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16 maio 2014

De olhos abertos



Ele nunca se lembrava dela. Só foi perceber isso em seu leito de morte, quando olhou nos olhos de sua filha com a outra mulher e a viu por completo. Os olhos castanhos e meio marejados que ela carregava para cima e para baixo na juventude nunca lhe disseram nada, mas agora que estava enfim próximo do fim, pareciam ter outro significado. Por alguns minutos ficou só olhando-os, enquanto a menina que vira crescer falava milhares de coisas sobre como ele aparentava estar bem e sobre o maldito prato de sopa que ele comera naquela tarde. Ele sabia que estava morrendo e por isso não deu atenção àquelas baboseiras. Por isso e por causa dos olhos dela que não saiam de sua cabeça. Pensou como seria se tivesse escutado as palavras dela naquela época e como ela estaria agora. Se ainda mantinha o mesmo peso, o mesmo cabelo sempre desgrenhado e a cara de cigana dos nossos tempos com a maquiagem meio borrada e vulgar. Tinha certeza que os olhos estariam os mesmos. Ou pelo menos era o que esperava. Fechou seus olhos e foi tomado pela escuridão de suas pálpebras. Não fazia bem, nem àquela altura da vida, sonhar com olhos de olhos abertos.

21 setembro 2011

Sobre você


Quem me segura pelo braço quando andamos em terrenos estranhos, pedras sem formatos definidos e areias movediças. Os pés que me apóiam por toda a nossa casa, os dois mil andares pelos quais gosto de andar de madrugada. O sorriso pequeno de quando pensamos a mesma coisa. A mão que encaracola os fios do meu cabelo claro, queimado pelo sol de agosto passado. A ponta da língua que tem as melhores palavras, nas melhores horas, nos melhores tons. Quem diz que me ama só porque eu peço, só por causa da minha insegurança infantil. Quem me espera sair de casa e sorrir, me entregando, só porque entende o fato de eu nem sempre me entregar. A boca dos meus últimos beijos e dos melhores. Os textos mais criativos, meus e seus. Quem se cala quando tudo o que eu preciso é falar. Quem me escuta. Que senta na cadeira de balanço e me admira até as oito da manhã seguinte, porque naquele dia fizemos aniversário de oito meses de namoro, ou nome qualquer que queiram dar a isso. Os dedos que me excitam quase todas as noites, até naquelas que chove granizo. Os selos guardados e colados nas nossas fotografias, aquele que sorri ao meu lado só por estar ao meu lado.

31 agosto 2011

Eu e minha amiga


Eu e ela saímos toda noite só com a passagem de ida. Quando temos a de ida e de volta, pegamos um taxi para ir. Normalmente quando decidimos ir àquela festa mais elegante. Trocamos vestidos porque ambas nos vestimos como piranhas, mas isso é só porque é tendência da estação. Ainda ano passado usamos calça de alfaitaria por causa daquela artista negra que talvez seja da Grã Bretanha e sua foto naquele editorial.

E quando não conseguimos alguém que nos pague a entrada pelo simples prazer de serem enganados por nós, porque vamos enganá-los, vamos fazê-los acreditar que vamos pra cama com ele quando não vamos, quando isso não acontece, nos beijamos na fila.

Passamos, cada uma com uma cerveja roubada da loja de conveniência da esquina, e encaramos todos na fila. Quando chegamos a ponta, o mais próximo possível da entrada, nos beijamos. Ela sempre coloca a mão na minha bunda. A cidade está cheia de homens tarados por bunda de mulher sendo apertada por outra mulher. Eu confesso: tenho a melhor bunda.

29 julho 2011

Menina da vida

Não adianta agora dizer que ela não presta, se tudo o que ela fez foi seguir você. Agora você vai querer sentar de lado na poltrona rosa, olhar com esse seu olhar e dizer que não queria ela assim.

Se a menina hoje tem seus vazios entre o peito e as costas, tem a ver com o que você vivia dizendo pra ela, quando criança. Que nada como uma mulher que sabe se valorizar, que tem os pés no chão e a periquita longe dos vilões. E enchia os olhos de pânico quando dizia “vilões”.

