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11 janeiro 2015

Goodbye


Eu te amo, mas talvez eu ame mais outro alguém. Por isso me despeço de você. Se nada der certo nos encontramos daqui a uns dias. Voltamos a nos encontrar. Voltamos a ser um do outro. Mas por enquanto, preciso me despedir.

Eu te amo, mas há tanto a ser vivido. Tantos rostos pra eu amar, tantos pra eu velar enquanto dormem, do jeito que eu faço com você. Se nenhum rosto me distrair como você hoje me distrai, te ligo. Mas por enquanto preciso viver.

Eu te amo, mas talvez esteja enganado. Dizem que nessa idade a gente se engana. Vai ver tudo não passou de um erro. Tudo não passou de confusão. E se o acerto for voltar pra você, juro que volto.

Eu te amo, mas não deve ser para vida toda. Preciso achar esse meu amor. Aquele que vai durar uma eternidade. Com quem terei meus filhos e envelhecerei. Se nenhum outro amor durar, passo na sua casa. Eu sei que você não vai se mudar.

Ouvindo: Goodbye - Natalie Imbruglia

04 janeiro 2015

Coragem


Sozinha é que eu não fico. Disso eu tenho certeza. Não é porque você está dizendo que precisa ir embora que eu tenho que ficar aqui. Vou andar por outros lugares, conhecer outros ares, aproveitar a vida, como eles dirão mais frequentemente daqui a uns dez ou vinte anos. Só não admito ficar só. Não sendo jovem, não com tanta beleza, não com tanta vida dentro de mim.

E se em algum momento eu ficar mal, se eu repensar minha vida, se eu achar que devia ter te implorado hoje para ficar, me prenda, me bata, me mate. Não me deixe duvidar de mim, não me deixe rever minhas escolhas, não me deixe me arrepender. Se eu gritar por ajuda, se eu chorar, nem assim estenda a sua mão. Se eu chegar a esse ponto, aí sim mereço a solidão.

Hoje não. Hoje eu mereço a luz dos postes da cidade, mereço o barulho, mereço o caos que tem ao redor de quem tem coragem de vivê-lo. Sua ida talvez seja a coragem que me faltava para olhar a luz sem medo de me cegar. Agora, que estou prestes a tirar meus óculos escuros, não tenho medo de nada. Porque eu sei que não mereço nada de ruim.

14 dezembro 2014

A suicida


Às vezes parece que tudo dá errado para mim. É nessas horas eu sinto vontade de morrer. Não é morrer por morrer, como as crianças de doze anos sentem vontade. Quero morrer para não morrer de cansaço. Tem gente que não tem sorte; que, por mais que tente, simplesmente não nasceu para o sucesso e talvez eu seja uma dessas pessoas. E, para agilizar todo o processo de tenta/decepciona/morre, quero morrer agora. Só por isso. Por isso e por causa da falta que você me faz. Me pergunto quem é você, onde você está e o que está vestindo, como no filme que eu acabei de assistir, mas nem tenho tanto interesse assim em saber. O que me interessa agora é morrer. Morrer e acabar com a falta de paz que a tua falta me faz.

07 dezembro 2014

Sardas


Eu gosto quando você diz que as sardas que você carrega nos seus ombros aparecem todas as vezes que você tem vontade de confessar o seu amor a uma certa pessoa. E você fala assim "certa pessoa" como quem tem vergonha de amar demais ou de todas as sardas que você carrega nos ombros. E eu passo horas imaginando que essa "certa pessoa" sou eu, mesmo que você nunca me diga quem é. Não importa o que eu prometa, você nunca me diz. Aí eu acho que você faz de propósito. Que essa é a sua maneira de dizer que me ama e que sente vontade de me dizer, mesmo que você nunca me diga. Pode parecer loucura, mas é assim que é. 

E toda vez que eu olho você e suas sardas nos ombros, eu sinto como se lesse meu nome. Como se elas formassem um coração. Todas essas coisas clichês que casais apaixonados escrevem em árvores ou em papéis de carta. Mas você prefere escrever na pele, mesmo que seja involuntário. E só quem pode ler sou eu. Talvez porque eu não esteja no meu melhor estado mental. Talvez porque fosse tudo o que eu internamente desejasse. 

