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05 outubro 2014

Banda moderna


Nós estamos aqui, separados somente pelo ar úmido do verão que rodeia e envolve as extremidades dos nossos corpos. Passamos horas sem falar nada, um para o outro, só permanecemos deitados, de olhos abertos, lado a lado. Ouvimos as canções que tocam no rádio, enquanto o dia acaba no lado de fora da nossa casa. Você costuma sorrir para o teto e eu gosto de guardar esses momentos particulares, ainda que você nunca me diga por que sorri. Eu tenho a mania de ficar pensando mil coisas e analiso cada minuto que passo com você em tempo real, percebo quando você levanta a sobrancelha direita e quando pisca seus olhos mais vezes seguidas do que o normal. Uma banda ecoa em minha cabeça, uma dessas bandas modernas e alternativas, com pratos e violoncelos, e eu começo a imaginar como será quando ela tocar no nosso casamento. Você morde a parte interna da bochecha e faz aquelas coisas que você costuma fazer nessa altura do dia.

09 junho 2014

Não amo mais você


Acho que aconteceu mais ou menos assim. Um dia acordei e não te amava mais. Eu lembro porque no dia anterior achei engraçadinho quando você brincou com os meninos na varanda daqui de casa. Quando acordei, só não amava mais você. Mas a gente não fala esse tipo de coisa na hora do café da manhã. Talvez por isso tenha esperado por mais de treze anos pra te dizer. Eu não amo mais você e faz muito tempo que eu venho empurrando com a barriga. Estou repetindo várias vezes que é pra não sobrar dúvida. Nada mais em você me desperta um sentimento bom, nem perto daquilo que eu sentia quando a gente se casou. Não quer dizer que eu te odeie, espero que você entenda isso. Eu só não te amo mais. E tenho certeza que você sabia disso já. Só nunca tocou no assunto. Ninguém vive mais de treze anos com alguém que não te ama mais sem perceber nenhuma mudança. O que a gente faz agora eu não sei. A gente não deve ser o primeiro casal que passa por isso. 

24 setembro 2011

Sobre nós

Aquele buquê que apodrece desde o dia do nosso casamento libera esse cheiro de morte pelo nosso quarto. O mesmo quarto onde nos amamos tantas vezes e onde vimos morrer esse amor que cheirava a begônias animadas.

O que sobrou foram nossos corpos, um de frente para o outro, olhando-se em silêncio, esperando a solução e respirando aquele ar carregado das pétalas daquele buquê. Nós dois entregues a nossa própria sorte, ainda que nossa sorte seja só a sorte dos miseráveis.

Fechamos os olhos e esperamos passar, mesmo sabendo que aquilo nunca passaria. Que o cheiro que penetra nossos narizes inteiros vem decomposto no que foi e no que não é mais. O que sobra são nossas mãos descansando sobre nossos joelhos, rezas silenciosas para que o cheiro alterado seja um sinal para nós, que somos dois desgraçados.

28 agosto 2011

Barbie


A vida que pediu a Deus envolvia um apartamento em Laranjeiras, dois filhos com cabelos loiros ou com os olhos claros. Pedir que as crianças tivessem cabelos loiros e olhos claros seria muita pretensão. Mas que ao menos fosse um casal. E que o menino não vire gay. Que a menina também não vire lésbica. Nem piranha.

Um marido que chega lá pelas sete e percebe que tingiu o cabelo, que deixa a maleta no banquinho ao lado da porta e joga o blaser no sofá, aliviado. Que tenha no armário uma dúzia de vestidos que sejam responsáveis por ela ser confundida diariamente com Betty Draper.

Cheia de histórias pra contar no sábado à tarde, quando já não existirão programas de auditório com meninas de maiô que distraiam seu filho ao mesmo tempo que o empurram para a perdição da homossexualidade. Um passatempo ali, sentada no balanço comendo amêndoa fresca, enquanto os garotos correm e balançam suas madeixas da cor do sol.

04 março 2010

Cegueira

Eles vivam gritando “Aleluias” e “Misericórdias”, mesmo sem saber o que as palavras significavam. Se conheceram há três anos atrás, não ouviram um o nome do outro porque o pastor gritava.

Dalí eles foram comer um lanche, na frente da igreja mesmo. Louvar a Deus também dá fome. Comiam como dois animais e isso parecia tão romântico. Ali nascia um amor verdadeiro.

Sem beijos, sem toques. Pelo menos não era permitido na frente de terceiros. As pessoas na rua nem desconfiam, mas muita coisa aconteceu na visão. Talvez a visão seja o melhor de todos os sentidos. O que me põe em dúvida é a torta alemã da minha tia.

Ele fazia piadas onde os protagonistas eram Judas e o Inimigo. Eles adoravam a palavra inimigo. Melhor só quando inimigo era interlocutor para misericórdia. Desse jeito era perfeito. E faziam tudo isso sem beijos, nem com língua, nem sem língua. Nem na boca, nem no clitóris.

Beijos são expressões de carinho, eu costumava dizer. Façamos carinho. O mundo seria bem melhor se as pessoas fossem mais carinhosas. Eu sou o tipo de pessoa que se pode chamar de carinhosa. Ah, eu sou. Eles não eram.

Três anos se passaram e muitos filmes foram vistos. Outras coisas também foram vistas, imagino eu. Ele começou a trabalhar, ela passou no vestibular. Ela fez 18 anos e ele também. Ambos sem saber o gosto que habita a boca do outro. Ambos sem nunca terem brincado de médico no terraço de casa.

Mas a vontade surgia. Todo mundo, mais cedo ou mais tarde, acaba por despertar sua vocação para medicina. Meninos normalmente fazem ginecologia e meninas administração. Salvo casos de homossexualismo.

Mas Deus, O Todo Poderoso, não permite que as pessoas se toquem antes de trocar alianças. Assim dizia em algum livro, versículo e capítulo da Bíblia. Deus admirava quem dava importância à visão. O tato é coisa do inimigo, bem como o paladar. Maldita torta alemã da minha tia. Está explicado porque fiquei assim.

Para Deus, a solução seria o casamento. Com fotografias em 3D, que é a moda da estação. O vestido poderia ter uma faixa flúor, afinal, estamos falando de moda. Você pode gritar palavras que não fazem sentido, mas deve se manter antenado na moda.

Eles viveriam com 1300 reais, pois o resto do orçamento seria completado pelos toques tão sonhados e esperados. Toques fazem bem para o fígado e para as articulações, como dizia um primo-tio. Toque-se. Você acabará com câncer ou osteoporose. Não espere o casamento e toque-se. E eu dou muita importância pra minha saúde, sabe?

Antes de entrar no altar, ela foi questionada. Nem lembro a pergunta, só lembro que ela estava linda, intocável e bronzeada. Ela, segurando a faixa flúor que dava suporte ao seu seio, respondeu: Eu tenho vontade de acordar com ele, dormir com ele, passar o fim de semana inteiro com ele e, mais que tudo, tocá-lo.

Ninguém quer morrer por não exercitar as articulações. Dizem que é uma morte feia.