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04 junho 2014

Bad Girl


Minha cama está cheia de cigarros quebrados e outros fumados. Já acordo e bebo um gole de qualquer coisa que esteja na minha cabeceira. Coca-cola, vodka ou óleo de rícino. Se eu me olho no espelho, vejo a menina de maquiagem estragada, de lábios rachados e a pele se esfarelando no rosto ossudo. Se não olho, não vejo nada.

Quando decido passar alguns dias na minha cama, sem tirar a camisola nem me levantar para escovar os dentes, fico imaginando como seria aparecer para você. Dizer que eu te amo e que você deve largar sua esposa. Depois fico imaginando se eu deveria chegar discretamente, me tornar amiga da família, madrinha da sua segunda filha e então transar com você na garagem da sua casa, enquanto ela faz o ensopado na cozinha.

Nessas horas eu peço para morrer. Porque eu não consigo aceitar ser assim, disposta a engolir os restos de um homem e destruir uma família. Mas acho que quando peço ninguém me ouve porque todos sabem que eu já bebi demais naquela altura do dia.

Tento imaginar que sou o tipo de garota que não vai fazer você sofrer, mas como ser assim se eu não consigo fazer com que o meu sofrimento pare? Eu só não quero ficar ainda mais triste.



02 junho 2014

Abraço


O que eu quero agora é um abraço, daqueles que não ganho desde os meus dezessete anos. Os abraços antigamente tinham cheiros de baunilha e laranja misturados e eram tão quentes e frequentes. Lembro de quase todos os que recebi desde então e nenhum deles fez com que eu me sentisse realmente abraçado. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando adormecido e não sente mais abraço de ninguém. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não é abraçado devidamente. Parece que eu me enfiei em um buraco sem corda de salvamento e sem abraço. Por mais que eu tente entender esse olhar de pena que um monte de gente lança em mim como se tivesse o mesmo conforto que os abraços dos meus dezessete anos, simplesmente não consigo. Alguns dizem que acontece com todo mundo, que com os anos a gente vai ficando menos imaginativo. Eu não sei se acredito completamente nessas baboseiras, acho que eu sou é um miserável que não imagina devidamente.

30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez

28 maio 2014

Raiva


Eu morro de raiva quando vejo você rodeado de amigos, fazendo coisas legais. Parece até que eles não veem o quanto você é chato, sem-graça e previsível. Aí eu me lembro de uma máxima que eu li em algum lugar. Provavelmente num pacote de biscoitos recheados ou na caixa da pizza daqui do bairro. A máxima dizia justamente isso: “As pessoas nunca conseguem perceber quando alguém é chato, sem-graça e previsível”. Só então, consegui encostar a minha cabeça no travesseiro e dormir em paz. Sabendo que o problema não estava comigo, estava com todo o resto do mundinho em que eu vivo. Esse bando de gente chata, sem-graça e previsível que nunca entende as minhas piadas nem leem pacotes de biscoitos recheados e caixas de pizza. Apesar de ter dormido em paz, a raiva permanece aqui. Não sei se você entende como isso pode acontecer, mas acontece. É como se você terminasse a garrafa de uma bebida muito cara com amigos ou como se você assistisse o último episódio de uma série longa sozinho. E essa raiva não passa por nada. Eu durmo, acordo, tomo banho e meus moderadores de apetite e a raiva não me larga. Dou uma olhada de novo nas suas fotos, dou uma olhada nos seus amigos. Passo o dia trincando os dentes e roendo as unhas, ao mesmo tempo. No fim da noite engato nos mesmos pensamentos e sonho com um musical. Você desce escadas iluminadas cantando em plenos pulmões a máxima da minha caixa de pizza.

26 maio 2014

Da maneira que parecia certa


Eu te amei da maneira que pude. Do jeito que me ensinaram na televisão a amar. Eu sorria nas horas adequadas e me calava sempre que era solicitado. Às vezes me calava até sem que ninguém pedisse, mas era exatamente o que esperavam de mim. Todas as vezes que você precisou de uma companhia eu estava lá ao seu lado. Eu te ouvia e fazia cachos com o seu cabelo.

Gosto de acreditar que você também me amou como pôde. Da maneira que parecia certa. Essa coisa de fazer carinho na minha testa e dizer que me amava. Você fingia que tinha ciúme e corria atrás de mim pra onde quer que eu fosse. Todos os nossos vizinhos comentavam a tragédia que era a nossa casa.

Eu nunca vou saber se éramos suficientes um para o outro. Só sei que toda vez que eu penso em você e nos anos que passei ao seu lado, penso também nos anos que não passei ao lado do meu amor. Escolhi dar uma chance pra gente e acho que você fez o mesmo esse tempo todo. Pelo menos gosto de pensar assim.

Pode ser que eu fosse tudo o que você sempre sonhou e que esse jeito de você me amar fosse afinal o jeito certo. Só sei que pra mim não era suficiente. Que sempre fez falta o perfume que você não tinha, a voz que você não falava, as suas piadas que não me faziam rir.

