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25 janeiro 2015

Sobre como ser romântico estando sozinho


Maior besteira é se esforçar pra encontrar amor. No fim das contas, o que sobra sou eu e o lado esquerdo da minha cama vazio. Melhor forçar um sorriso, sair pra beber, falar palavrão. Melhor mesmo é fumar um maço de cigarros infinito, porque só depende de você quando o maço acaba e os cigarros te abandonam. Não faz sentido conhecer gente nova e viver uma história de três noites na tela do iPhone. Bom mesmo é viver com segurança a vida da Lady Mary Crawley na tela da TV por cinco temporadas, de setembro a dezembro. O que não faltam são Ladys Marys.

Ninguém precisa de ninguém, nem de nada. Hoje eu sei que é possível abrir mão de um amor como os da Disney ou do sonho de doce de leite daquela padaria de Copacabana, que eu comia quando eu saía da noitada, uns seis anos atrás. Agora nem sei mais o endereço daquele lugar. Mas tudo fica bem, um dia a gente aprende. A princípio você se sente mal, dá vertigem, é como um abismo pra morte. Mas a verdade mesmo, aquela que você descobre depois que abre os olhos e toma uma caneca de café preto, é que ninguém morre por estar só. Ninguém.

02 novembro 2014

Eu quero


Eu quero ter a sorte de encontrar o amor que meus pais encontraram. Eu vejo os dois sentados na mesa de jantar, bebendo chá verde e de camomila, olhando um para o outro. Eles trocam olhares apaixonados. Eu sei, porque é o mesmo olhar que eu vejo na TV, na novela das seis.

Eu quero acordar de manhã com a sua voz meio distante, cantarolando Roberto Carlos, na calçada da minha casa. Os vizinhos todos saindo na janela para ver a paixão que você declara por mim. Eu vou sorrir da sacada do meu quarto e mandar beijos para você, enquanto você dedilha as cordas do seu ukulele.

Eu quero morder um pandeló e sentir o metal da aliança, enquanto você ri, sentado na minha frente, saboreando toda a perspicácia e romantismo na hora de me pedir em casamento. Eu aceito, você me beija. Nós dois saímos pela noite, de mãos dadas, andando pelas ruas da cidade a exibir o brilho nos meus dedos.

26 outubro 2014

A casa


Nossa casa vai ter um quintal gigantesco que é pra eu me deliciar com você de short, toda descabelada, pendurando as roupas das crianças nos varais. E vai ter goiabeira, e bananeira, e mangueira, e amoreira. Vai ter muita sombra no nosso quintal, mesmo em janeiro. As crianças vão correr e rolar no chão de mato capinado. O mesmo chão onde o nosso pastor alemão faz as sujeiras dele.

Na sala vai ter a minha poltrona, bem de frente para a TV, onde eu vou ficar fumando um cigarro depois da janta, ouvindo o homem do jornal contando as notícias. Do meu lado vai ter uma mesinha, que é pra você apoiar o copinho de licor de menta que você traz pra mim, pra ajudar minha digestão.

Nosso quarto vai ser um ninho. Teu cheiro espalhado pra todo lado. Teu gosto, tuas roupas, tuas joias. Eu só quero mesmo é deitar na nossa cama e ficar olhando você voltando do banheiro de camisola e touca na cabeça.