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13 outubro 2010

Joãozinho


POP é coisa de viadinho, já dizia Joãozinho, segurando aquela caneta esferográfica daquele jeito destemido. Gay ouve música popular, de preferência brasileira. Se for um nível superior de gay, ouve música francesa ou qualquer equivalente europeu. O resto, aqueles que ouvem Britney Spears e aquela mulher mulata com cabelo liso (sim aquela com a sobrancelha estranha), esses são viadinhos.

Joãozinho falava assim, no diminutivo, que era para fazer o efeito do desprezo que ele sentia pelos viadinhos. Ajudava o fato de todos eles serem pequenos. Quando ele diz pequeno, se refere só ao fato de medirem menos de um metro e sessenta e cinco, a isso e nada mais. O que sobrava era o que supostamente não era clichê e Chico Buarque.

Intercalava uma canção feita na Suécia com um filme italiano e tinha de saber de cor todos os versos desconexos, ou pelo menos eles eram assim para os viadinhos, das músicas eletrônicas que escutava quando ia à boate. Afinal de contas, precisava socializar. Gays socializam. Não com todos. Deixava de lado os viadinhos.

Se negava a assistir filme dublado e a usar corrente de prata, porque essa linhagem de viadinhos era a da pior espécie. Ele acreditava que faziam os que gostam de Lady GaGa se envergonharem. Por algum motivo todos os viadinhos se apaixonavam por ele e o chamavam por Joãozinho. Onde já se viu? João, um nome tão bonito.

02 outubro 2010

Antes do pôr-do-sol


- Às vezes, arquivo coisas na cabeça e esqueço o assunto. Dói menos arquivar as coisas do que conviver com elas. Me desculpe.

- Então, aquela noite é uma lembrança triste?

- Não, eu não me referia àquela noite, em particular. É melhor esquecer certas coisas.

- Lembro mais daquela noite do que de anos que vivi.

- Eu também.

- Sério?

- Bem, pelo menos era o que eu pensava. (risos) Talvez eu tenha arquivado o assunto porque o enterro da minha avó foi no dia em que íamos nos encontrar.

- Foi um dia difícil pra mim, mas deve ter sido pior para você.

- Foi estranho. Eu me lembro de ver o corpo dela no caixão, das mãos lindas e quentes com as quais ela me segurava. Mas nada no caixão era do jeito que eu me lembrava dela. O calor humano se fora. Depois, eu chorei. Não sabia se eu estava chorando porque não a veria mais ou se era porque não o veria. Sinto muito, perdoe o desabafo. Estou meio deprimida essa semana.

- Por quê?

- Não sei. Nada demais. Talvez por ler seu livro. Não, foi porque eu pensei na esperança que senti naquele ano e, desde então, tudo ficou... Sei lá. Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.

- “Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.” Posso pintar isso no pára-choque do meu carro? Se escrever um livro sobre a nossa noite seria um bom título.

- Seria um livro diferente.

- É, sem cena de sexo.

- Mas sabe do que mais? Já que nos encontramos de novo, podemos mudar a lembrança daquele 16 de dezembro. Não tem mais o final triste por não nos encontrarmos de novo.

- Certo. Acho que a lembrança só termina quando a gente morre.

30 setembro 2010

Antes do amanhecer


- Ok. Vou ligar pra minha amiga em Paris com quem vou almoçar. Ok?

- Ok.

- Trim, trim, trim, trim. Atenda

- O que?

- Atenda o telefone.

- Alô.

- Alô. Vani, c’est Celine. Comment ça va?

- Ça va bien, et toi? Estou tentando melhorar meu inglês. Vamos falar em inglês?

- Tudo bem, boa idéia. (pausa) Não vai dar pra almoçar com você, me desculpe. Conheci um cara no trem e estou em Viena com ele.

- Você ficou louca?!

- Provavelmente.

- Ele é austríaco?

- Não, é americano e está voltando para os EUA amanhã.

- Por que desceu do trem com ele?

- Bem, ele me convenceu. Fiquei a fim de ir com ele depois de conversarmos um pouco. Ele era tão amável, não resisti. No vagão-restaurante, me contou que viu o fantasma da avó quando era menino. Foi aí que ele me encantou. Pensei num menininho cheio de sonhos lindos. Caí na sua armadilha. Ele é lindo, tem olhos azuis, uma boca bonita, cabelos sujos! (risos) Adoro. É meio alto e desajeitado. Gosto de sentir que ele me olha quando não estou vendo. Ele beija como um adolescente. É lindo.

- Como?!

- É, a gente se beijou. Foi lindo. Fui gostando cada vez mais dele. Mas ele está com medo de mim porque contei a história da mulher que mata o namorado. Deve estar achando que sou uma dessas megeras manipuladoras. Espero que ele não ache isso. Você me conhece, sou inofensiva. Só posso machucar a mim mesma.

- Acho que ele não está com medo. Ele está louco por você.

- Sério?

- Estou achando que vai dar certo. Você vai ver ele de novo?

- Ainda não falamos sobre isso.

25 agosto 2010

Cinema 2D


Ele ia ao cinema de calça xadrez e pólo branca. Usava aquele típico Converse de couro branco e mochila retrô. Ele ia ao cinema sozinho. Comprava o combo individual, sentava na cadeira que normalmente é ao lado das preferidas dos grupos de amigos, onde a possibilidade de casais apaixonados é reduzida. Via filme de drama, desses israelenses ou Jane Austen, ou ainda almodovarenses. Às vezes arriscava um Trident ou um pacote de M&M’s, da embalagem amarela. Confete de chocolate era coisa para casais. Ele andava sozinho e comia amendoim confeitado. Seu preferido era o amarelo e qualquer ligação com a embalagem era mera coincidência. Tinha de ir ao cinema do Grupo Estação. Kinoplex é péssimo pro público no qual ele se identificava. Por lá só aparecem grupos. A minoria é sozinha, só os corajosos, que se assumem no meio da multidão, sem medo de represália. Ouviu dizer, certa vez, que atacaram um cara sozinho que foi ao cinema e depois disso fez carteirinha no Grupo Estação. Quando não era drama, era documentário. Nada em 3D. Em 3D é tudo muito real. E isso assusta.