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04 janeiro 2015

Coragem


Sozinha é que eu não fico. Disso eu tenho certeza. Não é porque você está dizendo que precisa ir embora que eu tenho que ficar aqui. Vou andar por outros lugares, conhecer outros ares, aproveitar a vida, como eles dirão mais frequentemente daqui a uns dez ou vinte anos. Só não admito ficar só. Não sendo jovem, não com tanta beleza, não com tanta vida dentro de mim.

E se em algum momento eu ficar mal, se eu repensar minha vida, se eu achar que devia ter te implorado hoje para ficar, me prenda, me bata, me mate. Não me deixe duvidar de mim, não me deixe rever minhas escolhas, não me deixe me arrepender. Se eu gritar por ajuda, se eu chorar, nem assim estenda a sua mão. Se eu chegar a esse ponto, aí sim mereço a solidão.

Hoje não. Hoje eu mereço a luz dos postes da cidade, mereço o barulho, mereço o caos que tem ao redor de quem tem coragem de vivê-lo. Sua ida talvez seja a coragem que me faltava para olhar a luz sem medo de me cegar. Agora, que estou prestes a tirar meus óculos escuros, não tenho medo de nada. Porque eu sei que não mereço nada de ruim.

21 dezembro 2014

Futuro


Das noites que nos divertiremos, guardo o seu sorriso. Você vive animada com a possibilidade de toda uma vida de amor. Sim, nós envelheceremos e não nos esqueceremos do que é sentir esse amor. Nem teremos vergonha, como nossos contemporâneos. Nós amaremos a vida, a música que toca no carro, aquelas noites.

O vento que bate no seu cabelo é o mesmo que me leva para um futuro, quando andaremos de mãos dadas por qualquer lugar que seja. Andaremos ainda que tenhamos sede. Andaremos porque é o que fazemos de melhor. Sonharemos com o futuro e com a felicidade verdadeira guardada nele.

Você já não fica melancólica com qualquer voz áspera que toca no meu Philco e eu estou sempre ao seu lado para te colocar uma flor atrás da orelha, como venho fazendo desde muitos anos atrás. E tudo vai valer a pena porque você vai sorrir naquelas noites. Esses sorrisos alimentam até hoje os meus sonhos, quando me sinto cansado, mas nunca para te acompanhar.

14 dezembro 2014

A suicida


Às vezes parece que tudo dá errado para mim. É nessas horas eu sinto vontade de morrer. Não é morrer por morrer, como as crianças de doze anos sentem vontade. Quero morrer para não morrer de cansaço. Tem gente que não tem sorte; que, por mais que tente, simplesmente não nasceu para o sucesso e talvez eu seja uma dessas pessoas. E, para agilizar todo o processo de tenta/decepciona/morre, quero morrer agora. Só por isso. Por isso e por causa da falta que você me faz. Me pergunto quem é você, onde você está e o que está vestindo, como no filme que eu acabei de assistir, mas nem tenho tanto interesse assim em saber. O que me interessa agora é morrer. Morrer e acabar com a falta de paz que a tua falta me faz.

07 dezembro 2014

Sardas


Eu gosto quando você diz que as sardas que você carrega nos seus ombros aparecem todas as vezes que você tem vontade de confessar o seu amor a uma certa pessoa. E você fala assim "certa pessoa" como quem tem vergonha de amar demais ou de todas as sardas que você carrega nos ombros. E eu passo horas imaginando que essa "certa pessoa" sou eu, mesmo que você nunca me diga quem é. Não importa o que eu prometa, você nunca me diz. Aí eu acho que você faz de propósito. Que essa é a sua maneira de dizer que me ama e que sente vontade de me dizer, mesmo que você nunca me diga. Pode parecer loucura, mas é assim que é. 

E toda vez que eu olho você e suas sardas nos ombros, eu sinto como se lesse meu nome. Como se elas formassem um coração. Todas essas coisas clichês que casais apaixonados escrevem em árvores ou em papéis de carta. Mas você prefere escrever na pele, mesmo que seja involuntário. E só quem pode ler sou eu. Talvez porque eu não esteja no meu melhor estado mental. Talvez porque fosse tudo o que eu internamente desejasse. 

