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09 setembro 2011

Eles três


Eles três fizeram história, cada um a seu modo. Um de direita, outro de esquerda e outro no meio, fechando os três que quiseram que fossem. Eles três tiveram nomes, cada um com sua rima, e levantaram as mãos no ritmo que suas vidas individuais aconteciam, entre uma passeata e um episódio de American Idol.

E porque eram três, foi difícil de ter um. Foi mais fácil de viver, por que não eram um. Cada um com seu cheiro e seu jeito de escrever. Dedilhando o vento entre meu rosto e seus peitos nus.

Sobre o pescoço esguio, magro e (por que não?) doente se estendia às três peças que tanto amei. Eles três foram meus de seus jeitos únicos. Um de dia, outro à noite, o terceiro em pensamento. Desses pensamentos com forma e sobrenome.

Foram três sobrenomes sobre vida passadas. Três motivos perdidos no tempo. Três tons de vozes que cantavam em uníssono, bem aqui no meu ouvido central. Eram as três salivas – quente, fria e úmida. Que me salivavam porque eram três.

Vem dizer que é nossa terceira vida, vem com clichês de que três é demais. Vem os três, que foram trezentos no meu folhetim.

15 dezembro 2010

E quando termina...



E quando você diz pra mim que podemos ser amigos, o que me passa pela cabeça é uma resposta mal-criada. Onde já se viu? Ser amigo de quem você já transou com juras de amor? Amigos eu tenho aos montes...

Não quero ouvir você falar de outros casos, a não ser que seja sobre nós, lamentando o fim prematuro. E por que não dizer prematuro? Medo de transformar tudo num clichê? A vida é quase um clichê.

Seu amigo eu não quero ser. Podemos nos comunicar. Você finge que não vê outras pessoas e eu finjo que te esqueci. A verdade é que só estou morrendo aos pouquinhos e o que me segura é a possibilidade que eu cultivo no meu peito de que um dia você volte.

Bem lá no fundo do meu peito. Que é pro mínimo de pessoas sentir o cheiro.

12 dezembro 2010

Amor



Dizem que o amor é um broto que nasce pequeno, em meio a conversas. E eu digo mais - conversas pelo computador. Por elas, o amor pode até nascer. Há quem diga que o amor nasce da amizade. Eu concordo. Se a amizade já não é cheia de amor, como seria impossível? É assim o nosso amor, cheio de noites compartilhadas. Noites de histórias de anos atrás. As minhas, as suas. Noites cheias de letras digitais. Noites daquelas de romances modernos sobre amores virtuais. Ai daquele que virá dizer que já não existem amores virtuais. Cá estamos nós para negar. Para negar e compartilhar todo esse amor, que só a gente é capaz de entender.

09 dezembro 2010

Outing



Para tudo existe uma hora certa, ainda que seja horário de verão. A hora certa de conversar com a mãe pode ser a mesma que a de encontrar o par perfeito, era assim que ele pensava. Só precisava de uma motivação. Algo que lhe estimulasse a enfrentar tudo o que vinha pela frente. Os barrancos e as doses monstruosas de chocolate ao leite.

Porque, pode não parecer, mas chocolate ao leite é nocivo a estabilidade do homem. Principalmente do homem que ele aos poucos se tornava. Colocou forças no quadril, achou o tal par perfeito e contou à mãe.

Como quem conta que as mãos andam com dor ultimamente, dormiu ao fim. Um sono sem tempo e sem interrupções. Sonhou talvez com o Chacrinha ou qualquer outro personagem da cultura popular brasileira. Bem popular mesmo.

No dia seguinte ainda tinha o par perfeito, tinha a mãe cheia de dúvidas, o horário de verão e a cultura popular brasileira. Tudo fazia parecer muito simples. Porque, no fundo, é. É pão com manteiga e café forte. Desses que se toma em padaria até as oito da manhã.

03 dezembro 2010

Holograma



E se eu nunca tivesse ido te encontrar? Talvez eu nunca fosse realmente feliz, como você foi capaz de me fazer. Talvez eu nunca tivesse conhecido alguém com tanta perfeição, esbanjando até nos defeitos, porque ninguém agüenta alguém sem defeitos.

Se eu não tivesse respondido aquele SMS, pode ser que nunca ouviria sua voz. O eco dela, vindo de tão longe em meio a fogos de artifício, me desconcentrando e me dando a paz que necessito, ao mesmo tempo.

Se por acaso, não ouvíssemos o acaso e não conversássemos tantos dias antes de nos ver, talvez nunca teríamos nos visto. Nem nos tocado. Nem nos amado. Agradeço por ter te ouvido, por ter te lido, ter te tocado, ter te amado.

E vai que tudo não passou de um sonho. Ninguém me tira da cabeça que a gente corre esse risco. Que aqueles meses foram meus para mim, seus para você e de mais ninguém. Vai que a gente não esteve na hora marcada. Você social, eu Speed Racer. Vai que tudo não passou de uma noite...

Ainda assim, não importaria. A noite que você me deu foi a noite que deu todas as outras. E nossas noites são tão reais que ainda parecem estar aqui. Rodeando a cabeceira da minha cama a cada noite. Como um holograma tosco de desenho animado.

E se eu não tivesse você? Vai que não dura pra sempre? É bom sempre aproveitar. Ver o sol nascer e dormir nos seus olhos, enquanto eles se fecham do jeito que eles costumam se fechar. 