Vai querer lamentar agora, enquanto tudo o que a menina tem a fazer é passar o rímel nos olhos e borrá-lo um pouco para lhe dar a aparência de uma cigana do nosso século. Ela parte andando, rebolando o pouco que tem, e não te olha por ter vergonha.

Talvez se você não fizesse assim, isso de se colocar desse jeito e abrir os olhos cheio de terror, talvez a menina aceitasse quem é. Vai que ela um dia desiste de maldizer teu nome toda vez que vira a esquina e dá de cara com um quebra-molas. Vai que, com o tempo, isso tabém passe.

26 julho 2011

Ideal


Que tal acordar e encontrar o mundo ideal? Onde todos os gases são ideais. Onde as pessoas entendem essa piada ideal. É bem mais fácil calcular qualquer coisa para gases ideais. E a gente, que calcula cada passo, pensa muito nisso. Num mundo ideal, ele não teria ido embora, eu não estaria sozinha, com preguiça de fazer noitada e com medo de não entrar naquele vestido caríssimo que eu comprei há dois meses atrás, só por comprar, e ainda não usei. Num mundo ideal eu calcularia a variação de entropia só para gases ideais, não existiria energia de Gibbs. Eu estaria casada e de vez em quando pularia a cerca com aquele professor dos sonhos. Ele estaria desesperado, querendo que eu largasse tudo pra ficar com ele, porque ele já tinha largado. Num mundo ideal, eu faria faculdade nas horas vagas, entre um blog e outro que leio, entre uma pessoa e outra que entrevisto para o meu próximo livro.

21 outubro 2010

A meia-calça


Encobriu o rasgo de sua meia-calça com o resto de saia que lhe sobrava nas pernas finas. Não comia há quase uma semana. Exibia a aparência de uma galinha magra e fraca. Dessas pelas quais não se dá nada.

Ninguém dava nada por ela. Ela sabia disso desde que nascera, ou desde que decidira nascer. Seu pai não parava de lhe dizer que ela não servia para nada. Nem para preparar a gemada que ele devia tomar toda manhã, como mandara aquele orixá. Aquele mesmo, que ele dizia não acreditar.

Agora ela era um pouco do que já fora. Uma versão distorcida da menina imprestável que sempre foi. Nascida numa família perturbada pelo fantasma da falta de dinheiro e o da perna quebrada. A perna do mesmo pai que lhe dizia aquelas misérias.

Olhou-se no espelho e constatou o lábio bem desenhado. Nem parecia um batom engastado pelo tempo e pelas chupadas que andava dando por aí. Como ela, o batom disfarçava.

Vermelho em sua essência. Transparente para os sensíveis. A menina da meia-calça rasgada estava pronta para mais uma. Sobre o salto alto do inverno retrasado. As roupas usadas e puídas. O termômetro na esquina marcava 41°, desde que decidira sair de perto da praia.

Logo seria noite, agora ela devia sorrir. Sorrir e rezar por um futuro incerto. Desses desenhados em paredes esgotadas. Não havia espaço para uma pobre alma. Não haveria espaço para ela.

Esqueceu o rasgo e seguiu caminho. Pronta para aquela que seria mais uma das tardes da sua vida. Antes que anoitecesse, teria de descobrir quem era e se perder novamente. Tão certo quanto a chuva que cairia no meio da semana.

24 setembro 2010

Coisa de menininha


Querido diário,

Hoje descobri que encontrei um príncipe encantado. Ele não usava corrente de prata nem tinha o raciocínio atrofiado pelo abuso na musculação, diferente de todos os outros rapazes que encontro por aí. Ouvia MPB e estava se preparando para fazer vestibular esse ano. Ele, sim, é homem para apresentar aos meus pais. Encontrei, veja só, no chat da UOL. Conversamos por uns cinco minutos sob nossos nicknames safadinhos e depois trocamos MSN. Ao me adicionar, ele viu minha foto, perguntou minhas medidas e caiu. Desde então vivo com a preocupação em minha cabeça. O que será que acontecera ao meu príncipe encantado? Como será que anda sua conexão desde então? Hoje fazem cinco semanas que espero ansiosamente para ele ficar online no MSN, mas nada acontece. Toda vez que lembro da intensidade de nossa conversa tenho mais certeza que se trata de um amor encantado digno de conto de fadas. Faço preces para que o reencontre o quanto antes.

