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01 fevereiro 2015

Esses


Tem quem não nasceu para amar. Esses são bombardeados diariamente com o amor dos outros, aqueles que nem percebem porque estão ocupados demais, amando. Tem quem chega à conclusão de que nunca existiu essa coisa de amor. Esses olham tudo com olhos cínicos, da ladeira de Santa Teresa ao casal apaixonado na portaria do prédio. Tem quem vive tentando. Esses dão o sangue e horas em conversas vazias sem fim porque não admitem que não fazem parte do seleto elenco da Malhação. Tem quem ama perdidamente. Esses, de tanto amar perdidamente, se perdem irreversivelmente e nunca se acham nessa matéria negra e líquida que nasce de dois. Tem quem prefere aproveitar. Esses amam um pouco aqui e um pouco ali e sentam em mesas de bares dizendo que não amam nunca ninguém. Tem quem acha que aquele é o amor e ponto. Esses estão sempre falando de estabilidade e de The Voice Brasil, achando um absurdo quando cruzam com aquele casal loucamente apaixonado na saída do metrô.

E tem eu.

05 julho 2011

25 anos



Ainda estão adiando fazer os 25 anos. Como se essa data fosse a filha da puta que te proíbe de ir em congressos de estudantes, encher a cara nas ruas da Lapa e conversar com desconhecidos na fila do metrô.

Bobeira. Eu mesmo vivo encontrando velhinha na fila do metrô puxando assunto. E velhinha bebendo na Lapa então? Não dá nos dedos de um time de futebol inteiro. Mas vai que eles, quando fizerem 25 anos, de repente, se tornem caretas?

Abandonam os brincos pendurados e os projetos de tatuagens que normalmente são horríveis ou de estrelas. Não que as estrelas não sejam horríveis e me desculpe quem tem estrelas tatuadas. Que não sejam no tornozelo, ao menos.

Pode ficar tarde demais para aquele copo de vodka ou whisky e claro que não pode faltar o Red Bull. Esse tipinho só pensa na hora que o limite de Red Bull acabar, mais ou menos junto com os benditos 25 anos. Daí eles terão que se contentar com garrafas de cerveja brasileira, dessas compradas por 4 reais e bebidas em copos de botequim acompanhadas de batata-frita excessivamente gordurosa.

E toda aquela gordura vai ficar ali, congestionada numa artéria ou acumulada debaixo do braço. Não haverá congresso de estudante ou micareta suficiente para tirá-la de seu lugar. Ela faz parte de você e você faz parte dos seus 25 anos. Ainda bem.

29 maio 2010

O mal do século


A verdade é que o metrô é um ambiente rico em diversidade. É cheio de micro-organismos, aos quais somos expostos diariamente sem nem percebermos, quando pegamos a Linha 1 ou a Linha 2. Alguns deles só olham a gente, de longe, encostado no tubo de metal entre a velhinha que vai buscar a aposentadoria e o rapazinho de aparelho que vai pra aula do ensino médio. Isso quando o indivíduo que olha não é a velhinha da aposentadoria ou o rapazinho do ensino médio. Eles mandam aquele sorrisinho maroto e jogam a cabeça pra direita, como quem diz “Já é?”. Eles adoram dizer “Já é?”. E ainda existem aqueles mais agressivos, que basta entrar no vagão, percebem a nossa fragilidade, a nossa vulnerabilidade à sua espécie, e se colocam o mais próximo que podem. Tão próximos que parecem nos tocar, carinhosamente, que é para que aquele ato não seja doloroso, quando você lembrar daqui a uma semana. Carinhoso para que quando a gente entrar no mesmo vagão que eles estejam, eles possam de novo se aproximar e abusar da nossa receptividade. Existem pessoas receptivas a esse tipo de micro-organismo, acreditem. Essas pessoas preferem a doença da sujeira do metrô do que uma viagem tranquila. E, uma vez contaminadas, essas pessoas estarão acostumadas com a abordagem. É o mal do século, aquele que as autoridades não se preocupam em erradicar. O metrô está cheio deles.

30 abril 2010

Idiota


Antes de tentar ofender aquele infeliz com o celular no metrô ouvindo Exaltasamba, coloque os óculos escuros. Se já estiver com eles, ajeite sobre a curvatura horrível que deve ser o seu nariz e pense: eu sou um idiota.

Todo mundo tem um pouco de idiota, eu diria. E nem é porque você insiste em manter os olhos sem remelas, nem que pra isso você durma de olhos abertos. Dormir de olhos abertos pode ser um bom exercício de confiança. É porque é da nossa natureza ser idiota.

Sim, nós que pensamos na tendência como algo longe do que Gauss pensava. Que comemos batata Pringles na sessão 3D do cinema reclamando a falta de um cinema 4, 5 ou 276D na sua cidade. E quando você é daquele tipo que viaja milhas e milhas porque não sabe viajar em quilômetros pra ir na cidade vizinha ver Avatar 2?

Você acha que você não é idiota? Só porque você fala de livros que nunca leu e ouve músicas que não ouviria se você trabalhasse no salão de beleza da vizinha, aquele que todo mundo achava que você trabalharia? Você é idiota até quando está na universidade. Alguns na universidade só pioram, quando começam a fumar.

Então, antes de você puxar o revólver debaixo da sua calça saruel jeans, que já nem é mais tão fashion, saiba que você nem sabe o significado da palavra fashion. E saiba também que você não pode matar o coitado do cara que ligou na Beat FM. Ele não tem culpa dos crediários da Ricardo Eletro.

Respire fundo, ajeite os óculos escuros e dê uma volta na sua ignorância. Descubra o quanto é belo ser idiota. Pelo menos até os 25 anos. Depois disso, dê um jeito na sua vida. Nem que pra isso você precise ler ou ouvir o que o Pedro Almodóvar tem a ensinar.