- Às vezes, arquivo coisas na cabeça e esqueço o assunto. Dói menos arquivar as coisas do que conviver com elas. Me desculpe.
- Então, aquela noite é uma lembrança triste?
- Não, eu não me referia àquela noite, em particular. É melhor esquecer certas coisas.
- Lembro mais daquela noite do que de anos que vivi.
- Eu também.
- Sério?
- Bem, pelo menos era o que eu pensava. (risos) Talvez eu tenha arquivado o assunto porque o enterro da minha avó foi no dia em que íamos nos encontrar.
- Foi um dia difícil pra mim, mas deve ter sido pior para você.
- Foi estranho. Eu me lembro de ver o corpo dela no caixão, das mãos lindas e quentes com as quais ela me segurava. Mas nada no caixão era do jeito que eu me lembrava dela. O calor humano se fora. Depois, eu chorei. Não sabia se eu estava chorando porque não a veria mais ou se era porque não o veria. Sinto muito, perdoe o desabafo. Estou meio deprimida essa semana.
- Por quê?
- Não sei. Nada demais. Talvez por ler seu livro. Não, foi porque eu pensei na esperança que senti naquele ano e, desde então, tudo ficou... Sei lá. Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.
- “Lembranças são ótimas se a gente não tem que lidar com o passado.” Posso pintar isso no pára-choque do meu carro? Se escrever um livro sobre a nossa noite seria um bom título.
- Seria um livro diferente.
- É, sem cena de sexo.
- Mas sabe do que mais? Já que nos encontramos de novo, podemos mudar a lembrança daquele 16 de dezembro. Não tem mais o final triste por não nos encontrarmos de novo.
- Certo. Acho que a lembrança só termina quando a gente morre.