Espero sonhar com ele hoje à noite.

S2 Até a próxima S2

19 maio 2010

Socialista


Ajudar os pobres era sua função de vida. Ela os pegava na rua, levava para seu apartamento, dava-lhes postas de salmão e copos de vinho. Bancava os programas a dois, a três e em comunidade. Bancava a erva que fumavam juntos em ocasiões especiais.

O que pedia em troca era um pouco de atenção, uns beijos na boca, submissão, carinho e algumas noites de sexo. Não os tratava como superior, ela gostava de se sentir igual, afinal vivia numa nação socialista.

O que pedia em troca era um bom cabelo crespo, mantido a base de falta de banho e, se houvesse banho, falta de shampoo. Não falava o que queria com todas as letras, só deixava a entender quando servia o almoço do dia.

Levar meninos carentes para casa era sua função. Não via graça nos que conseguiam pagar sua própria passagem de ônibus, ainda que não gostasse de ser assim. As tentativas de levar meninos auto-suficientes para casa foram todas fracassadas.

Mendigos carregavam nos olhos um pouco do que é genuíno e carioca. Mendigos eram a alma das ruas por onde passava e a voz dos discursos políticos que ela ouvia. Mendigos declaravam poemas que ela não conhecia e isso já bastava. Isso e o bom cabelo de dread grudado num couro cabeludo de pele escura.

06 maio 2010

Lá em cima


Deu um frio na barriga nas vésperas da operação. Ela deitou pra dormir naquela noite, sabendo que no dia seguinte sua vida seria bem menor. Veria tudo três centímetros mais perto do seu rosto e isso incluía os olhos do seu namorado. Rolando na cama, não se aguentando com a ansiedade, imaginava como seria o mundo na manhã seguinte, sem pensar nas semanas que passaria no hospital se recuperando da operação. Foram longos anos de espera e longas horas de discussão pra convencer as pessoas da importância daquilo. Mas de longo não queria mais falar nada. Longo agora só os cabelos e o salto do sapato, ainda que não contasse com os anos que passaria obrigada a usar aquela pantufa fofa da Betty Boop. Sim, anos, até na hora de tomar Martini com azeitona no balcão daquele famoso bar. Gostava de imaginar, que não alcançaria o balcão e que suas pernas ficariam girando no ar, sentada no banco. Seria até mais fácil trocar de namorado, aumentariam as oportunidades de emprego. Ninguém se intimidaria com o tamanho dela. Seu sonho de ver os pelos das axilas dos marmanjos suados no metrô seria enfim realizado na primeira segunda-feira que pudesse pegar metrô em pé. É impossível sentar no metrô. Mas quando sentasse, teria que tomar cuidado pra não encostar os pés nos joelhos de ninguém. Eles não alcançariam o chão. Fechou os olhos e vislumbrou-se no dia seguinte – realizada. Na mão direita segurava aqueles benditos três centímetros, sem saber se eram os joelhos ou qualquer outra parte do seu corpo agora humano. É assim que se deixa de ser azul.

