16 maio 2014
De olhos abertos
21 setembro 2011
Sobre você
31 agosto 2011
Eu e minha amiga
29 julho 2011
Menina da vida
26 julho 2011
Ideal
21 outubro 2010
A meia-calça
24 setembro 2010
Coisa de menininha
19 maio 2010
Socialista

Ajudar os pobres era sua função de vida. Ela os pegava na rua, levava para seu apartamento, dava-lhes postas de salmão e copos de vinho. Bancava os programas a dois, a três e em comunidade. Bancava a erva que fumavam juntos em ocasiões especiais.
O que pedia em troca era um pouco de atenção, uns beijos na boca, submissão, carinho e algumas noites de sexo. Não os tratava como superior, ela gostava de se sentir igual, afinal vivia numa nação socialista.
O que pedia em troca era um bom cabelo crespo, mantido a base de falta de banho e, se houvesse banho, falta de shampoo. Não falava o que queria com todas as letras, só deixava a entender quando servia o almoço do dia.
Levar meninos carentes para casa era sua função. Não via graça nos que conseguiam pagar sua própria passagem de ônibus, ainda que não gostasse de ser assim. As tentativas de levar meninos auto-suficientes para casa foram todas fracassadas.
Mendigos carregavam nos olhos um pouco do que é genuíno e carioca. Mendigos eram a alma das ruas por onde passava e a voz dos discursos políticos que ela ouvia. Mendigos declaravam poemas que ela não conhecia e isso já bastava. Isso e o bom cabelo de dread grudado num couro cabeludo de pele escura.
06 maio 2010
Lá em cima

Deu um frio na barriga nas vésperas da operação. Ela deitou pra dormir naquela noite, sabendo que no dia seguinte sua vida seria bem menor. Veria tudo três centímetros mais perto do seu rosto e isso incluía os olhos do seu namorado. Rolando na cama, não se aguentando com a ansiedade, imaginava como seria o mundo na manhã seguinte, sem pensar nas semanas que passaria no hospital se recuperando da operação. Foram longos anos de espera e longas horas de discussão pra convencer as pessoas da importância daquilo. Mas de longo não queria mais falar nada. Longo agora só os cabelos e o salto do sapato, ainda que não contasse com os anos que passaria obrigada a usar aquela pantufa fofa da Betty Boop. Sim, anos, até na hora de tomar Martini com azeitona no balcão daquele famoso bar. Gostava de imaginar, que não alcançaria o balcão e que suas pernas ficariam girando no ar, sentada no banco. Seria até mais fácil trocar de namorado, aumentariam as oportunidades de emprego. Ninguém se intimidaria com o tamanho dela. Seu sonho de ver os pelos das axilas dos marmanjos suados no metrô seria enfim realizado na primeira segunda-feira que pudesse pegar metrô em pé. É impossível sentar no metrô. Mas quando sentasse, teria que tomar cuidado pra não encostar os pés nos joelhos de ninguém. Eles não alcançariam o chão. Fechou os olhos e vislumbrou-se no dia seguinte – realizada. Na mão direita segurava aqueles benditos três centímetros, sem saber se eram os joelhos ou qualquer outra parte do seu corpo agora humano. É assim que se deixa de ser azul.
02 maio 2010
Ração humana

Todo santo dia (e os não-santos também) ele acordava cedo só pra colocar comida pra ela. Enquanto ela penteava o cabelo, até ele ficar daquele jeito perfeito, ele enchia o pires de ração. Cachorras são as melhores amigas do homem, mesmo aquelas que falam e gemem num gemido rouco. Filhotes. Mas você tem de dar uma boa alimentação. Encher de carinho e partir pros finalmentes só depois de tudo isso. Ainda que a noite lhe pareça longa, de tantas preliminares, no fim das contas você vai se sentir melhor por não ter desistido. Por ter feito tudo que o sua cachorrinha queria, por tê-la ouvido latir. Horas a fio. Por ter acordado tão cedo porque ela estava com fome. Cachorras também sentem fome e têm vontades que às vezes são insaciáveis. Depende da gente saber lidar com isso. Enquanto isso, continuamos fazendo o que temos de fazer. Enchemos o pires, quantas vezes forem necessárias no dia. À noite também. Algumas acordam no meio da noite famintas, de carinho ou de ração. Um bom sinal é quando viram o pires. Um bom sinal é se o pires está vazio. Você tem que entender. Pode ser dia santo ou não. Sua cachorra vai pedir por um pouco de ração. Elas só sabem comer isso. Dizem que faz bem pra saúde. Que a Carolina Dieckmann se alimenta disso. E sua cachorra também.
25 abril 2010
Friendly