16 novembro 2014

Silicone


Eu achei que a culpa era minha por você não me olhar. Eu era muito magra, muita branca, muito cheia de espinhas e de não-me-toques. Eu, então, me maquiei toda, passei perfume e coloquei enchimento no sutiã. Sorri para você como sorriem as mocinhas dos filmes que a gente assiste no verão, e fiz aquele olhar de peixe morto que elas fazem e que deixam os homens assim tão encantados. Treinei durante meses na frente do espelho. Imitava os trejeitos das estrelas e fazia nascer em mim esse brilho que parece que é só das outras. Você não olhava para mim. Se olhava, se distraía depois de alguns segundos. Eu aumentava o decote, diminuía a saia e regulava meu sex appeal, mas você só queria elas. Eu desfilava com outros homens e me entregava para aqueles que não chegavam aos seus pés, mas você nem me percebia. Eu engordei, emagreci, coloquei silicone. Pintei o cabelo, alisei o cabelo, escovei o cabelo. Mudei meus gestos, mudei meu emprego e o meu tom de voz. Mas você só se dirigia a mim como a menina sem sal, com tranças compridas que um dia eu fui.

02 novembro 2014

Eu quero


Eu quero ter a sorte de encontrar o amor que meus pais encontraram. Eu vejo os dois sentados na mesa de jantar, bebendo chá verde e de camomila, olhando um para o outro. Eles trocam olhares apaixonados. Eu sei, porque é o mesmo olhar que eu vejo na TV, na novela das seis.

Eu quero acordar de manhã com a sua voz meio distante, cantarolando Roberto Carlos, na calçada da minha casa. Os vizinhos todos saindo na janela para ver a paixão que você declara por mim. Eu vou sorrir da sacada do meu quarto e mandar beijos para você, enquanto você dedilha as cordas do seu ukulele.

Eu quero morder um pandeló e sentir o metal da aliança, enquanto você ri, sentado na minha frente, saboreando toda a perspicácia e romantismo na hora de me pedir em casamento. Eu aceito, você me beija. Nós dois saímos pela noite, de mãos dadas, andando pelas ruas da cidade a exibir o brilho nos meus dedos.

19 outubro 2014

Night Club


Não durmo há oito meses porque tenho medo de fechar meus olhos e nunca mais me acostumar com as luzes fluorescentes que piscam na noite lá fora. Às vezes preciso de um descanso, mas tenho medo de parar para descansar e nunca mais me levantar. Eu vivo ouvindo as vozes estranhas e rindo sorrisos vazios para pessoas que não sabem se comunicar comigo. Pode ser que nem eu saiba me comunicar comigo hoje em dia. Culpa da falta de tempo, aquele tempo que eu usava para comer pão na chapa, beber café com leite e ler o jornal de domingo pela manhã. Agora eu não vejo o sol, porque estou trancada num quarto de motel com algum desconhecido. Espero que ele pague meu taxi na volta e que ele não peça para dividir a conta só porque eu bebi uma latinha de Pepsi do frigobar. Enquanto eu retoco a maquiagem, eu penso no sapato que vou usar na noite seguinte e no tipo de cara de paisagem que vou fazer durante a noite quando encontrar aquele cara com quem eu dormi num desses fins de festas e que nunca me retornou. Aquele até seria um bom namorado. Por ele, eu abriria mão das luzes das boates.

12 outubro 2014

Nota de despedida


Querido,

Desculpe por não esperar você acordar, mas é que tudo isso faz parte da minha rotina. Eu me fui assim, sem me despedir, para que você me esqueça e para que eu nem me lembre de você. Não quero me lembrar de como te amei mais do que a qualquer outro que amei ontem, da hora que acordei à hora que deixei você aí.

Aconselho você a tomar uma boa caneca de café e ajeitar as almofadas no sofá da sala. Só hoje, que é pra ver se faz com que você supere a solidão mais rápido. E vá trabalhar, vá ver outras pessoas, saia de casa nem que seja para comprar cigarro. Saia.


