Já passei por vários homens estranhos. Uns estavam de shorts e outros conheci no metrô. Todos passaram por mim como um temporal que passa por uma cidade despreparada e faz estrago. É claro que eles nem sabem o estrago que causam, eles não tem consciência, mas todos sem exceção acabaram um pouco comigo.
Os que falavam de cultura, mas agiam como trogloditas
fizeram aflorar minha estupidez. Diante de tanta sabedoria dos maiores
pensadores das gerações anteriores, eu tentava destacar meu batom vermelho em
vão. Eles só querem lençóis sujos e um prato de comida para curarem a solidão
da inteligência.
Os casados foram um caso a parte. Tantos porta-retratos
quebrados de famílias inteiras. Ainda lembro-me de quando transei olhando as
fotos daquelas crianças em seus primeiros dias na escola. Depois serviam café
preto nas cozinhas limpas como um hospital e agradeciam pelo favor do gozo.
Presidentes, cabeleireiros, mestrandos e homens de
banheiros. Todos arrancaram um pedaço do meu corpo e levaram pra onde talvez eu
nunca mais os encontre. Até aí tudo bem pra mim. O pior é ter que lidar com
mais. Saber que os próximos homens estranhos estão nascendo, sendo amamentados
e fazendo cursos de inglês pra depois virem na minha direção.

