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14 junho 2011

Piolho


Eu só sei que eu falava de piolho na cabeça de criança de seis anos. Acho que eu me referia a homens machistas e burros. Ou a velhos dispostos a pagar um lanche do Burger King, com direito a coroa de papel e tudo.

Eles se reproduzem com essa velocidade. Quando a gente vê, já dominaram o mundo. Como os gays e os fãs de um tal Luan Santana. Mas acho que não tem nada a ver os fãs de Luan Santana com os gays e cheguei a essa conclusão olhando para as roupas das duas prováveis classes. Eu sei, nem sempre esse é o melhor jeito para a segregação.

Há de se fazer segregação por cor de olhos, índice de massa corporal, alergia a camarão e alguns crustáceos. Mas, por enquanto, por hoje que não tenho tempo nem experiência para isso, parto para uma análise mais superficial.

A dominação tá aí, em cima da gente, de roupa de couro e pêlos no peito. Eles crescem e a gente percebe isso, olhando para agenda telefônica. Não há mais um que preste. Não há mais quem pague. Eles estão aí, crescendo.

07 outubro 2010

As mexericas de Miriam Leitão


Miriam Leitão escolheu as bananas e as tangerinas. De início não entendeu quando o feirante, rapazinho franzino e até bonitinho, indicou as mexericas, que estavam grandes, doces e macias. Com tangerinas inteiras ela partiu para casa, pensando no tal feirante, com o sotaque carregado, a roupa encardida, mas o cabelo perfeito. Pensou nele nu, os músculos em desenvolvimento e os pêlos pubianos. Pêlos pubianos eram recorrentes em sua cabeça, principalmente ao volante, é de um relaxamento que só pensando pra saber. Até então experimentara de tudo. Claro, com a devida orientação de sua psicanalista, aquela mulherzinha de cabelo liso, loiro e volumoso. Como invejava o cabelo da psicanalista. Pensar na tal mulherzinha lhe estressava e lhe tirava a atenção do transito. Também já experimentara isso, naquele dia que acabou encostando no poste e foi obrigada a partir para a cirurgia plástica. Aquela era outra Miriam Leitão, uma que não se controlava e não pensava em pêlos pubianos. Ah, os pêlos pubianos daquele feirante, homenzinho franzino e suado.

17 maio 2010

O filho perfeito


Era o filho perfeito, estudante universitário. Curso de Humanas. Falava algumas línguas com fluência. As outras, manipulava como ninguém. Sorria sempre no momento certo, isso era algo de que se orgulhava.

Nunca aprendera a andar de bicicleta, mas ainda assim era o orgulho da família toda. Principalmente da mãe, que era muito possessiva e andava satisfeita desde que descobriu que o crescimento dos pêlos pubianos do filho não tinha nada a ver com conhecer sua futura nora. Ou as futuras noras.

Ele nunca levava ninguém em casa. Exceto pelas amigas, era o que diziam os dois, enquanto todos se riam deles – o casal – rodeando a mesa do almoço de domingo. Eles coravam, como devia ser. Ela mais que ele.

Não sabia o que seria da sua vida se não fossem suas amigas, que aturavam o almoço com a sua mãe e as piadas do seu pai.

Ele seguia humanamente, na perfeição de um filho exemplar. Daqueles que não bebem e não voltam depois das onze da noite. Aquela mãe dormia tranqüila depois que seu filho estava na cozinha comendo a sobra da janta. Ele estava com fome. Fora exaustiva a reunião com seu orientador naquele quarto de motel.

26 fevereiro 2010

Aham, Cláudia, senta lá

Ele não recusava um convite para ir ao restaurante japonês e comia temaki cheio de desenvoltura, até virava os olhinhos só em ouvir falar da truta da Patagônia do Koni Store. Mas virar olhinhos nem sempre é uma atitude muito gay.

Ele não sabia nada sobre futebol, nem se importava que seu time estava na segunda divisão. Ele só dizia que torcia para aquele time porque seu avô o obrigara. É time de tradição, meu filho, neto meu não nega nossas raízes lusitanas. Ele nem sabia o que era segunda divisão.

Nunca soltou pipa com os meninos e sempre foi viciado em mangá. Principalmente aqueles que falavam de meninas com olhos estranhos, cabelos que variavam do lilás ao rosa-chá. Ele sabia a diferença entre lilás e rosa-chá.

Fingia que não sabia nada sobre blusa frente-única. Mas uma coisa era verdade, ele odiava Lil’ Wayne e funk. Uma festa que não tocasse Beyoncé ou Lady GaGa era uma festa perdida. Ele sabia as coreografias da Beyoncé, mas não gravava nada em vídeo caseiro para colocar no YouTube, afinal de contas, isso seria muito gay.

Ele era apaixonado por uma amiga nossa. Ela tinha namorado. Mas o namorado dela não curtia comida japonesa, não curtia Rihanna nem nunca lera um gibi (ou qualquer outro objeto que contenha letras). Por algum motivo, isso o tornava mais interessante.

Certa noite, ele foi visto numa boate gay. Blusa listrada, calça jeans e uns bons passinhos de musical da Broadway na memória. Bebia cerveja em copo descartável com o objetivo de ficar doido o suficiente para tirar a camisa e subir no queijo. Ele não malhava.

Exibia as axilas cheias de pelos. Mais uma herança do avô. Era o orgulho da avó, talvez por isso. Todo mundo quer um neto que tenha a axila cabeluda. Quanto mais pelos, mais responsabilidade, mais cedo ele se casaria com uma menina bonita e educada, de boa família, para irem juntos curtir uma comédia romântica depois de comer uma porção de sashimi de peixe branco.

Ele não usava a expressão curtir, nem qualquer outra gíria. Era antenado nos vídeos do momento e guardava as melhores frases para usar no seu dia-dia. Mas quando questionado se também era gay, negava.

Todo mundo percebia que ele era heterossexual. Não há gay que saiba dançar Single Ladies. Não há gay que sincronize os movimentos da mão e do pescoço tão bem quanto ele. Isso é puro preconceito. E isso não admitimos por aqui.


Mas naquela noite ele bebera muito. Nem sempre se consegue dosar direito o quanto de vodka com Red Bull devemos ingerir. E em determinado momento ele estava com algo pendurado no pescoço. E não eram os versos de uma canção da Gretchen. Não.

Aquilo tinha pés que calçavam entre 40 e 42 e aposto todos os episódios de Will And Grace que também tinha as axilas peludas. Sobravam traços da cultura ibérica naquele nariz.

Fiz meu papel e avisei. Não queria que ele passasse por gay. Às vezes a gente não sabe o que está pendurado no nosso pescoço. A gente pode nem sentir. Ainda mais se a gente estiver preocupado com os pelos nas axilas. E isso preocupa, cá entre nós.

Tem gente que queria comer ele só porque ele era hetero. Particularmente? Acho isso um absurdo.