Mostrando postagens com marcador Casal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Casal. Mostrar todas as postagens

30 setembro 2011

Sorria


Porque acordei hoje com a nossa canção, sorri. Aquele sorriso frouxo com os olhos inchados por tanto ter chorado na noite anterior. Chorei de rir, isso sim, quando você me fazia cócegas e deitava sobre o meu corpo totalmente nu. Tomamos café da manhã juntos naquele dia e isso me fez rir o resto do dia, isso e o beijo que você me deu quando ia embora da minha casa com meu casaco, indo para o trabalho. Saí de casa às duas da tarde e só de ver a cor do sol sorri, olhando para o céu. Caminhei a calçada toda olhando para o céu, sorrindo para as cores que estavam por ali. E quando me cansei do passeio, quando senti saudades de você, voltei a sorrir. Lembrando da noite hilária que tínhamos tido, disquei seu número e esperei atender.

Sorri porque não sinto vontade de fazer outra coisa com a boca que não seja sorrir. Ou quem sabe beijar você até amanhecer, contando com a sorte de que a madrugada demore dessa vez mais tempo do que costuma demorar.

21 setembro 2011

Sobre você


Quem me segura pelo braço quando andamos em terrenos estranhos, pedras sem formatos definidos e areias movediças. Os pés que me apóiam por toda a nossa casa, os dois mil andares pelos quais gosto de andar de madrugada. O sorriso pequeno de quando pensamos a mesma coisa. A mão que encaracola os fios do meu cabelo claro, queimado pelo sol de agosto passado. A ponta da língua que tem as melhores palavras, nas melhores horas, nos melhores tons. Quem diz que me ama só porque eu peço, só por causa da minha insegurança infantil. Quem me espera sair de casa e sorrir, me entregando, só porque entende o fato de eu nem sempre me entregar. A boca dos meus últimos beijos e dos melhores. Os textos mais criativos, meus e seus. Quem se cala quando tudo o que eu preciso é falar. Quem me escuta. Que senta na cadeira de balanço e me admira até as oito da manhã seguinte, porque naquele dia fizemos aniversário de oito meses de namoro, ou nome qualquer que queiram dar a isso. Os dedos que me excitam quase todas as noites, até naquelas que chove granizo. Os selos guardados e colados nas nossas fotografias, aquele que sorri ao meu lado só por estar ao meu lado.

01 agosto 2011

Esse amor


Todo mundo sabe que a menina é feliz, que ela é sua menina e que ele é seu rapaz. Que os dias que passam sob as cobertas passam mais rápidos e mais quentes, ainda que seja junho. Ainda que estejam sempre nus em pêlos.

Todo mundo olha e vê que a menina é feliz, que ela é sua menina e que ele é seu rapaz. Que os movimentos das mãos dele pelo ombro dela enquanto andam de ônibus depois da sessão de cinema ali em Botafogo, chegam até os seios e os acariciam sem pudor algum ou vidro fumê.

Todo mundo sabe que ela é sua menina, anda toda rebolativa e com o sorriso de orelha a orelha. Não fala em outra coisa, só no cabelo reco e na camisa branca que ele usa debaixo da farda nos dias de semana.

Ele é seu rapaz. Que sai pra trabalhar cedinho, lembrando a noite de ontem no portão da casa dela ou na praia da Urca, sentados num banquinho entregues ao esconderijo que ela tanto amava.

Ele era seu rapaz. Pegava na mão dela com uma pornografia inédita e fazia carinho enquanto lanchavam na barraquinha de cachorro-quente. Nem as outras meninas que passavam em seus vestidos de festa lhe distraiam o olhar.

Era só ela e eles. Só esse amor que não cabia em um e que era único. Que de dia era sonho de padaria e de noite pizza entregue por motoqueiro. Era cigarro e refrigerante. Era inocência e tesão. E no tesão, inocência. Na inocência, uma gorda quantia de tesão.

02 outubro 2010

Antes do pôr-do-sol


- Às vezes, arquivo coisas na cabeça e esqueço o assunto. Dói menos arquivar as coisas do que conviver com elas. Me desculpe.

- Então, aquela noite é uma lembrança triste?

- Não, eu não me referia àquela noite, em particular. É melhor esquecer certas coisas.

- Lembro mais daquela noite do que de anos que vivi.

- Eu também.

- Sério?

- Bem, pelo menos era o que eu pensava. (risos) Talvez eu tenha arquivado o assunto porque o enterro da minha avó foi no dia em que íamos nos encontrar.

- Foi um dia difícil pra mim, mas deve ter sido pior para você.

- Foi estranho. Eu me lembro de ver o corpo dela no caixão, das mãos lindas e quentes com as quais ela me segurava. Mas nada no caixão era do jeito que eu me lembrava dela. O calor humano se fora. Depois, eu chorei. Não sabia se eu estava chorando porque não a veria mais ou se era porque não o veria. Sinto muito, perdoe o desabafo. Estou meio deprimida essa semana.

- Por quê?

- Não sei. Nada demais. Talvez por ler seu livro. Não, foi porque eu pensei na esperança que senti naquele ano e, desde então, tudo ficou... Sei lá. Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.

- “Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.” Posso pintar isso no pára-choque do meu carro? Se escrever um livro sobre a nossa noite seria um bom título.

- Seria um livro diferente.

- É, sem cena de sexo.

- Mas sabe do que mais? Já que nos encontramos de novo, podemos mudar a lembrança daquele 16 de dezembro. Não tem mais o final triste por não nos encontrarmos de novo.

- Certo. Acho que a lembrança só termina quando a gente morre.

30 setembro 2010

Antes do amanhecer


- Ok. Vou ligar pra minha amiga em Paris com quem vou almoçar. Ok?

- Ok.

- Trim, trim, trim, trim. Atenda

- O que?

- Atenda o telefone.

- Alô.

- Alô. Vani, c’est Celine. Comment ça va?

- Ça va bien, et toi? Estou tentando melhorar meu inglês. Vamos falar em inglês?

- Tudo bem, boa idéia. (pausa) Não vai dar pra almoçar com você, me desculpe. Conheci um cara no trem e estou em Viena com ele.

- Você ficou louca?!

- Provavelmente.

- Ele é austríaco?

- Não, é americano e está voltando para os EUA amanhã.

- Por que desceu do trem com ele?

- Bem, ele me convenceu. Fiquei a fim de ir com ele depois de conversarmos um pouco. Ele era tão amável, não resisti. No vagão-restaurante, me contou que viu o fantasma da avó quando era menino. Foi aí que ele me encantou. Pensei num menininho cheio de sonhos lindos. Caí na sua armadilha. Ele é lindo, tem olhos azuis, uma boca bonita, cabelos sujos! (risos) Adoro. É meio alto e desajeitado. Gosto de sentir que ele me olha quando não estou vendo. Ele beija como um adolescente. É lindo.

- Como?!

- É, a gente se beijou. Foi lindo. Fui gostando cada vez mais dele. Mas ele está com medo de mim porque contei a história da mulher que mata o namorado. Deve estar achando que sou uma dessas megeras manipuladoras. Espero que ele não ache isso. Você me conhece, sou inofensiva. Só posso machucar a mim mesma.

- Acho que ele não está com medo. Ele está louco por você.

- Sério?

- Estou achando que vai dar certo. Você vai ver ele de novo?

- Ainda não falamos sobre isso.