Quem sabe você não encontra outra pessoa por aí, no caminho de volta pra casa? Quem sabe essa pessoa não sou eu?

28 setembro 2014

Boêmio


Sonhava com você assim, meio malandro. Você falava arrastado e me trazia o cigarro aceso e um copo de conhaque. A gente ficava até tarde da noite olhando a vizinhança pela grade da nossa janela da sala. Quando você se cansava, pedia pra eu subir para o quarto e tirar toda a minha roupa. Queria você falando que me amava sem roupa e que não conseguia desgrudar os olhos de mim. Depois você subia bem devagarzinho, com um palito de dente enfiado na boca, fazendo um barulhinho irritante, mas eu adorava. Você cheirava à rua e aos bares que você ia, aqueles que eram sempre diferentes dos bares que você me levava. Pra mim, você tinha cheiro de cerveja e, quando caía em cima de mim e sujava a mim e ao lençol, deixava seu cheiro impregnado. Você sempre me olhava desafiador e gostava de mim porque eu estava sempre pronta. E eu adorava que você gostava de mim.

14 setembro 2014

As noites


E todas as noites me trouxeram aqui. Todas as músicas, todas as roupas, todos os lenços sujos. E eu nunca liguei realmente por estar sozinha porque eu me divertia com todos os que estavam comigo. Eu bebia, eu dançava, eu transava. Fazia tranças que atavam os meus cabelos aos de todos eles e, por isso, não nos separávamos nunca mais. Eram todas aquelas noites de cantoria e amor que faziam a minha felicidade. Era a voz do cantor do rádio, o sabor dos cigarros, o cheiro da multidão.

Eu nunca tive o que reclamar porque quando eu fechava os braços ao meu redor, pegava os corpos que dormiam espalhados em pé. A minha volta eram montanhas de roupas e sapatos, eram as noites de trovadores, eram os rastros. Passos de crianças que deixávamos nas areias para que soubéssemos voltar de onde tínhamos vindo. Era a doçura da juventude sem saber o quê ou o porquê.

24 agosto 2014

Gargalhando


Ele sabia tudo o que eu pensava e tinha a mania de adivinhar minhas palavras, na frente dos nossos amigos, antes que eu as dissesse. Depois, quando lembrávamos desses momentos, nós dois na mesa do café da manhã de domingo, ríamos. Gargalhávamos por nada e adorávamos gargalhar. Às vezes eu sentia meus olhos úmidos de tanto rir e eu adorava essa sensação. Adorava também ver, a cada dia, um vinco novo no rosto dele e ele dizia que os vincos surgiam de tanto que nós ríamos. Eram dias de felicidade. Esse tipo de felicidade calma que a gente nunca percebe que existe, até que ela não existe mais. Quando eu pegava ele me olhando daquele jeito bobo, admirando o que eu fazia ou falava, eu o encarava. E quando ele via que eu estava encarando ele, com um sorriso torto na minha boca, caíamos na gargalhada de novo porque era o que a gente fazia melhor, rir. Gargalhar.

Se alguém me perguntasse que eu imaginaria ele, rindo comigo desse jeito, depois de tantos anos de adiamento, eu diria que era loucura, mas afinal essas coisas existem mesmo. Quando você percebe, você está rindo sem motivo e chorando de tanto rir. Gargalhando. 

25 junho 2014

Lista


Hoje de manhã acordei com vontade de comer tangerina e de listar os homens com quem transei antes de me casar. Foram tantos entre os vinte e os quarenta anos. Aqueles foram anos agitados. Eu fico pensando na melhor maneira de organizá-los, qual seria o melhor sistema. Talvez devesse arrumar em ordem cronológica, mas já nem sei se lembro de quando foram todos eles, antes ou depois da primeira vez que fui demitida. Pensei também que poderia separá-los pela cor do cabelo, seguido da cor dos olhos e depois pelo cheiro (do mais cheiroso para o menos), mas aí cheguei à conclusão de que detalhes não são coisas que a gente se apega quando tem vinte e poucos anos e três sexos casuais por semana. Pensei também em listá-los seguindo o sistema métrico, mas aí me lembrei das meninas que peguei quando estava naquela fase estranha que ouvia 4 Non Blondes. Não saberia onde encaixá-las.


