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30 novembro 2014

Maria


Maria era menina para casar. Sempre soube disso, desde que a vi, correndo no mato, debaixo do sol de setembro, que é lindo aqui na nossa cidade. E de vez em quando ela virava para trás e me olhava. Soltava um sorriso, desses sorrisos de boca e de olho. O cabelo dela balançava, parecia ter vida própria quando Maria corria. Ela costumava andar descalça e ainda assim parecia limpa. Cheirava a baunilha e a verão, qual fosse a estação. Decidi naquele dia que Maria seria minha. Ela não falava alto, não encostava o cotovelo na mesa na hora da janta, não roía as unhas das mãos. Maria não dava conversinha nem sorria aquele sorriso dela para qualquer um. Maria parecia que era só minha. Se comportava nas festas, não tinha Tinder, nem ex-namorado Maria tinha. Ela tinha uma voz doce e cantarolava a canção da abertura da novela toda vez que tomava banho. Aqui fora, no nosso quarto, ainda hoje me encanto com a voz da Maria debaixo do chuveiro. Tão afinada é Maria.

25 junho 2014

Lista


Hoje de manhã acordei com vontade de comer tangerina e de listar os homens com quem transei antes de me casar. Foram tantos entre os vinte e os quarenta anos. Aqueles foram anos agitados. Eu fico pensando na melhor maneira de organizá-los, qual seria o melhor sistema. Talvez devesse arrumar em ordem cronológica, mas já nem sei se lembro de quando foram todos eles, antes ou depois da primeira vez que fui demitida. Pensei também que poderia separá-los pela cor do cabelo, seguido da cor dos olhos e depois pelo cheiro (do mais cheiroso para o menos), mas aí cheguei à conclusão de que detalhes não são coisas que a gente se apega quando tem vinte e poucos anos e três sexos casuais por semana. Pensei também em listá-los seguindo o sistema métrico, mas aí me lembrei das meninas que peguei quando estava naquela fase estranha que ouvia 4 Non Blondes. Não saberia onde encaixá-las.


Girei a caneta para um lado e para o outro enquanto pensava na melhor maneira de organizar todas as minhas transas nos anos em que eu não parava em casa, mas nenhuma maneira parecia ser certa. Talvez eu nem devesse fazer lista nenhuma. Talvez eu nem devesse usar a palavra transas. O Office insiste em colocar um sublinhado verde embaixo dela e querer substituir por relações amorosas como se isso não passasse de erro gramatical. Quem dera fosse só gramática. Quem dera.

30 maio 2014

Cabelo branco


Há uns anos você anda tão envelhecida. Todo mundo diz que você está linda e que parece que você brilha no escuro. Eu não vejo nada disso. O que eu vejo quando olho pro seu queixo fino e a sua boca meio murcha é o meu próprio queixo fino e a minha própria boca pelancuda. Odeio isso em você. Odeio ver um fio de cabelo branco na escova de cabelo do nosso banheiro. E quando você vira pra mim daquele jeito meigo então? Às vezes me dá vontade de matar você e eu nem sei por que. Talvez seja porque eu sei que a gente vai morrer ou só porque eu não consigo imaginar que todos aqueles nossos anos e declarações se transformaram nessa colcha velha e rasgada que a gente carrega nos nossos ombros como dois inválidos. Olhar pra você pela manhã me dá essa sensação, de que nós estamos mortos antes mesmo de estarmos. E quando você sorri é a hora em que eu culpo você por estarmos assim. Algumas vezes tenho certeza que se não tivesse me amarrado a você, não estaria sentindo tão de perto o cheiro da morte. E aí vem todo mundo dizer que você está linda e segura e brilhante. Gostaria que você brilhasse para mim de vez em quando. Ou isso ou que a catarata que cresce nos meus olhos sumisse de vez

26 maio 2014

Da maneira que parecia certa


Eu te amei da maneira que pude. Do jeito que me ensinaram na televisão a amar. Eu sorria nas horas adequadas e me calava sempre que era solicitado. Às vezes me calava até sem que ninguém pedisse, mas era exatamente o que esperavam de mim. Todas as vezes que você precisou de uma companhia eu estava lá ao seu lado. Eu te ouvia e fazia cachos com o seu cabelo.

Gosto de acreditar que você também me amou como pôde. Da maneira que parecia certa. Essa coisa de fazer carinho na minha testa e dizer que me amava. Você fingia que tinha ciúme e corria atrás de mim pra onde quer que eu fosse. Todos os nossos vizinhos comentavam a tragédia que era a nossa casa.

Eu nunca vou saber se éramos suficientes um para o outro. Só sei que toda vez que eu penso em você e nos anos que passei ao seu lado, penso também nos anos que não passei ao lado do meu amor. Escolhi dar uma chance pra gente e acho que você fez o mesmo esse tempo todo. Pelo menos gosto de pensar assim.

Pode ser que eu fosse tudo o que você sempre sonhou e que esse jeito de você me amar fosse afinal o jeito certo. Só sei que pra mim não era suficiente. Que sempre fez falta o perfume que você não tinha, a voz que você não falava, as suas piadas que não me faziam rir.

17 julho 2011

Dor


Tá doendo aqui. Te ver tão perto de mim e, ao mesmo tempo, tão longe... tá doendo aqui. Como dor de dente estranha e constantemente maldita, tá doendo aqui. Ver teu cabelo, sentir teu cheiro e tudo isso não ser pra mim... tá doendo aqui. Como irritação nasal que me faz enlouquecer, tá doendo aqui.

Eu só me pergunto por que você faz assim. Causar tanta dor logo em mim? Logo em mim, que só te quero bem, que não sei sentir dor alguma. Só sei que tá doendo em mim. Continuamente, tanto que qualquer um ao meu redor também sente. Do fio de cabelo à cárie do dente. Tá doendo.