A amiga daquele menino que é gay faria de tudo pra saber que ele era gay. Ou pelo menos saber da maneira certa. Aquelas conversas do tipo “preciso-te-contar-uma-coisa”, “você-não-pode-contar-pra-ninguém”.
O primeiro passo era falar bem dos homossexuais, mesmo aqueles estranhos que usavam cabelo com balaiagem ou aqueles que usavam calça xadrez. Fashionismo era coisa de gay. Fashionismo e Sex And The City. Daria certo falar sobre Sarah Jessica Parker.
Ele continuava lá, beijando meninos em noitadas escusas pelo centro da cidade, tão heterossexual quanto sempre fora. Não cantava Lady GaGa, nem pronunciava a palavra heterossexual. Só gays fazem isso.
O segundo passo foi andar com lésbicas, daquelas femininas, maquiadas, do tipo novela das oito. Aquelas modernas que ficam com meninas, meninos e com plantas carnívoras. Ela evitava as plantas carnívoras. Esse seria o último passo, mas ainda estava longe de lá.
Depois partiu pro desabafo. Falar de suas experiências. Aquelas imaginárias tipo sexo oral na vizinha de baixo, beijo triplo na última rave, mesmo aquela que ela nunca pisara. O amigo gay não demonstrava terror, nem estranheza. Era bem daquele tipo de hetero que não fala hetero e que é amigo de gays.
Mas isso é o que ela queria ser – a amiga do gay – ela pensava. Não é porque ele não canta Bad Romance, não gosta de comida japonesa e curte futebol que ele é heterossexual. Afinal de contas, eram amigos. Ela sabia o que ele era. E ninguém assegurava àquela menina determinada a garantia daquela teoria.
Ele, por outro lado, continuava irredutível. Ainda que algumas pessoas já soubessem. Ainda que ele falasse com elas com certa naturalidade sobre o assunto. Mas com ela o assunto era outro. Com ela, ele não sabia quem era Samantha ou Miranda.
Nas noitadas, ela abusava do álcool pra tomar coragem e levar o plano adiante. Beijava meninas, era a perfeita lésbica feminina, que se maquia e sai com todo tipo de gente – menos as plantas carnívoras. Ele só estava esperando que ela perguntasse.
02 abril 2010
Sobrepeso

Era o quarto tratamento para emagrecer que ela fazia. Esse era à base de puro otimismo. Ela acordava, sorria na frente do espelho, aceitava os desaforos do chefe no trabalho, do trocador do ônibus e ia dormir com o sentimento de que o dia seguinte seria melhor. Era a receita que diziam ser mágica e infalível para emagrecer em torno de sete quilos em um mês. Sete quilos era o suficiente para entrar naquele vestido que seu amigo gay dizia que ela arrasava, anos atrás. Era o vestido daquela noite, quando ela beijou cinco pessoas, mas acabou sozinha comendo um cachorro-quente. Todo cachorro-quente tem sua parcela de culpa em sete quilos engordados. O prazo para o tratamento era de um mês. Ela já exercitava seu otimismo. Mesmo sem o tratamento acabar, já ia para as boates com o sentimento de que conseguiria descolar um beijo na boca de algum rapaz, nem que ele usasse roupa falsificada e morasse na Tijuca. Se não fosse um beijo, teria que ser uma passada de mão em sua bunda. Nesse caso, fazia questão de alguém da Barra ou da Zona Sul. Ipanema pra lá, perto da praia, no máximo duas quadras. Bebia bebida quente, que diziam ser menos calórica e sorria com o objetivo de aumentar seu otimismo e ajudar no emagrecimento. Lera a respeito em algumas revistas interessantes. Parecia que a Penélope Cruz usara essa dieta pra fazer Volver. O que se notava era uma falsa alegria, dessas que toda mulher magra exibe. Mas o vestido continuava pequeno demais para o seu quadril. Ela odiava seu quadril. O vestido era preto. Tamanho 36. Só quem veste 36 consegue ser feliz, disse uma vez certa pessoa sábia. Uma mulher que veste mais que isso há de ter problemas. Seja de relacionamento com homens ou roupas, ou de colesterol – para casos mais sérios. Não era o seu caso. No fim de um mês, toda aquela falsa verdade do otimismo foi por água abaixo. Ela continuava uma gordinha atarracada, com um sorriso assustador no rosto e piadas sobre qualquer tragédia. Daquelas gordinhas que vêem o lado bom de tudo. Até do manequim 44. As benditas gordinhas que se sentem bem gordinhas. Aquelas que traumatizam as que acreditam em dietas à base de otimismo e anorexia nervosa. Assim nasce o bom-humor. Que seja estranhamente feliz quem veste mais que 36.
26 março 2010
Aquela menina
18 março 2010
Onde falam várias línguas

