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27 junho 2014

Pessoas rasas


Tem gente que não é tão profunda. Se é, não é profunda o suficiente pra encher um texto, um romance ou uma música barata. Às vezes acho que eu sou desses, que no fundo não tem nada dentro de mim. Que, por mais que eu floreie aqui, eu sei que eu termino na altura do joelho. Demoro a aceitar essa realidade. Insisto que sou especial. Escrevo meia dúzia de palavras. No fim do dia, não existe nada que me satisfaça mais do que me ver escrito. Mas quando eu me olho no espelho e me vejo vivo, dá até uma tristeza, daquelas tristezas meio frustradas. Ou é o meu reflexo ou é o mês de maio que está chegando. Sempre fico meio triste quando chega maio e nem é porque eu me lembro de ninguém. Porque eu não me lembro mesmo. E isso é coisa de gente rasa. Nada me faz lembrar nada. Nem o mês de maio chegando. Nada me desperta tristeza nem alegria. Eu continuo olhando os dias passarem, sorrio e fecho os olhos na hora de dormir. E quando eu sonho, se naquela noite eu tiver esse privilégio, quero sonhar com esse monte de sentimentos que não tenho, com essas histórias que eu conto uma atrás da outra. Queria sonhar com o rosto que eu não lembro, mas que fosse aquele rosto que dá calafrio, sabe? Esses calafrios que começam no estômago. Queria sonhar com isso.

25 junho 2014

Lista


Hoje de manhã acordei com vontade de comer tangerina e de listar os homens com quem transei antes de me casar. Foram tantos entre os vinte e os quarenta anos. Aqueles foram anos agitados. Eu fico pensando na melhor maneira de organizá-los, qual seria o melhor sistema. Talvez devesse arrumar em ordem cronológica, mas já nem sei se lembro de quando foram todos eles, antes ou depois da primeira vez que fui demitida. Pensei também que poderia separá-los pela cor do cabelo, seguido da cor dos olhos e depois pelo cheiro (do mais cheiroso para o menos), mas aí cheguei à conclusão de que detalhes não são coisas que a gente se apega quando tem vinte e poucos anos e três sexos casuais por semana. Pensei também em listá-los seguindo o sistema métrico, mas aí me lembrei das meninas que peguei quando estava naquela fase estranha que ouvia 4 Non Blondes. Não saberia onde encaixá-las.


Girei a caneta para um lado e para o outro enquanto pensava na melhor maneira de organizar todas as minhas transas nos anos em que eu não parava em casa, mas nenhuma maneira parecia ser certa. Talvez eu nem devesse fazer lista nenhuma. Talvez eu nem devesse usar a palavra transas. O Office insiste em colocar um sublinhado verde embaixo dela e querer substituir por relações amorosas como se isso não passasse de erro gramatical. Quem dera fosse só gramática. Quem dera.

23 junho 2014

Antes de dormir


Tem dias que eu tenho pensamentos estranhos pouco antes de dormir. Eu planejo a subida até o penúltimo andar do prédio em que trabalho e depois me jogo de uma das varandas. Por algum motivo sempre estou de camisa amarela.

Depois eu fico imaginando as pessoas que mais amo, sofrendo silenciosamente no meu funeral, aquelas pessoas para quem hoje em dia me pego mendigando afeto. Então me lembro de que na minha família ninguém até hoje teve funeral. O que faria de mim o primeiro?


Algumas vezes peço para Deus afastar de mim esses pensamentos. Digo para mim mesmo que tenho que pensar positivo, que uma hora essa fase passa. Só não sei direito se vou estar vivo quando essa fase passar.

20 junho 2014

Ainda não fiz 40


Ainda não fiz quarenta mas pareço um velho. Daqueles que se lembram de quando não existiam as prestações da casa e do carro. Que sentam na beira da praia e passam horas com um desconhecido contando as aventuras dos vinte anos em tantas noites que essa cidade proporciona. Hoje em dia passo a noite sentado vendo os meninos andando pra lá e pra cá atrás de sexo segurando um drink colorido.

Ainda não fiz quarenta mas tenho um monte de dor nas pernas e incontinência urinária. Algumas vezes fica impossível não passar vergonha na frente da possível transa da noite. Na maioria das vezes, nem tenho disposição pra procurar a tal transa e volto de mãos abanando sozinho dizendo que o que eu queria mesmo quando deixei minha casa era uma boa noite de bebedeira com os meus amigos e só.

Ainda nem fiz 40 mas não fico mais bêbado. Não importa o que eu bote pra dentro. Gasto toda a grana que eu poderia gastar naquele mês em uma noite e fumo todo cigarro que a venda dali debaixo oferece mas acordo com os olhos de quem dormiu o sono dos justos.