23 maio 2014

Teresa


Teresa só pensa naquilo. Por aquilo leia-se pães de mel e dormir grudado sem roupa. Fui capaz de levar a situação o quanto pude até que me faltou força física. Muito antes já estava esgotado de ouvir seus gemidos e maquinar uma maneira de, na noite seguinte, controlar aquela mulher. Ela vivia dizendo o que queria. Um corpo colado ao seu durante toda a noite, acordar sendo beijada na parte interna da coxa, sentir perfume e suor nas primeiras e últimas horas do dia. Entre tudo isso, pedia por um caminhão de pães de mel. Implorava até. Seus dedinhos frágeis tremiam todos quando eu me deitava. Em menos de cinco minutos tamborilavam sobre minhas costas. Por muitas vezes ignorei até pegar no sono. E Teresa chorava ali do lado, se contorcia, não se segurava. Outras vezes cedi, mesmo a contragosto. Valia a pena por uma noite de sono bem dormida, sem as lamentações daquela alma perdida. E quando a encontrava, no fim do dia antes da janta, estava sempre com aquele olhar seco e vazio. O rosto sempre meio corado e a pele que ardia em febre. As unhas sujas de doce até que ela as lambia e pedia por mais.

21 maio 2014

Escatologia pornográfica



Eu decidi parar de escrever para você porque você nem ao menos notava que era de você que eu falava. Desisti de rimar teu nome com qualquer proparoxítona que existisse naquele tempo porque achei que não valia a pena gastar o vocabulário do nosso idioma quando você nem sabe como me ler.

Há muito tempo percebi que você não juntava as palavras que eu escrevia da maneira certa. Não tem fórmula mágica para isso. Eu só acho que você devia conseguir. E quando eu, finalmente, percebi que você nem ao menos se esforçava, eu parei.

E todas as vezes que toco em uma caneta eu me lembro daquelas coisas bobas que eu costumava escrever. E elas não faziam sentido mesmo, não adianta eu culpar você por simplesmente não ler seu apelido no meio dos meus textos. Vai uma dica. Junte a primeira letra dos textos ímpares nas linhas de número oito e você verá meu verdadeiro recado.

Eu duvido que você esteja curioso ao ponto de ler o que escrevi desde 1985. Aviso logo que eu estive por muito tempo sozinho e ocioso. Não venha depois choramingar comigo porque não aguenta mais ler minha voz literária falar escatologia pornográfica. Eu me contento que você não me entende e você se decida em me ignorar.

19 maio 2014

Na sua cara



Troquei as minhas orgias pela masturbação há muitos anos atrás. Espero que vocês saibam disso ao lerem minhas memórias. Saibam que estou nesse momento infestado de doenças venéreas e que, enquanto assistimos a esses programas tolos na televisão, memorizo bem qualquer pedaço de pele e pelo que surge na tela para mais tarde me masturbar no banheiro daqui de casa.

Se não é possível ser feliz acompanhado nem em grupo, que eu seja então feliz sozinho. Ai daquele que me olhar com olhos tortos e imaginar que eu não passo de doente. Depender de sexo e um pouco de gozo não me torna pior que nenhum de vocês. E, se eu gosto da sensação que isso causa na minha pele e no meu intestino, isso tudo é problema meu.

Não me venham com aquele velho discurso moralista. É, você mesmo que trai e usa desodorante spray. Não tenho mais força para esse tipo de coisa. O que me resta é sentar com a perna meio aberta e imaginar um monte de línguas grudadas em mim. Talvez assim eu consiga sorrir pela manhã ao olhar o maldito ovo frio que descansa no meu prato.

16 maio 2014

De olhos abertos



Ele nunca se lembrava dela. Só foi perceber isso em seu leito de morte, quando olhou nos olhos de sua filha com a outra mulher e a viu por completo. Os olhos castanhos e meio marejados que ela carregava para cima e para baixo na juventude nunca lhe disseram nada, mas agora que estava enfim próximo do fim, pareciam ter outro significado. Por alguns minutos ficou só olhando-os, enquanto a menina que vira crescer falava milhares de coisas sobre como ele aparentava estar bem e sobre o maldito prato de sopa que ele comera naquela tarde. Ele sabia que estava morrendo e por isso não deu atenção àquelas baboseiras. Por isso e por causa dos olhos dela que não saiam de sua cabeça. Pensou como seria se tivesse escutado as palavras dela naquela época e como ela estaria agora. Se ainda mantinha o mesmo peso, o mesmo cabelo sempre desgrenhado e a cara de cigana dos nossos tempos com a maquiagem meio borrada e vulgar. Tinha certeza que os olhos estariam os mesmos. Ou pelo menos era o que esperava. Fechou seus olhos e foi tomado pela escuridão de suas pálpebras. Não fazia bem, nem àquela altura da vida, sonhar com olhos de olhos abertos.

14 maio 2014

Meu Amor



Você foi quem eu mais amei. Hoje a noite, antes de fechar meus olhos e dormir, acabei aceitando isso. Por mais que pareça antigo, ultrapassado e doentio, eu não encontro outras palavras para isso que eu senti por você, que às vezes acho que ainda sinto. Se não sinto com a mesma intensidade, sinto de alguma maneira. Alguma maneira meio louca, estranha e sem explicação. Eu sei que toda vez que lembro da sua voz e do toque áspero do seu rosto que por poucas vezes toquei, ressuscito o fantasma do meu amor por você e de repente não existe mais ninguém. Nem nunca existiu. É como se todo o resto que passou por mim e todas carícias, todos os toques e declarações de amor não tivessem significado algum. Nesse meu quarto, no qual ainda tento dormir e superar a sua falta, só sobra espaço para você, meu amor. Não me julgue pela minha loucura depois de todos esses anos. Desisti de me controlar porque acho que os anos vão passar e as letras do seu nome não vão sair da minha língua. Meu idioma é você. E não há loucura que me cure.