Girei a caneta para um lado e para o outro enquanto pensava na melhor maneira de organizar todas as minhas transas nos anos em que eu não parava em casa, mas nenhuma maneira parecia ser certa. Talvez eu nem devesse fazer lista nenhuma. Talvez eu nem devesse usar a palavra transas. O Office insiste em colocar um sublinhado verde embaixo dela e querer substituir por relações amorosas como se isso não passasse de erro gramatical. Quem dera fosse só gramática. Quem dera.

16 junho 2014

Boa noite


Você está aqui, diante de mim, depois de todos esses anos em que não nos encontramos, em que não ouvimos um a voz do outro. Eu sei que você tem alguém ao seu lado. Eu sei que você talvez nem se lembre de mim. Foram tantas coisas que aconteceram entre o dia em que não nos despedimos e hoje. Eu não sei o que dizer ao passar do seu lado. Minhas mãos estão suadas, minhas pernas tremem, meu coração bate acelerado. Seguro a taça com um pouco mais de força do que seguraria normalmente e vou andando na sua direção. Enquanto ando mesmo sem sentir meus pés, penso no tom de voz que quero usar. Quero parecer um corpo sem tensão alguma, como se te ver me deixasse feliz, mas com uma felicidade banal. Nada que me faça perder a noite pensando no seu sorriso. Nada que faça eu te dizer para viver uma outra vida comigo, ainda que isso implique em você largar sua família. Eu aceitaria sua família de qualquer maneira, você não teria de abrir mão de nada. Viveríamos escondidos, viajaríamos para o interior um fim de semana por mês, nos encontraríamos no lado de lá da cidade. E quando estivermos andando de mãos dadas por uma praça qualquer e encontrarmos um conhecido seu, nos afastaremos e fingiremos que não nos conhecemos. Meia hora depois, nos encontramos e nos amamos. Talvez isso fosse a coisa certa a dizer quando eu alcançasse você do outro lado do salão. Você e sua companhia. Dou mais um gole no vinho pra ver se tomo coragem, mas percebo que só o vinho não é suficiente. Estou cada vez mais perto de você. Tanto que já sinto seu cheiro no meio desse monte de cheiros ao nosso redor. Ouço sua voz falando alto alguma coisa com alguma pessoa que nunca vi. Ouço sua risada. Meus olhos ficam cheios de lágrimas, meu estômago revira e meu coração parece revirar junto. Nunca me senti assim. Parece que vou morrer ao te ver. E quando o pensamento da morte passa pela minha cabeça, aí seus olhos me acham. Agora parece que não resisto, justo quando você sorri para mim como quem diz “Quanto tempo!”. No meio do desespero, do medo, do nervosismo e da dor de estômago aguda, esboço um sorriso no meu rosto. Tenho certeza que não é meu melhor sorriso, tenho certeza que não pareceu tão sensual quanto eu gostaria que fosse. Meu primeiro sorriso para você em anos, a primeira vez que nos vemos. Quando chego tão perto que posso te tocar, não me seguro e te toco, desses toques que parecem ocasionais e que não despertam atenção alguma. Um toque de leve no cotovelo e, ao sentir sua pele, parece que todos os meus poros que vinham adormecidos se acendem. Sinto o meu coração ficar quente e a minha pele brilhar. Meus olhos sorriem mais do que minha boca. Da sua boca vem o som que há tanto tempo espero ouvir.


13 junho 2014

Homens estranhos


Já passei por vários homens estranhos. Uns estavam de shorts e outros conheci no metrô. Todos passaram por mim como um temporal que passa por uma cidade despreparada e faz estrago. É claro que eles nem sabem o estrago que causam, eles não tem consciência, mas todos sem exceção acabaram um pouco comigo.

Os que falavam de cultura, mas agiam como trogloditas fizeram aflorar minha estupidez. Diante de tanta sabedoria dos maiores pensadores das gerações anteriores, eu tentava destacar meu batom vermelho em vão. Eles só querem lençóis sujos e um prato de comida para curarem a solidão da inteligência.