02 maio 2010

Ração humana


Todo santo dia (e os não-santos também) ele acordava cedo só pra colocar comida pra ela. Enquanto ela penteava o cabelo, até ele ficar daquele jeito perfeito, ele enchia o pires de ração. Cachorras são as melhores amigas do homem, mesmo aquelas que falam e gemem num gemido rouco. Filhotes. Mas você tem de dar uma boa alimentação. Encher de carinho e partir pros finalmentes só depois de tudo isso. Ainda que a noite lhe pareça longa, de tantas preliminares, no fim das contas você vai se sentir melhor por não ter desistido. Por ter feito tudo que o sua cachorrinha queria, por tê-la ouvido latir. Horas a fio. Por ter acordado tão cedo porque ela estava com fome. Cachorras também sentem fome e têm vontades que às vezes são insaciáveis. Depende da gente saber lidar com isso. Enquanto isso, continuamos fazendo o que temos de fazer. Enchemos o pires, quantas vezes forem necessárias no dia. À noite também. Algumas acordam no meio da noite famintas, de carinho ou de ração. Um bom sinal é quando viram o pires. Um bom sinal é se o pires está vazio. Você tem que entender. Pode ser dia santo ou não. Sua cachorra vai pedir por um pouco de ração. Elas só sabem comer isso. Dizem que faz bem pra saúde. Que a Carolina Dieckmann se alimenta disso. E sua cachorra também.

25 abril 2010

Friendly


A amiga daquele menino que é gay faria de tudo pra saber que ele era gay. Ou pelo menos saber da maneira certa. Aquelas conversas do tipo “preciso-te-contar-uma-coisa”, “você-não-pode-contar-pra-ninguém”.

O primeiro passo era falar bem dos homossexuais, mesmo aqueles estranhos que usavam cabelo com balaiagem ou aqueles que usavam calça xadrez. Fashionismo era coisa de gay. Fashionismo e Sex And The City. Daria certo falar sobre Sarah Jessica Parker.

Ele continuava lá, beijando meninos em noitadas escusas pelo centro da cidade, tão heterossexual quanto sempre fora. Não cantava Lady GaGa, nem pronunciava a palavra heterossexual. Só gays fazem isso.

O segundo passo foi andar com lésbicas, daquelas femininas, maquiadas, do tipo novela das oito. Aquelas modernas que ficam com meninas, meninos e com plantas carnívoras. Ela evitava as plantas carnívoras. Esse seria o último passo, mas ainda estava longe de lá.

Depois partiu pro desabafo. Falar de suas experiências. Aquelas imaginárias tipo sexo oral na vizinha de baixo, beijo triplo na última rave, mesmo aquela que ela nunca pisara. O amigo gay não demonstrava terror, nem estranheza. Era bem daquele tipo de hetero que não fala hetero e que é amigo de gays.

Mas isso é o que ela queria ser – a amiga do gay – ela pensava. Não é porque ele não canta Bad Romance, não gosta de comida japonesa e curte futebol que ele é heterossexual. Afinal de contas, eram amigos. Ela sabia o que ele era. E ninguém assegurava àquela menina determinada a garantia daquela teoria.

Ele, por outro lado, continuava irredutível. Ainda que algumas pessoas já soubessem. Ainda que ele falasse com elas com certa naturalidade sobre o assunto. Mas com ela o assunto era outro. Com ela, ele não sabia quem era Samantha ou Miranda.

Nas noitadas, ela abusava do álcool pra tomar coragem e levar o plano adiante. Beijava meninas, era a perfeita lésbica feminina, que se maquia e sai com todo tipo de gente – menos as plantas carnívoras. Ele só estava esperando que ela perguntasse.

