13 outubro 2010
Joãozinho
07 agosto 2010
Daquela conversa sobre aquele professor
30 julho 2010
Pessoas que reclamam demais

25 abril 2010
Friendly

A amiga daquele menino que é gay faria de tudo pra saber que ele era gay. Ou pelo menos saber da maneira certa. Aquelas conversas do tipo “preciso-te-contar-uma-coisa”, “você-não-pode-contar-pra-ninguém”.
O primeiro passo era falar bem dos homossexuais, mesmo aqueles estranhos que usavam cabelo com balaiagem ou aqueles que usavam calça xadrez. Fashionismo era coisa de gay. Fashionismo e Sex And The City. Daria certo falar sobre Sarah Jessica Parker.
Ele continuava lá, beijando meninos em noitadas escusas pelo centro da cidade, tão heterossexual quanto sempre fora. Não cantava Lady GaGa, nem pronunciava a palavra heterossexual. Só gays fazem isso.
O segundo passo foi andar com lésbicas, daquelas femininas, maquiadas, do tipo novela das oito. Aquelas modernas que ficam com meninas, meninos e com plantas carnívoras. Ela evitava as plantas carnívoras. Esse seria o último passo, mas ainda estava longe de lá.
Depois partiu pro desabafo. Falar de suas experiências. Aquelas imaginárias tipo sexo oral na vizinha de baixo, beijo triplo na última rave, mesmo aquela que ela nunca pisara. O amigo gay não demonstrava terror, nem estranheza. Era bem daquele tipo de hetero que não fala hetero e que é amigo de gays.
Mas isso é o que ela queria ser – a amiga do gay – ela pensava. Não é porque ele não canta Bad Romance, não gosta de comida japonesa e curte futebol que ele é heterossexual. Afinal de contas, eram amigos. Ela sabia o que ele era. E ninguém assegurava àquela menina determinada a garantia daquela teoria.
Ele, por outro lado, continuava irredutível. Ainda que algumas pessoas já soubessem. Ainda que ele falasse com elas com certa naturalidade sobre o assunto. Mas com ela o assunto era outro. Com ela, ele não sabia quem era Samantha ou Miranda.
Nas noitadas, ela abusava do álcool pra tomar coragem e levar o plano adiante. Beijava meninas, era a perfeita lésbica feminina, que se maquia e sai com todo tipo de gente – menos as plantas carnívoras. Ele só estava esperando que ela perguntasse.
02 abril 2010
Sobrepeso

Era o quarto tratamento para emagrecer que ela fazia. Esse era à base de puro otimismo. Ela acordava, sorria na frente do espelho, aceitava os desaforos do chefe no trabalho, do trocador do ônibus e ia dormir com o sentimento de que o dia seguinte seria melhor. Era a receita que diziam ser mágica e infalível para emagrecer em torno de sete quilos em um mês. Sete quilos era o suficiente para entrar naquele vestido que seu amigo gay dizia que ela arrasava, anos atrás. Era o vestido daquela noite, quando ela beijou cinco pessoas, mas acabou sozinha comendo um cachorro-quente. Todo cachorro-quente tem sua parcela de culpa em sete quilos engordados. O prazo para o tratamento era de um mês. Ela já exercitava seu otimismo. Mesmo sem o tratamento acabar, já ia para as boates com o sentimento de que conseguiria descolar um beijo na boca de algum rapaz, nem que ele usasse roupa falsificada e morasse na Tijuca. Se não fosse um beijo, teria que ser uma passada de mão em sua bunda. Nesse caso, fazia questão de alguém da Barra ou da Zona Sul. Ipanema pra lá, perto da praia, no máximo duas quadras. Bebia bebida quente, que diziam ser menos calórica e sorria com o objetivo de aumentar seu otimismo e ajudar no emagrecimento. Lera a respeito em algumas revistas interessantes. Parecia que a Penélope Cruz usara essa dieta pra fazer Volver. O que se notava era uma falsa alegria, dessas que toda mulher magra exibe. Mas o vestido continuava pequeno demais para o seu quadril. Ela odiava seu quadril. O vestido era preto. Tamanho 36. Só quem veste 36 consegue ser feliz, disse uma vez certa pessoa sábia. Uma mulher que veste mais que isso há de ter problemas. Seja de relacionamento com homens ou roupas, ou de colesterol – para casos mais sérios. Não era o seu caso. No fim de um mês, toda aquela falsa verdade do otimismo foi por água abaixo. Ela continuava uma gordinha atarracada, com um sorriso assustador no rosto e piadas sobre qualquer tragédia. Daquelas gordinhas que vêem o lado bom de tudo. Até do manequim 44. As benditas gordinhas que se sentem bem gordinhas. Aquelas que traumatizam as que acreditam em dietas à base de otimismo e anorexia nervosa. Assim nasce o bom-humor. Que seja estranhamente feliz quem veste mais que 36.
15 março 2010
BestFriendsForever

