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30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez