09 outubro 2010
No fim da semana
30 julho 2010
Pessoas que reclamam demais

04 junho 2010
Aprenda

Ninguém nasce sabendo. Todo mundo aprende com a vida. Lá pelos 16, ou 18 anos. Alguns demoram até os 25, os mais tímidos. Mais que isso, pode ser considerado aberração. Ninguém nasce sabendo e são poucos os que acertam de primeira. Alguns demoram mais que os outros, o que importa é que um dia acerte. Unzinho que seja. E nesse dia haverá distribuição gratuita de pirulito de tutti-frutti, pela conta do felizardo que finalmente aprendeu. Aprender é difícil. Não subestime esse avanço. Existem aqueles que estão a vida toda se gabando de já terem aprendido, quando na verdade ninguém tem coragem de dizer que não é bem daquele jeito. E quando você termina é sempre bom dar uma olhadinha nos olhos da pessoa. Você pode fingir que é romântico e que liga para o famoso olho-no-olho, mas você tem de estar atento pra notar qualquer resíduo de insatisfação. Caso haja, tentar de novo na próxima vez, com mais afinco. Pra quem não aprendeu ainda, é bom rezar para haver a próxima vez. E a gente sempre tem que aprender mais, principalmente quando se muda muito de namorado. Mais ainda quando não namora. O importante é aprender e não ficar pra trás. Não desista dessa missão. Quando a gente aprende o mundo fica colorido e a gente pode sorrir mais. Aquele sorriso de orelha a orelha que só os que já aprenderam conseguem dar tão espontaneamente. Pra aprender é sempre bom exercitar. Com os mais experientes, de preferência, e estar aberto para as dicas que possa receber. Não entenda mal as críticas nem as mensagens de celular não respondidas. Parta para outra e aprenda. Tem gente que você se engana e que simplesmente não tem vocação para passar os ensinamentos da vida. Essas pessoas vão morrer cedo, provavelmente de alguma doença ligada ao sistema digestivo.
07 março 2010
DDD
Pelo menos ele sempre voltava com havia ido, excitado. Não era preciso nenhum esforço maior para que as coisas voltassem ao clima. Ele simplesmente conseguia manter o clima.
Quando voltava pra cama se amavam, porque ele era do tipo que fazia amor. Odiava falar de sexo casual, fazia carinho como ninguém. Não havia pessoa que não se derretesse aos seus encantos. Ele fazia qualquer pessoa se sentir única. Exceto enquanto estava no telefone.
Não tinha medo de ser descoberto. Ele sabia mentir da maneira certa e de vez em quando conseguia até se fazer de vítima, parecer inseguro, fingia ter medo de ser trocado por outro.
Mas nunca se sabe quando você será trocado, eu dizia a ele.
Enquanto isso ele ocupava a cama alheia, amando mais a si próprio do que a qualquer outra pessoa. Alguns diziam que ele estava certo. Eu sentia uma certa repulsa. Coisas do meu falso moralismo, da minha hipocrisia estendida na minha testa pra qualquer um que queira ver.
Trocava telefones, porque adorava telefonar. Aqueles malditos planos de celulares pré-pagos que te dão direito a falar horas pagando bem pouco. Quem pagava mesmo era quem esperava por ele na cama. Eu já achava caro pagar na mesa do bar. Quase nunca eu pago. Nem caro, nem barato.
Ele era do tipo que te chamava de “meu anjo” porque tinha medo de te chamar de “meu amor”. Amor só tem um, certo? E ele estava longe, esperando sua ligação. Mais trinta minutos de celular, mais 350 juras de amor (?), mais algumas mentiras, encenando uma falsa tristeza. Esse tipo de pessoa sempre parece triste pelo telefone. Pelo menos mais do que pessoalmente.
Quando ele volta pra cama, ele está excitado. Tem gente que acha que isso que é importante. Um telefonema pra outra cidade com o intuito de aquecer o coração de alguém amado e um sexo ereto com o intuito de aquecer a cama de quem se satisfaz com isso. Só com isso.
Porque ele era carinhoso, ele chamava de “meu anjo”. Já é melhor que chamar de coisa alguma. Porque até quando ele enganava era perfeito. Cada um se contenta com o que tem.
05 março 2010
Sobre cigarros