02 abril 2010

Sobrepeso


Era o quarto tratamento para emagrecer que ela fazia. Esse era à base de puro otimismo. Ela acordava, sorria na frente do espelho, aceitava os desaforos do chefe no trabalho, do trocador do ônibus e ia dormir com o sentimento de que o dia seguinte seria melhor. Era a receita que diziam ser mágica e infalível para emagrecer em torno de sete quilos em um mês. Sete quilos era o suficiente para entrar naquele vestido que seu amigo gay dizia que ela arrasava, anos atrás. Era o vestido daquela noite, quando ela beijou cinco pessoas, mas acabou sozinha comendo um cachorro-quente. Todo cachorro-quente tem sua parcela de culpa em sete quilos engordados. O prazo para o tratamento era de um mês. Ela já exercitava seu otimismo. Mesmo sem o tratamento acabar, já ia para as boates com o sentimento de que conseguiria descolar um beijo na boca de algum rapaz, nem que ele usasse roupa falsificada e morasse na Tijuca. Se não fosse um beijo, teria que ser uma passada de mão em sua bunda. Nesse caso, fazia questão de alguém da Barra ou da Zona Sul. Ipanema pra lá, perto da praia, no máximo duas quadras. Bebia bebida quente, que diziam ser menos calórica e sorria com o objetivo de aumentar seu otimismo e ajudar no emagrecimento. Lera a respeito em algumas revistas interessantes. Parecia que a Penélope Cruz usara essa dieta pra fazer Volver. O que se notava era uma falsa alegria, dessas que toda mulher magra exibe. Mas o vestido continuava pequeno demais para o seu quadril. Ela odiava seu quadril. O vestido era preto. Tamanho 36. Só quem veste 36 consegue ser feliz, disse uma vez certa pessoa sábia. Uma mulher que veste mais que isso há de ter problemas. Seja de relacionamento com homens ou roupas, ou de colesterol – para casos mais sérios. Não era o seu caso. No fim de um mês, toda aquela falsa verdade do otimismo foi por água abaixo. Ela continuava uma gordinha atarracada, com um sorriso assustador no rosto e piadas sobre qualquer tragédia. Daquelas gordinhas que vêem o lado bom de tudo. Até do manequim 44. As benditas gordinhas que se sentem bem gordinhas. Aquelas que traumatizam as que acreditam em dietas à base de otimismo e anorexia nervosa. Assim nasce o bom-humor. Que seja estranhamente feliz quem veste mais que 36.

26 março 2010

Aquela menina

Foi com ela que dei meu primeiro beijo. Foi com ela que fiz meu primeiro desabafo. Foi pra ela que dediquei meus primeiro choros de romântico que sou. Que fui. Ela que ainda era a mesma. Que mantinha o mesmo cabelo e os mesmos cachos no cabelo. Podia traçar o caminho que seus cachos faziam. Olhos fechados. Quem sabe se até me giraram antes? Repetidas vezes pra eu ficar tonto e desorientado. Lá estava ela. A mesma doçura no olhar, como se sustentasse aqueles cinco anos passados escondidos numa gaveta secreta. Ela me esperava. Tremia da cabeça aos pés, mas a vontade era inerente ao ato. Despia-se involuntariamente, enquanto eu, de longe, observava encantado o balé dos seus braços. Eles também não haviam envelhecido. Meus braços a rodearam e a protegeram. Minhas pernas foram a base para o seu tremor. Não era medo. Era excitação. Foi como reviver os anos de criança, sentíamo-nos ainda como crianças. Estávamos fazendo amor. Ao fim, foi um misto de satisfação, medo e alívio. Havíamos nos guardado um para o outro, nos dado um ao outro. Na hora certa, local e maneira. Deitados continuamos, na cama sem dossel. Também não escutamos juras. Aquela poderia ser nossa última vez. Estávamos preparados, estávamos resignados. Sábio quem disse que deve ser especial.


18 março 2010

Onde falam várias línguas


Todas as vezes que subiam as escadas que levavam ao terraço, era para a mesma brincadeira. A culpa era da sua mãe, que não deixava que eles se fechassem no quarto com ar-condicionado. Nunca se soube se era medo de a conta de luz vir alta, ou medo de vir uma gravidez.

O terraço era o ambiente mais arejado da casa e eles tinham calor. Ela e o namorado transavam sempre por ali, encostados nas paredes, perto da churrasqueira ou ao lado da piscina de 2000 litros desmontada. Foi ali também que ela percebeu pela primeira vez os defeitos do namorado.

Por mais que ele se empenhasse, por mais que ele treinasse com a boca enfiada em um copo com água, ele nunca conseguia fazer os movimentos certos com a língua. Encostada na pele dela, a língua dele não sabia fazer nada.

Desde então eles passaram por um período de adaptação. Ela tentou se acostumar com o fato de ele não saber chupá-la, afinal ela o amava. Quando viu que era em vão tanta tentativa, partiu para o plano B, ensiná-lo. Ele tinha problemas de aprendizado, não tinha chegado ao primeiro ano do Ensino Médio. Isso é coisa que só se aprende lá pelos meados do segundo.