Não que eu não tenha dormido. Ah, eu durmo. Acho que não fico sem dormir há mais de três anos. É quase religioso. Mas é que dá uma vergonha quando me olho no espelho e vejo toda a minha juventude descendo pelas rugas que o tempo vai trazer pro meu pescoço. 

18 junho 2014

Quem eu era


Hoje nem sem mais quem eu era. Quando eu pego pra ler o que escrevia há uns anos atrás, leio outra pessoa. Qualquer um menos eu. É engraçado ver como você era há uns cinco ou quatro anos atrás. Daquele lá eu invejo a pureza, as palavras saíam tão reais, tão genuínas. É estranho se ver de fora no futuro. Às vezes dá até vergonha do tanto de coisa que disse e que poderia ter ficado não dita. E o estilo então? Cheio de cafonices e parágrafos. Quando paro hoje para pensar nem sei pra que é que servem aqueles tantos parágrafos. Eu me abria sem pudor nenhum, sem vaidade. Tão louco ler aquele cara sem amor-próprio. Na verdade, nem sei se estou falando de amor-próprio mesmo. No fim das contas pode ser qualquer coisa. Eu só acho que não precisava falar de todo mundo que amei e invejei e com quem quis dormir. Tem coisa que não precisa falar, né? Dá um sentimento estranho ler esses textos nos quais eu falava coisas tão íntimas de pessoas que nem sentiam o mesmo que eu. Sei lá. Fico pensando se era melhor ser desse jeito e colocar pra fora tudo o que eu tenho aqui dentro numa de se esvaziar de tempos em tempos, ou se era melhor ter ficado calado que com o tempo passava. Eu olho aquele menino apaixonado que falava de si sem pudor nenhum e nem entendo de onde ele vem. Parece tão distante, tão romântico.

16 junho 2014

Boa noite


Você está aqui, diante de mim, depois de todos esses anos em que não nos encontramos, em que não ouvimos um a voz do outro. Eu sei que você tem alguém ao seu lado. Eu sei que você talvez nem se lembre de mim. Foram tantas coisas que aconteceram entre o dia em que não nos despedimos e hoje. Eu não sei o que dizer ao passar do seu lado. Minhas mãos estão suadas, minhas pernas tremem, meu coração bate acelerado. Seguro a taça com um pouco mais de força do que seguraria normalmente e vou andando na sua direção. Enquanto ando mesmo sem sentir meus pés, penso no tom de voz que quero usar. Quero parecer um corpo sem tensão alguma, como se te ver me deixasse feliz, mas com uma felicidade banal. Nada que me faça perder a noite pensando no seu sorriso. Nada que faça eu te dizer para viver uma outra vida comigo, ainda que isso implique em você largar sua família. Eu aceitaria sua família de qualquer maneira, você não teria de abrir mão de nada. Viveríamos escondidos, viajaríamos para o interior um fim de semana por mês, nos encontraríamos no lado de lá da cidade. E quando estivermos andando de mãos dadas por uma praça qualquer e encontrarmos um conhecido seu, nos afastaremos e fingiremos que não nos conhecemos. Meia hora depois, nos encontramos e nos amamos. Talvez isso fosse a coisa certa a dizer quando eu alcançasse você do outro lado do salão. Você e sua companhia. Dou mais um gole no vinho pra ver se tomo coragem, mas percebo que só o vinho não é suficiente. Estou cada vez mais perto de você. Tanto que já sinto seu cheiro no meio desse monte de cheiros ao nosso redor. Ouço sua voz falando alto alguma coisa com alguma pessoa que nunca vi. Ouço sua risada. Meus olhos ficam cheios de lágrimas, meu estômago revira e meu coração parece revirar junto. Nunca me senti assim. Parece que vou morrer ao te ver. E quando o pensamento da morte passa pela minha cabeça, aí seus olhos me acham. Agora parece que não resisto, justo quando você sorri para mim como quem diz “Quanto tempo!”. No meio do desespero, do medo, do nervosismo e da dor de estômago aguda, esboço um sorriso no meu rosto. Tenho certeza que não é meu melhor sorriso, tenho certeza que não pareceu tão sensual quanto eu gostaria que fosse. Meu primeiro sorriso para você em anos, a primeira vez que nos vemos. Quando chego tão perto que posso te tocar, não me seguro e te toco, desses toques que parecem ocasionais e que não despertam atenção alguma. Um toque de leve no cotovelo e, ao sentir sua pele, parece que todos os meus poros que vinham adormecidos se acendem. Sinto o meu coração ficar quente e a minha pele brilhar. Meus olhos sorriem mais do que minha boca. Da sua boca vem o som que há tanto tempo espero ouvir.