A que mora do lado da minha casa é filha de mãe solteira, criada pela babá que transava no sofá da sala vendo o programa do Gugu todo domingo. A mãe tinha uma profissão suspeita.
A outra é filha de militar, todo mundo soube quando elas começaram a ser amigas. Mais ou menos quando tinham 13 anos e esta começou a freqüentar a vila todos os dias. Agora ela namora com meu primo, de tanto que se envolveu com a vizinhança. Meu primo malha, mas não pensa.
De vez em quando eu ouço os gemidos dela e do meu primo, de tardinha em dias de semana. Eles transam loucamente e ele faz questão de contar com detalhes pra quem mora no fim da rua e não tem o privilégio de ouvir os sons.
A menina que mora do meu lado adora ele, porque ele é bobo e faz sua amiga feliz. Elas vão ao shopping, ao cinema e fazem noitadas juntas. Exceto as noites em que meu primo não se deixa ser enganado tão facilmente. Nessas ocasiões elas ficam na casa de uma ou de outra, conversando com rapazes sem rosto pelo chat da UOL.
Sempre fingem serem meninos homossexuais e ficam apreciando outros gays mostrarem seus pênis na webcam, num ato desesperado por arranjar um pouco de prazer em palavras de sacanagem. Usam sempre a foto do meu primo. Aquela que ele está sem camisa, de sunga, molhado, segurando a mangueira em jato numa mão e o pescoço do seu melhor amigo na outra.
O melhor amigo dele e ele são super grudados. Quase tanto quanto nós éramos antes de crescermos. Quase tanto quanto a menina que mora do lado da minha casa e a filha do militar. As duas jovenzinhas saudáveis que insistem em conhecer e zombar de estranhas bolas na tela do notebook.
Entre um MACHO_ATV e um boladãodavn23cm, elas tomam doses de vodka Absolut com o que tiver na geladeira. De uma ou de outra. Às vezes era Laranja Caseira, outras Pepsi sem gás ou Lemon Light.
Quando o álcool já era sentido de longe e elas ficavam com aquele cheiro na pele suada, uma parecia atrair a outra. Coincidentemente, era quando a garrafa já estava vazia. Elas se beijavam na boca, até tirarem suas roupas. Enquanto isso, meu primo malhava os tríceps.
Quando já tinham tirado suas roupas, beijavam o resto do corpo. Como quem quer tomar o resto de Absolut Vanilla que transpira dos poros bronzeados. Elas iam à praia semana sim e semana não. E nessas ocasiões flertavam com os coroas acompanhados enquanto se besuntavam de óleos bronzeadores de cenoura e de bronze.
Coroas adoram meninas flambando. Elas adoravam ser adoradas. E entre uma adoração e outra, namoravam escondidas. Principalmente quando já tinham bebido o suficiente pra fingirem que não se lembravam. Mas elas lembravam daquele dia, era final do Campeonato Carioca e o meu primo não deixou elas irem pro Leblon comemorar a vitória.
26 fevereiro 2010
Aham, Cláudia, senta lá
Ele não sabia nada sobre futebol, nem se importava que seu time estava na segunda divisão. Ele só dizia que torcia para aquele time porque seu avô o obrigara. É time de tradição, meu filho, neto meu não nega nossas raízes lusitanas. Ele nem sabia o que era segunda divisão.
Nunca soltou pipa com os meninos e sempre foi viciado em mangá. Principalmente aqueles que falavam de meninas com olhos estranhos, cabelos que variavam do lilás ao rosa-chá. Ele sabia a diferença entre lilás e rosa-chá.
Fingia que não sabia nada sobre blusa frente-única. Mas uma coisa era verdade, ele odiava Lil’ Wayne e funk. Uma festa que não tocasse Beyoncé ou Lady GaGa era uma festa perdida. Ele sabia as coreografias da Beyoncé, mas não gravava nada em vídeo caseiro para colocar no YouTube, afinal de contas, isso seria muito gay.
Ele era apaixonado por uma amiga nossa. Ela tinha namorado. Mas o namorado dela não curtia comida japonesa, não curtia Rihanna nem nunca lera um gibi (ou qualquer outro objeto que contenha letras). Por algum motivo, isso o tornava mais interessante.
Certa noite, ele foi visto numa boate gay. Blusa listrada, calça jeans e uns bons passinhos de musical da Broadway na memória. Bebia cerveja em copo descartável com o objetivo de ficar doido o suficiente para tirar a camisa e subir no queijo. Ele não malhava.
