Há
uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que
parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando
olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e
a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo
branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim
daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei
por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não
consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram
nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois
inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos
mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo
você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me
amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem
todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você
brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos
meus olhos sumisse de vez
