Ainda não fiz quarenta mas
pareço um velho. Daqueles que se lembram de quando não existiam as prestações
da casa e do carro. Que sentam na beira da praia e passam horas com um
desconhecido contando as aventuras dos vinte anos em tantas noites que essa cidade
proporciona. Hoje em dia passo a noite sentado vendo os meninos andando pra lá
e pra cá atrás de sexo segurando um drink colorido.
Ainda não fiz quarenta mas
tenho um monte de dor nas pernas e incontinência urinária. Algumas vezes fica
impossível não passar vergonha na frente da possível transa da noite. Na
maioria das vezes, nem tenho disposição pra procurar a tal transa e volto de
mãos abanando sozinho dizendo que o que eu queria mesmo quando deixei minha
casa era uma boa noite de bebedeira com os meus amigos e só.
Ainda nem fiz 40 mas não fico
mais bêbado. Não importa o que eu bote pra dentro. Gasto toda a grana que eu
poderia gastar naquele mês em uma noite e fumo todo cigarro que a venda dali
debaixo oferece mas acordo com os olhos de quem dormiu o sono dos justos.
Não que eu não tenha dormido.
Ah, eu durmo. Acho que não fico sem dormir há mais de três anos. É quase
religioso. Mas é que dá uma vergonha quando me olho no espelho e vejo toda a
minha juventude descendo pelas rugas que o tempo vai trazer pro meu pescoço.