Os casados foram um caso a parte. Tantos porta-retratos quebrados de famílias inteiras. Ainda lembro-me de quando transei olhando as fotos daquelas crianças em seus primeiros dias na escola. Depois serviam café preto nas cozinhas limpas como um hospital e agradeciam pelo favor do gozo.

Presidentes, cabeleireiros, mestrandos e homens de banheiros. Todos arrancaram um pedaço do meu corpo e levaram pra onde talvez eu nunca mais os encontre. Até aí tudo bem pra mim. O pior é ter que lidar com mais. Saber que os próximos homens estranhos estão nascendo, sendo amamentados e fazendo cursos de inglês pra depois virem na minha direção.

11 junho 2014

Precisa-se de amigos


Precisa-se de amigos que queiram mesmo se divertir. Pessoas antenadas, com bom-gosto musical e para cinema. Saber conversar coisas inteligentes em mesas de bar é essencial. Beber cerveja é um diferencial quase essencial. Não fazemos diferenciação por idade, sexo ou sabor favorito de Fanta. O importante, deixamos claro, é que o candidato queira mesmo se divertir. Disposto a fazer companhia em situações típicas de ínicio e fim de mês. Importante estar disposto também a arriscar um programa quando o mesmo parece furada. Otimismo, humor e séries de televisão são vistos com bons olhos. Assuntos relacionados a esporte e sertanejo universitário, ou não, não são necessários. Pessoas sem vícios em Foursquare, leve vício em Facebook e Instagram e paixão sem fim por Twitter.

Se você costuma saber sempre para onde ir e quais são os lugares mais bem frequentados onde se cobre menos de 10 reais por uma cerveja, fazer contato.

06 junho 2014

Dostoiévski


Eu tinha tanto pela frente. Tenho certeza disso toda vez que penso no assunto. Ainda que a minha vida tenha sido um monte de momentos de solidão e sexo desvairado, gosto de acreditar que eu tinha o potencial para ser aquilo que sempre achei que ia ser. Não quer dizer que eu seria o que a minha mãe sonhou. Pelo menos não completamente, mas também não é essa figura amarga e carrancuda que me olha no espelho do corredor. Me sinto cansada e negativa como uma personagem de Dostoiévski. Não era assim que eu imaginei que seria. Fiz planos de almoços felizes, da casa cheia de crianças e a gente bebendo vinho até bem velhinho, fumando nossos cigarros e falando de poesia. Talvez esse sonho seja só de um outro escritor. Talvez seja tão negativo quanto Dostoiévski. O que sei é que quando olho pra essa realidade estranha em que vivo, sinto a impotência que via nos olhos da minha mãe e das suas amigas. Fico imaginando se seus olhos hoje em dia também têm essa impotência, se você se sente incompleto porque não está ao meu lado.

04 junho 2014

Bad Girl


Minha cama está cheia de cigarros quebrados e outros fumados. Já acordo e bebo um gole de qualquer coisa que esteja na minha cabeceira. Coca-cola, vodka ou óleo de rícino. Se eu me olho no espelho, vejo a menina de maquiagem estragada, de lábios rachados e a pele se esfarelando no rosto ossudo. Se não olho, não vejo nada.

Quando decido passar alguns dias na minha cama, sem tirar a camisola nem me levantar para escovar os dentes, fico imaginando como seria aparecer para você. Dizer que eu te amo e que você deve largar sua esposa. Depois fico imaginando se eu deveria chegar discretamente, me tornar amiga da família, madrinha da sua segunda filha e então transar com você na garagem da sua casa, enquanto ela faz o ensopado na cozinha.

Nessas horas eu peço para morrer. Porque eu não consigo aceitar ser assim, disposta a engolir os restos de um homem e destruir uma família. Mas acho que quando peço ninguém me ouve porque todos sabem que eu já bebi demais naquela altura do dia.

Tento imaginar que sou o tipo de garota que não vai fazer você sofrer, mas como ser assim se eu não consigo fazer com que o meu sofrimento pare? Eu só não quero ficar ainda mais triste.