Desiludida, frustrada e decepcionada com o futuro reservado para ela, encontrou consolo nos braços de um contato do MSN. Sobre ele não sei nada além de que tinha o dobro de sua idade e que sabia chupar bem.

O próximo estava começando a faculdade, falava alemão e também sabia fazer o que seu namorado não sabia. E os dois ou três seguintes. Todos tinham em comum o fato de saberem o exato e sincronizado movimento da língua, enquanto se encurvavam na altura da virilha dela.

Ela gemia de prazer com outros enquanto o namorado comia Doritos deitado no sofá da sala, vendo clipes dos anos 80. Logo depois subiam as escadas para o terraço e continuavam fazendo o que sempre faziam. Ele gozava, ela se vestia e sua mãe nunca os surpreendia. Ela lamentava isso.

Mas terminar com ele seria ainda pior do que a falta de um sexo oral bem feito com a pessoa amada. Afinal, ela continuava recebendo um sexo oral de desconhecidos que faziam rodízio. Tornou-se poliglota.

15 março 2010

BestFriendsForever


Não brincaram de boneca quando eram pequenas. Elas nem se conheciam.

A que mora do lado da minha casa é filha de mãe solteira, criada pela babá que transava no sofá da sala vendo o programa do Gugu todo domingo. A mãe tinha uma profissão suspeita.

A outra é filha de militar, todo mundo soube quando elas começaram a ser amigas. Mais ou menos quando tinham 13 anos e esta começou a freqüentar a vila todos os dias. Agora ela namora com meu primo, de tanto que se envolveu com a vizinhança. Meu primo malha, mas não pensa.

De vez em quando eu ouço os gemidos dela e do meu primo, de tardinha em dias de semana. Eles transam loucamente e ele faz questão de contar com detalhes pra quem mora no fim da rua e não tem o privilégio de ouvir os sons.

A menina que mora do meu lado adora ele, porque ele é bobo e faz sua amiga feliz. Elas vão ao shopping, ao cinema e fazem noitadas juntas. Exceto as noites em que meu primo não se deixa ser enganado tão facilmente. Nessas ocasiões elas ficam na casa de uma ou de outra, conversando com rapazes sem rosto pelo chat da UOL.

Sempre fingem serem meninos homossexuais e ficam apreciando outros gays mostrarem seus pênis na webcam, num ato desesperado por arranjar um pouco de prazer em palavras de sacanagem. Usam sempre a foto do meu primo. Aquela que ele está sem camisa, de sunga, molhado, segurando a mangueira em jato numa mão e o pescoço do seu melhor amigo na outra.

O melhor amigo dele e ele são super grudados. Quase tanto quanto nós éramos antes de crescermos. Quase tanto quanto a menina que mora do lado da minha casa e a filha do militar. As duas jovenzinhas saudáveis que insistem em conhecer e zombar de estranhas bolas na tela do notebook.

Entre um MACHO_ATV e um boladãodavn23cm, elas tomam doses de vodka Absolut com o que tiver na geladeira. De uma ou de outra. Às vezes era Laranja Caseira, outras Pepsi sem gás ou Lemon Light.

Quando o álcool já era sentido de longe e elas ficavam com aquele cheiro na pele suada, uma parecia atrair a outra. Coincidentemente, era quando a garrafa já estava vazia. Elas se beijavam na boca, até tirarem suas roupas. Enquanto isso, meu primo malhava os tríceps.

Quando já tinham tirado suas roupas, beijavam o resto do corpo. Como quem quer tomar o resto de Absolut Vanilla que transpira dos poros bronzeados. Elas iam à praia semana sim e semana não. E nessas ocasiões flertavam com os coroas acompanhados enquanto se besuntavam de óleos bronzeadores de cenoura e de bronze.

Coroas adoram meninas flambando. Elas adoravam ser adoradas. E entre uma adoração e outra, namoravam escondidas. Principalmente quando já tinham bebido o suficiente pra fingirem que não se lembravam. Mas elas lembravam daquele dia, era final do Campeonato Carioca e o meu primo não deixou elas irem pro Leblon comemorar a vitória.