Em meus sonhos, sempre havia um cigarro. Sempre havia um desenho de engenharia pendurado na parede da janela, ao lado das declarações de amor. As declarações de amor eram feitas com lápis coloridos. O verde e o laranja eram os nossos favoritos.
Quando fazia frio em mim, fazia calor lá. E vice-versa. Nós trocávamos o que podíamos e nos aquecíamos e nos refrescávamos. Íamos dormir com o toque do telefone. Ainda hoje acho que significava algo. Meu toque era uma música eletrônica do início de 2008, depois eu troquei para uma música brasileira. Mais ou menos na época que meu celular parou de tocar.
Hoje em dia, meu celular só vibra. Quase nunca. Minha mão coça pra digitar seus números, enquanto lembro das nossas conversas e das nossas juras. Mas guardo ela no bolso da jeans lembrando também que você já nem sabe meu segundo nome.
Eu costumava subestimar tudo isso. Hoje vejo que teve sua importância. Quando vejo as outras pessoas fazendo o mesmo. Quando vejo sua foto e lembro de você sorrindo. Seu sorriso era tão perfeito. Mesmo que você fosse capaz de achar um monte de outros defeitos para empregar nele. Mas você sorria enquanto falava. Você sorria, enquanto cantava.
Cantava a nossa canção. Sim, nós tínhamos uma canção. E, seus versos, trocávamos como se fossem de nossa autoria. Completávamos nossos trabalhos. Nossas artes. Era tão recíproco. Ou talvez seja parte da minha memória que falha. Prefiro fantasiar.
Lembrar dos desenhos mostrados. Todos eles feitos como se você tivesse seis anos de idade. Corações tortos e vermelhos. Corações feitos com números que não tinham sentido e que foram comprados. Corações feitos com cinzas dos cigarros fumados. O copo de coca-cola sempre gelado, sempre por perto. Ainda que estivéssemos distantes.
Há quilômetros daqui, alguém de vez em quando pensava em mim. E eu pensava de volta. Hoje já não tem importância. Hoje já passaram novas pessoas. Mas a nossa canção... espero que ainda seja nossa.
*Hometown Glory - Adele
19 fevereiro 2010
Arlequim
Ele era médico geriatra, cuidava dos velhos e de seus problemas de velhice. Sabia tudo sobre fraldas geriátricas e sobre todas as outras palavras que acompanham a palavra geriátrica. Media um metro e oitenta e cinco e pesava uns noventa e cinco quilos. Ou eu digo isso só pra ele parecer mais gordo que eu. Talvez ele fosse mais gordo que eu, talvez seja só liberdade poética.
Era sábado de carnaval. E o melhor baile seria só na terça-feira mesmo. A terça-feira é o dia do “agora-tem-que-ir”. Ainda havia muito tempo para aquela sensação surgir. Meu joelho estava inteiro, meu cotovelo também. Meu telefone celular também, ao contrário de muitos outros. Afinal de contas, já era sábado de carnaval na cidade onde o carnaval começa no Réveillon.
Meu telefone inteiro tocou, aquele que fica guardado em cima das cuecas que estão usadas e não foram recolhidas pela minha mãe. Atendi o médico como que atende um cliente, mas é ele quem cuida da saúde dos outros. É ele quem ganha com isso, alguém um dia me disse.
O caminho seria o frio, pra fugir do inferno que a cidade estava. Pra comer também, por que não? A gente adora comer. Mesmo que seja carnaval, mesmo que eu tenha dito milhões de vezes que estou de dieta. Sempre tem um espaço pra um rodízio de pizza ou pra umas temakis de salmão simples.
Salmão faz bem pra saúde, tem ômega de algum número que não me lembro, mas que o médico insistia em citar nos nossos papos descontraídos sobre Alzheimer. Salmão faz bem pra memória e leite bem pros ossos. Mesmo que você só tenha 20 anos de idade.
Os ossos são sempre muito usados. Ainda mais no carnaval, né? Ainda mais em Visconde de Mauá...
Usei meus ossos até umas onze da noite, depois disso ia dormir no meu quarto. Meu? Médicos sempre deixam você no seu quarto, não é assim? Médicos sempre cuidam da sua saúde. A prioridade é manter seu corpo são e sua mente sã. Minha mente não está sã há muito tempo. E bota tempo nisso.
Meus ossos expostos no bloco de domingo, de volta ao Rio. Fui de chapéu de palha, eu e a Amália. Não fui de roupa branca por questões pessoais. Não me lembram coisas boas e a catequese está dentro dessas coisas, sim.

A segunda-feira de carnaval me fez ver que o carnaval havia terminado para mim desde a quinta do bendito queijo-ralado. Voltei pra casa decidido a perder o baile de terça-feira, o melhor de todos. Minha fantasia de marinheiro parada no cabide, do lado do Peter Pan que não cabe mais em mim. Minhas calças também não cabem mais em mim.
Mesmo a palavra mágica Absolut de maracujá não foi suficiente pra me arrastar pelos corredores do Humaitá. Deve ter sido alguma medicação que aquele médico me dera. Maldito médico que trata da minha velhice e me torna mais velho. Ou talvez tenham sido os ares de Visconde de Mauá ou de Vancouver.
*Ouvindo: Copacabana – Marcelo Camelo