28 maio 2014

Raiva


Eu morro de raiva quando vejo você rodeado de amigos, fazendo coisas legais. Parece até que eles não veem o quanto você é chato, sem-graça e previsível. Aí eu me lembro de uma máxima que eu li em algum lugar. Provavelmente num pacote de biscoitos recheados ou na caixa da pizza daqui do bairro. A máxima dizia justamente isso: “As pessoas nunca conseguem perceber quando alguém é chato, sem-graça e previsível”. Só então, consegui encostar a minha cabeça no travesseiro e dormir em paz. Sabendo que o problema não estava comigo, estava com todo o resto do mundinho em que eu vivo. Esse bando de gente chata, sem-graça e previsível que nunca entende as minhas piadas nem leem pacotes de biscoitos recheados e caixas de pizza. Apesar de ter dormido em paz, a raiva permanece aqui. Não sei se você entende como isso pode acontecer, mas acontece. É como se você terminasse a garrafa de uma bebida muito cara com amigos ou como se você assistisse o último episódio de uma série longa sozinho. E essa raiva não passa por nada. Eu durmo, acordo, tomo banho e meus moderadores de apetite e a raiva não me larga. Dou uma olhada de novo nas suas fotos, dou uma olhada nos seus amigos. Passo o dia trincando os dentes e roendo as unhas, ao mesmo tempo. No fim da noite engato nos mesmos pensamentos e sonho com um musical. Você desce escadas iluminadas cantando em plenos pulmões a máxima da minha caixa de pizza.

26 maio 2014

Da maneira que parecia certa


Eu te amei da maneira que pude. Do jeito que me ensinaram na televisão a amar. Eu sorria nas horas adequadas e me calava sempre que era solicitado. Às vezes me calava até sem que ninguém pedisse, mas era exatamente o que esperavam de mim. Todas as vezes que você precisou de uma companhia eu estava lá ao seu lado. Eu te ouvia e fazia cachos com o seu cabelo.

Gosto de acreditar que você também me amou como pôde. Da maneira que parecia certa. Essa coisa de fazer carinho na minha testa e dizer que me amava. Você fingia que tinha ciúme e corria atrás de mim pra onde quer que eu fosse. Todos os nossos vizinhos comentavam a tragédia que era a nossa casa.

Eu nunca vou saber se éramos suficientes um para o outro. Só sei que toda vez que eu penso em você e nos anos que passei ao seu lado, penso também nos anos que não passei ao lado do meu amor. Escolhi dar uma chance pra gente e acho que você fez o mesmo esse tempo todo. Pelo menos gosto de pensar assim.

Pode ser que eu fosse tudo o que você sempre sonhou e que esse jeito de você me amar fosse afinal o jeito certo. Só sei que pra mim não era suficiente. Que sempre fez falta o perfume que você não tinha, a voz que você não falava, as suas piadas que não me faziam rir.

21 maio 2014

Escatologia pornográfica



Eu decidi parar de escrever para você porque você nem ao menos notava que era de você que eu falava. Desisti de rimar teu nome com qualquer proparoxítona que existisse naquele tempo porque achei que não valia a pena gastar o vocabulário do nosso idioma quando você nem sabe como me ler.

Há muito tempo percebi que você não juntava as palavras que eu escrevia da maneira certa. Não tem fórmula mágica para isso. Eu só acho que você devia conseguir. E quando eu, finalmente, percebi que você nem ao menos se esforçava, eu parei.

E todas as vezes que toco em uma caneta eu me lembro daquelas coisas bobas que eu costumava escrever. E elas não faziam sentido mesmo, não adianta eu culpar você por simplesmente não ler seu apelido no meio dos meus textos. Vai uma dica. Junte a primeira letra dos textos ímpares nas linhas de número oito e você verá meu verdadeiro recado.

Eu duvido que você esteja curioso ao ponto de ler o que escrevi desde 1985. Aviso logo que eu estive por muito tempo sozinho e ocioso. Não venha depois choramingar comigo porque não aguenta mais ler minha voz literária falar escatologia pornográfica. Eu me contento que você não me entende e você se decida em me ignorar.