30 novembro 2014

Maria


Maria era menina para casar. Sempre soube disso, desde que a vi, correndo no mato, debaixo do sol de setembro, que é lindo aqui na nossa cidade. E de vez em quando ela virava para trás e me olhava. Soltava um sorriso, desses sorrisos de boca e de olho. O cabelo dela balançava, parecia ter vida própria quando Maria corria. Ela costumava andar descalça e ainda assim parecia limpa. Cheirava a baunilha e a verão, qual fosse a estação. Decidi naquele dia que Maria seria minha. Ela não falava alto, não encostava o cotovelo na mesa na hora da janta, não roía as unhas das mãos. Maria não dava conversinha nem sorria aquele sorriso dela para qualquer um. Maria parecia que era só minha. Se comportava nas festas, não tinha Tinder, nem ex-namorado Maria tinha. Ela tinha uma voz doce e cantarolava a canção da abertura da novela toda vez que tomava banho. Aqui fora, no nosso quarto, ainda hoje me encanto com a voz da Maria debaixo do chuveiro. Tão afinada é Maria.

23 novembro 2014

Daquela dança


Você se lembra do dia que a gente dançou aquela música? Você dizia que aquela música era nossa e eu não entendia. Mesmo assim, sempre que ouvia, me lembrava da tarde que a gente dançou junto. Você parecia tão leve, tão infantil, tão doce. Seu cabelo também cheirava a doce. Eu lembro porque eu queria morder ele todo, colocar cada fio na minha boca e sentir seu gosto como quem come algodão doce. Você se lembra do toque da minha mão, guiando você? Eu me lembro do toque da sua. Sua mão estava meio úmida e você me dizia que estava assim porque era dezembro. A gente dançou e eu acho que durou só cinco minutos. Mesmo assim, só me lembro daquela dança, quando ouço aquela música. Eu lembro que o dia estava agitado e quente; que você usava aquela blusinha de alça e o cabelo amarrado. Eu lembro que eu queria te rodar mais vezes, que é para o vento que se formava ao nosso redor nos refrescasse um pouco. Mas você se mantinha estática, como quem espera uma sinfonia de cordas começar. E você me olhava.

16 novembro 2014

Silicone


Eu achei que a culpa era minha por você não me olhar. Eu era muito magra, muita branca, muito cheia de espinhas e de não-me-toques. Eu, então, me maquiei toda, passei perfume e coloquei enchimento no sutiã. Sorri para você como sorriem as mocinhas dos filmes que a gente assiste no verão, e fiz aquele olhar de peixe morto que elas fazem e que deixam os homens assim tão encantados. Treinei durante meses na frente do espelho. Imitava os trejeitos das estrelas e fazia nascer em mim esse brilho que parece que é só das outras. Você não olhava para mim. Se olhava, se distraía depois de alguns segundos. Eu aumentava o decote, diminuía a saia e regulava meu sex appeal, mas você só queria elas. Eu desfilava com outros homens e me entregava para aqueles que não chegavam aos seus pés, mas você nem me percebia. Eu engordei, emagreci, coloquei silicone. Pintei o cabelo, alisei o cabelo, escovei o cabelo. Mudei meus gestos, mudei meu emprego e o meu tom de voz. Mas você só se dirigia a mim como a menina sem sal, com tranças compridas que um dia eu fui.

09 novembro 2014

Bicicleta


Fui eu que ensinei você a andar de bicicleta e a beijar na boca. Nada mais justo que você se apaixonasse mesmo por mim. Mas eu tenho tantos sonhos. Ainda hão de existir tantas bocas a quem eu possa ensinar a me beijar. Tantas bicicletas para montar. Eu vou andar por todas as ruas, olhando em todas as esquinas, procurando o mesmo olhar de curiosidade e surpresa que você me olha quando eu toco na sua pele com alguma novidade. Talvez quando eu me cansar de todas essas bocas e todas essas bicicletas, talvez aí eu volte para você.

Eu não sei como, exatamente, você vai estar; não sei nem se você vai me aceitar. Mas o que eu quero mesmo é que seja a sua vez de me surpreender e me ensinar coisas. Te deixo seguir adiante agora, para depois conhecer de novo você.

02 novembro 2014

Eu quero


Eu quero ter a sorte de encontrar o amor que meus pais encontraram. Eu vejo os dois sentados na mesa de jantar, bebendo chá verde e de camomila, olhando um para o outro. Eles trocam olhares apaixonados. Eu sei, porque é o mesmo olhar que eu vejo na TV, na novela das seis.

Eu quero acordar de manhã com a sua voz meio distante, cantarolando Roberto Carlos, na calçada da minha casa. Os vizinhos todos saindo na janela para ver a paixão que você declara por mim. Eu vou sorrir da sacada do meu quarto e mandar beijos para você, enquanto você dedilha as cordas do seu ukulele.

Eu quero morder um pandeló e sentir o metal da aliança, enquanto você ri, sentado na minha frente, saboreando toda a perspicácia e romantismo na hora de me pedir em casamento. Eu aceito, você me beija. Nós dois saímos pela noite, de mãos dadas, andando pelas ruas da cidade a exibir o brilho nos meus dedos.