13 junho 2014

Homens estranhos


Já passei por vários homens estranhos. Uns estavam de shorts e outros conheci no metrô. Todos passaram por mim como um temporal que passa por uma cidade despreparada e faz estrago. É claro que eles nem sabem o estrago que causam, eles não tem consciência, mas todos sem exceção acabaram um pouco comigo.

Os que falavam de cultura, mas agiam como trogloditas fizeram aflorar minha estupidez. Diante de tanta sabedoria dos maiores pensadores das gerações anteriores, eu tentava destacar meu batom vermelho em vão. Eles só querem lençóis sujos e um prato de comida para curarem a solidão da inteligência.

Os casados foram um caso a parte. Tantos porta-retratos quebrados de famílias inteiras. Ainda lembro-me de quando transei olhando as fotos daquelas crianças em seus primeiros dias na escola. Depois serviam café preto nas cozinhas limpas como um hospital e agradeciam pelo favor do gozo.

Presidentes, cabeleireiros, mestrandos e homens de banheiros. Todos arrancaram um pedaço do meu corpo e levaram pra onde talvez eu nunca mais os encontre. Até aí tudo bem pra mim. O pior é ter que lidar com mais. Saber que os próximos homens estranhos estão nascendo, sendo amamentados e fazendo cursos de inglês pra depois virem na minha direção.

11 junho 2014

Precisa-se de amigos


Precisa-se de amigos que queiram mesmo se divertir. Pessoas antenadas, com bom-gosto musical e para cinema. Saber conversar coisas inteligentes em mesas de bar é essencial. Beber cerveja é um diferencial quase essencial. Não fazemos diferenciação por idade, sexo ou sabor favorito de Fanta. O importante, deixamos claro, é que o candidato queira mesmo se divertir. Disposto a fazer companhia em situações típicas de ínicio e fim de mês. Importante estar disposto também a arriscar um programa quando o mesmo parece furada. Otimismo, humor e séries de televisão são vistos com bons olhos. Assuntos relacionados a esporte e sertanejo universitário, ou não, não são necessários. Pessoas sem vícios em Foursquare, leve vício em Facebook e Instagram e paixão sem fim por Twitter.

Se você costuma saber sempre para onde ir e quais são os lugares mais bem frequentados onde se cobre menos de 10 reais por uma cerveja, fazer contato.

09 junho 2014

Não amo mais você


Acho que aconteceu mais ou menos assim. Um dia acordei e não te amava mais. Eu lembro porque no dia anterior achei engraçadinho quando você brincou com os meninos na varanda daqui de casa. Quando acordei, só não amava mais você. Mas a gente não fala esse tipo de coisa na hora do café da manhã. Talvez por isso tenha esperado por mais de treze anos pra te dizer. Eu não amo mais você e faz muito tempo que eu venho empurrando com a barriga. Estou repetindo várias vezes que é pra não sobrar dúvida. Nada mais em você me desperta um sentimento bom, nem perto daquilo que eu sentia quando a gente se casou. Não quer dizer que eu te odeie, espero que você entenda isso. Eu só não te amo mais. E tenho certeza que você sabia disso já. Só nunca tocou no assunto. Ninguém vive mais de treze anos com alguém que não te ama mais sem perceber nenhuma mudança. O que a gente faz agora eu não sei. A gente não deve ser o primeiro casal que passa por isso. 

06 junho 2014

Dostoiévski


Eu tinha tanto pela frente. Tenho certeza disso toda vez que penso no assunto. Ainda que a minha vida tenha sido um monte de momentos de solidão e sexo desvairado, gosto de acreditar que eu tinha o potencial para ser aquilo que sempre achei que ia ser. Não quer dizer que eu seria o que a minha mãe sonhou. Pelo menos não completamente, mas também não é essa figura amarga e carrancuda que me olha no espelho do corredor. Me sinto cansada e negativa como uma personagem de Dostoiévski. Não era assim que eu imaginei que seria. Fiz planos de almoços felizes, da casa cheia de crianças e a gente bebendo vinho até bem velhinho, fumando nossos cigarros e falando de poesia. Talvez esse sonho seja só de um outro escritor. Talvez seja tão negativo quanto Dostoiévski. O que sei é que quando olho pra essa realidade estranha em que vivo, sinto a impotência que via nos olhos da minha mãe e das suas amigas. Fico imaginando se seus olhos hoje em dia também têm essa impotência, se você se sente incompleto porque não está ao meu lado.