiver uma resposta a gente entra em contato, ok?
Ok.

05 abril 2010

O Sapo

Era uma vez um sapo que, em uma noite quente de outubro, durante uma festa do reino, se aproveitou que a famosa princesa Sandy estava meio alcoolizada, recentemente abandonada pelo príncipe Feioso, e imaginou que aquele seria seu dia de sorte.

É fácil de se compreender. Todo sapo, que sabe que é encantado, tem o sonho de se tornar homem. Todo sapo tem curiosidade de saber como serão suas pernas e a vontade de usar calça jeans. Todo mundo usa calça jeans, ele também queria usar.


Além disso, deve ser duro viver uma vida anfíbia, ao lado da princesa Sandy e seus cabelos cor de cerveja importada, sua pele branca e sedosa como chantilly e ter que aceitar ser só um sapo. Vendo o príncipe Feioso, maltratando-a, traindo-a e não lhe dando prazer.

Talvez Sandy sempre tivera uma queda por anfíbios, mas quando se está alcoolizado, perde-se o nojo. Quem é amiguinho da floresta se torna peguete e sapos se tornam homens.

Não satisfeito com aquela noite e com todas as outras que a princesa lhe dera a chance de passar vestindo calça jeans, o sapo – agora um homem não tão alto, mas ainda assim atraente – queria mais. Ele queria cortejar a princesa Sandy. Queria uma relação fixa, baseada em todos os princípios que ditam os contos de fada passados naquele reino.

Fazia planos de ver sua história sendo contada pras seguintes gerações. Ainda que ele não fosse o protagonista. Sapos nunca são protagonistas, as crianças preferem histórias de princesas, coisas da época. Um dia há de se fazer uma história de sapos.

Mas não contava com o fato de Sandy querer sair, querer conhecer outros homens e outros sapos. Dependendo do nível alcoólico, quem não garante que ela conheceria também outras espécies de animais?

Restou a ele tentar por um tempo e, cansado, fazer o que se faz: “partir pra outra”. Procurou em outros reinos alguma princesa, digna de sua homossapiência. Até encontrar Wanessa – a princesa sem sobrenome.

Foi uma noite memorável, quando apresentou ela aos animas da floresta. A princesa Sandy estava por lá. Os animais da floresta se dividindo pra agradar a duas princesas. As duas trocando olhares de contos de fadas e fazendo as graças que cabem às princesas.

Wanessa nunca foi muito confiante, o sapo sabia disso. Ela ouvia histórias de Sandy. Sabia que o sapo era amigo dela, quando ainda era sapo. Tudo estava mudado agora, ele vestia jeans, tinha uma princesa sem sobrenome e os animais da floresta abusavam de Onion Rings.

29 março 2010

Macaco quer banana


Estava numa roda de amigas, todas simpatizantes. Vestiam cada um uma cor fluorescente, mas ninguém dizia que se tratava de um grupo de gay/meninas-que-usam-esmaltes-multi-coloridos. Bebiam cervejas de todos os sabores, pois estava fazendo calor. Na mão direita todos eles seguravam ao menos um cigarro de filtro amarelo. Ele era feminino, mas carregava na cabeça um pensamento suicida e na bolsa um maço de cigarros fortes. Cigarros são sempre de filtro amarelo. A paz estava instalada até o macaco se aproximar. Ele usava perfume importado e era visivelmente do sexo masculino. Uma das meninas-que-usam-esmaltes-multi-coloridos poderia estar naqueles dias. Isso costuma atrair animais irracionais. Só os irracionais. Mas quando ele se aproximou da mesa e fez as canecas de cerveja multi-saborosas tremerem, ele foi na direção do menino. Talvez um tenha sentido o perfume do outro. Dizem que essas coisas se sente de longe. O homem é o mais próximo do macaco. Ele disse algo em uma língua inteligível. Balançava os braços peludos e mantinha uma mania de abrir e fechar o colete de couro. Tendência entre os macacos. Sob o pretexto de não se entenderem, de não haver comunicação, o macaco logo se viu abraçado ao menino. Do mesmo jeito que acontece entre outros tantos meninos e os gringos no carnaval. Mas o carnaval já não guardava histórias. Acariciou a cabeça do menino, sem parar de urrar naquele dialeto selvagem. Devia significar algo. Pediram uma porção de batata-frita porque a cerveja já era de banana. A todo custo queriam manter o macaco na mesa. Afinal de contas, todo menino precisa de um amor que não compreende. Ou de um sexo animal.

24 março 2010

Era uma vez...

Era uma vez uma princesa moradora da Zona Oeste da cidade. Seu nome era Sandy. Ela tinha os cabelos loiros como cerveja importada, a pele clara e sedosa como o chantilly que nunca havia comido.