30 novembro 2010

Você. É, você mesmo

Você me faz bem porque melhora meu gosto musical e meu gosto pela vida. Até lembro que já houve o tempo em que eu não gostava muito de viver. Hoje eu sei que cada dia tem seu fim e que o fim é ligado no começo. Tudo isso não tem nada a ver com o fato de ter acontecimentos interessantes. A vida nem sempre é um episódio de série dramática. Eu agradeço toda a vez que é. Mas parei de lamentar quando não passa de um dia, com seu começo, seu fim e o começo do outro. Isso, sim, tem a ver com você. Isso e o fato de descobrir a cada segundo uma maneira diferente de fazer sexo. Ou pelo menos maneiras com as quais tenho vontade de fazer sexo. Porque não se vive só de aprendizado. Tem um pouco de sonho, vontade e desejo. Quando você diz desejo, você mexe a boca desse jeito, bem assim, e sempre quer falar de sexo. Eu sei. Você faz eu ter mais paciência para esperar. Com você nunca precisei de artefatos indianos nem pedras aromáticas. Nem sei se existem pedras aromáticas.


27 novembro 2010

Comida



E se ele quiser pagar, paciência. Ele ganha mais que eu. Isso devia estar subentendido. Se você é burro o bastante para se relacionar com alguém que ganha menos que você, você deve ser castigado, pagando todos os programas caros. Era isso que ele fazia.

A gente comia bastante e eu não me envergonho em dizer que eu nunca pagava. Ele não se sentia a vontade, meu bolso também não. Não era uma questão de não querer, ou de má vontade. Não. Só que ele decidia os lugares mais caros e nem sempre eu tinha dinheiro para ir.

Vocês têm que entender. Eu não tinha intenção de fazer ele parar de ir aos lugares que ele ia. Mas também não tinha dinheiro para acompanhá-lo. Foi escolha dele pagar. Todas as vezes. Todas as 546 vezes que jantamos e bebemos e fizemos o trabalho do garçom.

Não posso dizer que eu não gostava. Eu gostava. Todo mundo gosta de comer em lugares legais, beber coisas de qualidade, conhecer um atendimento de primeira. Tudo isso sem se preocupar com o dinheiro gasto. Eu gostava.

Mas que escolha eu tinha? Então pare de me olhar com esses olhos de julgamento. Pare.

24 novembro 2010

Show Morte



Ele aos poucos me ensinou a matar e a me interessar pela morte. Ele ria comigo quando falávamos dela. Nem soava mórbido, nem soava estranho. Era como se fosse a ordem natural das coisas. Nossas coisas sempre alinhadas, seguindo o caminho que a vida traçava. Esse caminho escuro, sanguíneo, quase grosso. Daqui se sente o cheiro, quando o seu não abafa. Deus sabe que eu peço pro seu cheiro abafar e seus braços me abraçarem.

A morte continua lá, parada. Como um episódio de série americana. Tentando a todos. A ser desvendada. Não há mais paciência pra essa história de desvendar. As pessoas gostam de sentir. O cheiro daquele sangue que brota por todos os poros. O cheiro da morte pela qual a gente se interessa. Ele me ensinou tudo isso, mesmo que tenha sido há pouco tempo. Fazem uns onze meses desde a nossa morte.

Ela parece tão viva. Tão sanguínea.

21 novembro 2010

Fios loiros



Eu só queria de novo passar a mão no seu cabelo e sentir que estava tocando o céu. De tão alto que eu estava, de tão cheiroso que era lá em cima. Eu só queria sorrir, contando os fios dos seus cabelos loiros. Esticá-los, arrancá-los e guardá-los comigo. Ajudando a diminuir a quantidade de cabelos na sua cabeça. Como se fosse ouro, eu guardava-os. Pra que no futuro me tivesse serventia. Um dia há de ter. Eles vão valer muito, todos os colecionados, escondidos naquela caixinha de música velha, a mesma que nos ninou. Mas será tarde, eu já vou estar apaixonado por eles, incapaz de me desligar. Os cabelos serão parte de mim, ainda que não tenham mais vida, que nem ao menos sejam meus verdadeiramente. O que eu queria era ter os cabelos presos ao seu couro cabeludo. Para fazer cachos ralos, enrolá-los nos meus dedos gordos e, por fim, esticá-los outra vez. Só porque são loiros, iluminam. Só porque são parte de ti, desejo que façam parte de mim.

Desejo só ter novamente aquele ralos fios loiros rodando e dançando nas minhas mãos, enquanto eu digo meia dúzia de promessas românticas, que era só pra te manter aqui. Ver, sob a sobrancelha igualmente loira, seus olhos amarelos aos poucos se fecharem. E, de tão grande que és, tornaste frágil. Quase quebradiço. Esperando só o meu toque pra proteger-te. E é por isso que te roubo os últimos fios loiros, que é pra guardar comigo um pouco do que vai embora todo dia.

19 novembro 2010

Ó Solidão! Se contigo deverei habitar



Ó Solidão! Se contigo deverei habitar,
Não deixes que seja entre uma grande confusão
De construções escuras; sobe comigo a colina...
Observatório natural... donde o vale
Com seus declives floridos, e seu rio serpenteante e cristalino
Parecem um só; deixe-me velar-te
Entre ramos ornados, onde o abrupto salto do veado
Espanta a abelha selvagem da campânula de uma dedaleira
Todavia, embora recordarei alegremente convosco essas cenas,
Ainda que a doce conversa de uma mente inocente,
Cujas palavras são imagens de pensamentos elegantes,
Em minha alma é prazer; e certamente será
Quase a maior bem-aventurança da humanidade,
Quando de tua paragem duas almas gêmeas partirem.

John Keats