Hoje nem sem mais quem eu era. Quando eu pego pra ler o que
escrevia há uns anos atrás, leio outra pessoa. Qualquer um menos eu. É
engraçado ver como você era há uns cinco ou quatro anos atrás. Daquele lá eu
invejo a pureza, as palavras saíam tão reais, tão genuínas. É estranho se ver
de fora no futuro. Às vezes dá até vergonha do tanto de coisa que disse e que
poderia ter ficado não dita. E o estilo então? Cheio de cafonices e parágrafos.
Quando paro hoje para pensar nem sei pra que é que servem aqueles tantos
parágrafos. Eu me abria sem pudor nenhum, sem vaidade. Tão louco ler aquele
cara sem amor-próprio. Na verdade, nem sei se estou falando de amor-próprio
mesmo. No fim das contas pode ser qualquer coisa. Eu só acho que não precisava
falar de todo mundo que amei e invejei e com quem quis dormir. Tem coisa que
não precisa falar, né? Dá um sentimento estranho ler esses textos nos quais eu
falava coisas tão íntimas de pessoas que nem sentiam o mesmo que eu. Sei lá.
Fico pensando se era melhor ser desse jeito e colocar pra fora tudo o que eu
tenho aqui dentro numa de se esvaziar de tempos em tempos, ou se era melhor ter
ficado calado que com o tempo passava. Eu olho aquele menino apaixonado que
falava de si sem pudor nenhum e nem entendo de onde ele vem. Parece tão
distante, tão romântico.