Todas as vezes que subiam as escadas que levavam ao terraço, era para a mesma brincadeira. A culpa era da sua mãe, que não deixava que eles se fechassem no quarto com ar-condicionado. Nunca se soube se era medo de a conta de luz vir alta, ou medo de vir uma gravidez.
O terraço era o ambiente mais arejado da casa e eles tinham calor. Ela e o namorado transavam sempre por ali, encostados nas paredes, perto da churrasqueira ou ao lado da piscina de 2000 litros desmontada. Foi ali também que ela percebeu pela primeira vez os defeitos do namorado.
Por mais que ele se empenhasse, por mais que ele treinasse com a boca enfiada em um copo com água, ele nunca conseguia fazer os movimentos certos com a língua. Encostada na pele dela, a língua dele não sabia fazer nada.
Desde então eles passaram por um período de adaptação. Ela tentou se acostumar com o fato de ele não saber chupá-la, afinal ela o amava. Quando viu que era em vão tanta tentativa, partiu para o plano B, ensiná-lo. Ele tinha problemas de aprendizado, não tinha chegado ao primeiro ano do Ensino Médio. Isso é coisa que só se aprende lá pelos meados do segundo.
Desiludida, frustrada e decepcionada com o futuro reservado para ela, encontrou consolo nos braços de um contato do MSN. Sobre ele não sei nada além de que tinha o dobro de sua idade e que sabia chupar bem.
O próximo estava começando a faculdade, falava alemão e também sabia fazer o que seu namorado não sabia. E os dois ou três seguintes. Todos tinham em comum o fato de saberem o exato e sincronizado movimento da língua, enquanto se encurvavam na altura da virilha dela.
Ela gemia de prazer com outros enquanto o namorado comia Doritos deitado no sofá da sala, vendo clipes dos anos 80. Logo depois subiam as escadas para o terraço e continuavam fazendo o que sempre faziam. Ele gozava, ela se vestia e sua mãe nunca os surpreendia. Ela lamentava isso.
Mas terminar com ele seria ainda pior do que a falta de um sexo oral bem feito com a pessoa amada. Afinal, ela continuava recebendo um sexo oral de desconhecidos que faziam rodízio. Tornou-se poliglota.
15 março 2010
BestFriendsForever

A que mora do lado da minha casa é filha de mãe solteira, criada pela babá que transava no sofá da sala vendo o programa do Gugu todo domingo. A mãe tinha uma profissão suspeita.
A outra é filha de militar, todo mundo soube quando elas começaram a ser amigas. Mais ou menos quando tinham 13 anos e esta começou a freqüentar a vila todos os dias. Agora ela namora com meu primo, de tanto que se envolveu com a vizinhança. Meu primo malha, mas não pensa.
De vez em quando eu ouço os gemidos dela e do meu primo, de tardinha em dias de semana. Eles transam loucamente e ele faz questão de contar com detalhes pra quem mora no fim da rua e não tem o privilégio de ouvir os sons.
A menina que mora do meu lado adora ele, porque ele é bobo e faz sua amiga feliz. Elas vão ao shopping, ao cinema e fazem noitadas juntas. Exceto as noites em que meu primo não se deixa ser enganado tão facilmente. Nessas ocasiões elas ficam na casa de uma ou de outra, conversando com rapazes sem rosto pelo chat da UOL.
Sempre fingem serem meninos homossexuais e ficam apreciando outros gays mostrarem seus pênis na webcam, num ato desesperado por arranjar um pouco de prazer em palavras de sacanagem. Usam sempre a foto do meu primo. Aquela que ele está sem camisa, de sunga, molhado, segurando a mangueira em jato numa mão e o pescoço do seu melhor amigo na outra.
O melhor amigo dele e ele são super grudados. Quase tanto quanto nós éramos antes de crescermos. Quase tanto quanto a menina que mora do lado da minha casa e a filha do militar. As duas jovenzinhas saudáveis que insistem em conhecer e zombar de estranhas bolas na tela do notebook.
Entre um MACHO_ATV e um boladãodavn23cm, elas tomam doses de vodka Absolut com o que tiver na geladeira. De uma ou de outra. Às vezes era Laranja Caseira, outras Pepsi sem gás ou Lemon Light.
Quando o álcool já era sentido de longe e elas ficavam com aquele cheiro na pele suada, uma parecia atrair a outra. Coincidentemente, era quando a garrafa já estava vazia. Elas se beijavam na boca, até tirarem suas roupas. Enquanto isso, meu primo malhava os tríceps.
Quando já tinham tirado suas roupas, beijavam o resto do corpo. Como quem quer tomar o resto de Absolut Vanilla que transpira dos poros bronzeados. Elas iam à praia semana sim e semana não. E nessas ocasiões flertavam com os coroas acompanhados enquanto se besuntavam de óleos bronzeadores de cenoura e de bronze.
Coroas adoram meninas flambando. Elas adoravam ser adoradas. E entre uma adoração e outra, namoravam escondidas. Principalmente quando já tinham bebido o suficiente pra fingirem que não se lembravam. Mas elas lembravam daquele dia, era final do Campeonato Carioca e o meu primo não deixou elas irem pro Leblon comemorar a vitória.







