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13 junho 2014

Homens estranhos


Já passei por vários homens estranhos. Uns estavam de shorts e outros conheci no metrô. Todos passaram por mim como um temporal que passa por uma cidade despreparada e faz estrago. É claro que eles nem sabem o estrago que causam, eles não tem consciência, mas todos sem exceção acabaram um pouco comigo.

Os que falavam de cultura, mas agiam como trogloditas fizeram aflorar minha estupidez. Diante de tanta sabedoria dos maiores pensadores das gerações anteriores, eu tentava destacar meu batom vermelho em vão. Eles só querem lençóis sujos e um prato de comida para curarem a solidão da inteligência.

Os casados foram um caso a parte. Tantos porta-retratos quebrados de famílias inteiras. Ainda lembro-me de quando transei olhando as fotos daquelas crianças em seus primeiros dias na escola. Depois serviam café preto nas cozinhas limpas como um hospital e agradeciam pelo favor do gozo.

Presidentes, cabeleireiros, mestrandos e homens de banheiros. Todos arrancaram um pedaço do meu corpo e levaram pra onde talvez eu nunca mais os encontre. Até aí tudo bem pra mim. O pior é ter que lidar com mais. Saber que os próximos homens estranhos estão nascendo, sendo amamentados e fazendo cursos de inglês pra depois virem na minha direção.

27 setembro 2010

Na folha de fichário


Ela guardou o revólver na mochila da Tinker Bell, no bolso grande porque não coube no bolso pequeno. O revólver era maior do que ela previra. Mais pesado também, conferiu ao segurá-lo pela primeira vez, imaginando o que faria ao namorado com aquele pedaço de metal.

Ao lado do revólver, guardou a folha de fichário com o plano. Tudo era bem rudimentar na superfície do papel, escrito com lápis 2B e, ocasionalmente, apagado com uma borracha velha que manchava todo o plano.

Ela iria chegar na casa dele, entrar pela cozinha e parar ali um instante para tirar o revólver da mochila. Ele estaria no banho, porque ela chegaria lá por volta das nove. Às nove, ele sempre está no banho. Talvez se masturbando, ela sempre imaginou. Ele com certeza é o tipo de homem que se masturba diariamente, ela amaldiçoou, sabendo que ela não era o tipo de mulher que se masturba com freqüência.

Iria lentamente até o banheiro, já ouvindo os possíveis gemidos de prazer do rapaz ou os primeiros versos de Bad Romance. Não bateria na porta, porque sabe que sempre está aberta durante o seu banho, e entraria.

A névoa formada devido à água quente ajudaria ela a deixar o revólver em posição de tiro. Ele notaria, através do vidro fumê embaçado, a entrada dela e abriria a porta do box, nu e talvez excitado.

Ela atiraria na barriga e se deliciaria com a imagem do rapaz sentindo o queimar do tiro, cortando-lhe a carne e penetrando seus órgãos. Se deliciaria com o sangue escorrendo pelo corpo dele, misturando-se à água do banho, descendo-lhe pelas pernas.

Daria um segundo tiro, na testa, e veria o rapaz cair de dor no chão molhado, sob o chuveiro ligado, olhando-a sem entender, talvez agora até sem pensar. Morto. Com os olhos abertos como um fantasma, o chuveiro lhe caindo água abundantemente, as pernas cruzadas involuntariamente.

Voltaria à cozinha, guardaria o revólver novamente na mochila e tiraria as luvas de látex, daquelas de lavar louça. Seria o fim daquela relação. Entraria no carro e, indignada, tiraria o pedaço de namorado que sobrara em seu ombro com o tiro na cabeça. Jogaria do lado de fora da janela e partiria para Aruba.