Havia encontrado seu príncipe há quatro anos. Ele não era sensível, não era bonito e não lhe dava prazer. Seus amigos, os animais da floresta, estranhamente não cantarolavam e faziam festa quando ele estava presente. Frequentemente, ele aparecia em casa com uma marca de ferida que ela sabia ser daquele esquilo que tantas vezes era gentil com ela no caminho do chalé onde morava.

Seu príncipe lhe deixou. Ela passou por um período ruim, de tristezas, que durou toda a eternidade de uma semana. O ponto final foi a festa do Reino, que seria numa quinta-feira quente de outubro. Ela foi com seus amigos, os animais da florestas, presos ao seu calcanhar.

Entre um cálice de vinho e outro, Sandy já havia consumido quase dois tonéis e dançava os funks da época com desenvoltura (like a whore). Um dos seus amigos, o sapo dançante e sorridente, se aproximou dela na pista de dança. Ela dançou com ele e lhe beijou, transformando-o em um homem não tão alto, mas apaixonado.

A festa daquela noite acabou. O antigo sapo tentava cortejá-la. Mas para Sandy, ele só era um sapo, um amiguinho, um dos animais da floresta. Ela queria conhecer. Ela queria ver o reino, queria conhecer os lados de fora do reino também.

Começou a ir a festas no underground, tabernas onde vendiam cerveja quente e tabernas onde se estapeavam por cerveja quente. Entrava em cabarés onde via homens beijando homens, mulheres beijando mulheres e onde era cortejada por meninos que fazem faculdade particular e usam tintura loira no cabelo arrepiado.

Às vezes levava uns números de telefone anotados no pergaminho que carregava sob as anáguas. Às vezes dava números falsos. Afinal de contas, depois de quase quatro anos nas mãos do temível príncipe Feioso, ela não poderia se envolver com sapos e frequentadores do undergroud pseudo-homossexual. Mas lá a bebida era tão barata...

25 fevereiro 2010

O garoto que bebia Heineken

“Todo mundo merece uma segunda chance”, foi assim que ela começou a história sobre o nosso amigo que bebia Heineken. A primeira pode não ser boa devido à falta de intimidade, ou devido ao álcool. Ninguém costuma transar sem álcool no copo de cristal ou no copo de requeijão.

A primeira deles não foi boa. E não era problema dela, disso ela tinha certeza. Fizera tudo direitinho. Ainda que eles estivessem em pé. Ainda que seus pés estivessem tremendo também devido ao excesso de álcool. Quem não perde um pouco de força nas pernas quando passa dos limites e exagera no álcool? A Lei Seca está aí pra isso.

No resto da semana, a gente observava ele com sua garrafa verde, pra tudo que era lado. Ele ostentava aquilo, como se ele até transasse bem. E esse assunto nos fazia discutir sobre as pessoas e como elas transavam. Se fodiam bem ou se fodiam mal. Ele nos enganou, alguns diziam. Maldita garrafa de Heineken.


Mas quem sofreu mesmo com tudo isso foi ela. Pobre coitada. Caiu no conto da Heineken. Ele andava com polo da Tommy, sapatenis de adulto, mas foder que é bom... necas de pitibiriba, como diria uma tia-avó minha. A Heineken sempre na mão esquerda. A direita coçava o saco e mostrava sua masculinidade.

Vai ver foi isso, sua mão direita estava ocupada enquanto transavam da primeira vez. Ele nem pôde mostrar sua masculinidade naquele dia, na parede do prédio. A esquerda segurava a Heineken, como habitual.

Outra certeza de que a culpa não fora dela nascia do fato de ele ter gostado. Ele queria repeteco, como diziam os pagodes da época. Ela daria a segunda chance, como dizia sua teoria.

Todo homem merece uma segunda chance. Mais que isso, toda transa merece uma segunda chance. É uma série de fatores que pode acabar levando um sexo a ser ruim e por puro preconceito ou preguiça de tentar de novo, você pode estar perdendo a foda da sua vida.

Mas na segunda chance ele não se ocupou de nada com a mão direita. E nem exibia a Heineken na esquerda. Mas a masculinidade também não estava por ali. Era estranho o modo como ele agia. Ele só queria tomar banho e fazer carinho. Ela queria beber a tão bendita Heineken e ouvir palavras de sacanagem com sotaque carioca. Vai dizer que não é o que toda menina de Zona Sul quer?

Duas chances eram o suficiente. Quando um homem não acha a masculinidade depois de duas chances, é sinal de que ela está muito perdida. Talvez afundada entre os cascos verdes e vazios das boas Heinekens que ele tanto se orgulhava de consumir.