Exibia as axilas cheias de pelos. Mais uma herança do avô. Era o orgulho da avó, talvez por isso. Todo mundo quer um neto que tenha a axila cabeluda. Quanto mais pelos, mais responsabilidade, mais cedo ele se casaria com uma menina bonita e educada, de boa família, para irem juntos curtir uma comédia romântica depois de comer uma porção de sashimi de peixe branco.
Ele não usava a expressão curtir, nem qualquer outra gíria. Era antenado nos vídeos do momento e guardava as melhores frases para usar no seu dia-dia. Mas quando questionado se também era gay, negava.
Todo mundo percebia que ele era heterossexual. Não há gay que saiba dançar Single Ladies. Não há gay que sincronize os movimentos da mão e do pescoço tão bem quanto ele. Isso é puro preconceito. E isso não admitimos por aqui.
Mas naquela noite ele bebera muito. Nem sempre se consegue dosar direito o quanto de vodka com Red Bull devemos ingerir. E em determinado momento ele estava com algo pendurado no pescoço. E não eram os versos de uma canção da Gretchen. Não.
Aquilo tinha pés que calçavam entre 40 e 42 e aposto todos os episódios de Will And Grace que também tinha as axilas peludas. Sobravam traços da cultura ibérica naquele nariz.
Fiz meu papel e avisei. Não queria que ele passasse por gay. Às vezes a gente não sabe o que está pendurado no nosso pescoço. A gente pode nem sentir. Ainda mais se a gente estiver preocupado com os pelos nas axilas. E isso preocupa, cá entre nós.
Tem gente que queria comer ele só porque ele era hetero. Particularmente? Acho isso um absurdo.
21 fevereiro 2010
Indie é a Mallu Magalhães
Ela me disse assim, sem mais nem menos, sem carinho e sem nenhum tipo de preparação para o meu estômago: ele era indie. Indie pra mim é quem ouve música underground, freqüenta locais underground, quem vai em qualquer lugar do Grupo Matriz, aqui no Rio. Devem existir outros Grupos Matriz pelo resto do país. Assim espero, a bebida lá é boa, mas eu não sou indie.
Indie pra mim se confunde um pouco com rock ou rock pra gays. Se confunde um pouco com emo, ou emos inteligentes e bem vestidos. Vestidos, porque emos se fantasiam. Indie não tem o preconceito que eu tenho.
E ele era indie. Ficou assustado quando chegou ao Rio pela primeira vez, sozinho, na rodoviária. A zona portuária do Rio é realmente de assustar. Ainda mais sendo indie. Vestindo colete grosso de linho, gravata, calça de tecido e calçando um All Star velho.
Alguns diziam que ele só era um menino pobre, morador de um bairro da periferia do fim do mundo, inteligente e que usava as roupas (e talvez o gosto musical ou ainda outros gostos) para se destacar no visual desagradável onde crescera. Ela pagava o quarto de motel pra eles.
Isso já dizia algo, porque dizia que ele comia ela. Ou talvez ela comesse ele, com molho Teriyaki, que era o nosso preferido. Mas aí ela me falou da roupa e da sua atitude cult-vintage-uso-roupa-de-brechó-mesmo. Só faltava ele saber quem era Lady GaGa. Pior se ele soubesse como pronunciar os primeiros versos de Bad Romance.
Mas ele ia em festa de rock, era indie e Lady GaGa é muito pop pra quem é efetivamente indie. Na periferia do fim do mundo também existe cultura indie e ele estava aí pra provar isso. Apesar de tudo isso, às vezes era ele quem ela queria. Principalmente à noite, quando os outros estavam de folga.
Aí ela falou sobre um carnaval, porque afinal de contas era carnaval. Outro carnaval. Me desculpem as histórias de carnaval. Mas meu carnaval só deixou isso: histórias.
E nessa história, o menino indie que dizia que não queria crescer e falava Peter Pan com a pronúncia mais correta possível, sem sotaque do fim do mundo nem da periferia de lá, esse menino beijou um menino. Ele era conhecido como Xuxa. Sim, a rainha dos baixinhos. Seu irmão também beijou ele. Mas nunca soube se o irmão era indie ou se era gay.
Vai ver é moda entre os indies. Vai ver é moda entre os emos. Eles são a moda da década. Os grunges já foram, outrora. Mas não, ele era indie. Devia ouvir Feist e Cat Power. E não é porque ele era gay, é porque ele era indie.

Ela pagava o quarto de motel, gente. Isso prova que o beijo na Xuxa não significa nada. Vai ver é sonho de infância. Vai saber. Vivendo na periferia do fim do mundo. Ou então ela gosta muito de molho Teriyaki. Eu gosto.
Ouvindo: Seven Nation Army – The White Stripes

