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05 outubro 2010

Fim


Queridos fãs,

Batalhei muito pelo lugar que alcancei. Foram anos trabalhando o tom da minha voz e a expressão de menina-moleca que eu estampo no rosto. Não que todo esse tempo e esforço pareçam hoje em vão. Não. Entretanto, cansei dessa imagem.

Não consigo mais carregar nas costas a realidade de ser a princesa de um reinado falhido, onde todos não passam de sapos disfarçados de príncipes feiosos, estilosos ou legais. Não quero um príncipe legal.

Hoje acordei com o sentimento que esse castelo e todos os príncipes que conheci não são suficientes para mim. Nem mesmo as tabernas da região causam o efeito que outrora causaram. Hoje percebi que a responsabilidade que tenho, de ser o que esperam de mim, é algo que não tenho mais estrutura para suportar.

Sei que muitos sentirão falta. Que muitos sapos alimentavam esperanças de que um dia aquela princesa burra que sai por aí beijando sapos lhe daria a honra de tornar possível o uso de calças jeans aos fins de semana. Mas essa princesa mudou.

A partir de hoje, torno oficial meu abandono do trono e abro mão também das inúmeras oportunidades que teria para hidratação gratuita com o melhor salão de beleza do reinado. Minha intenção não é chamar atenção, que fique claro aos papparazis. Quero seguir adiante minha humilde vida de mortal.

Passarei a atender pelo simples nome de Sandy, sem mais. De cabelos escuros, sujos e sensuais. Não aceito propostas para posar nua, nem duetos com rappers internacionais. Quero me descobrir.

Com carinho

Ex-princesa Sandy

08 junho 2010

Eclipse


O eclipse estava previsto para aquela semana, era o que tinham enxergado nos fundos dos poços os magos do reinado. Sandy, com medo daquilo que nem sabia, se reaproximou dos amigos e, com eles, do sapo.

Toda a reaproximação acabou em beijos na boca. Ainda que o sapo temesse voltar a ser sapo, ao beijar a bela e loira princesa. Ela já havia cansado das tabernas e dos romances efêmeros, ainda que não estivesse disposta a aprovar todas as calças que o sapo agora vestia.

A intenção de Sandy era manter uma relação aberta. Dessas que a gente só encontra nos filmes excêntricos que fazem na Europa. Eles trocariam beijos durante a semana e dariam a volta no lago aos sábados, sem compromisso, é claro. Era mais um jeito de conseguir uma companhia masculina-anfíbia fixa do que amor.

Como falamos de um reino festivo, foi em mais uma festa que Sandy e o sapo passaram dos limites nos tonéis de vinho que consumiam. Carregaram nas costas o peso das mágoas e dos desejos. Não há dia melhor que a véspera do eclipse.

Sandy não contava, entretanto, com a notícia que vinha junto com o eclipse. Um amiguinho da floresta, daqueles bem desinformados, sem saber do recente envolvimento entre o sapo alpinista social e Sandy - a princesa apaixonada - declarou o que sabia sobre uma outra princesa. Uma que não se chamava Wanessa. Uma que teria sobrenome.

O sapo estava conhecendo uma outra menina, longe do ramo artístico e da música. Não era ex-BBB nem integrante de grupo baiano. Sobre ela, não sabia-se muito. Mas era o suficiente pra Sandy saber que eles estavam namorando.

O plano da princesa, indo por água abaixo, se tornou sua frustração da semana. E seu motivo para beber na taberna. Afogar as mágoas, como se não exibisse cabelos que, a cada dia, estavam mais loiros. O único homem, aquele que só se tornara homem ao beijá-la, não havia respeitado ela.

Amaldiçoava cada calça jeans que o sapo usaria. E cada noite de sábado que não passariam juntos. E cada tonel de vinho que bebera na noite antes do eclipse. A fossa foi tamanha que ela nem notou a sombra da lua na frente do sol. Nem a chuva de confete que caía debaixo da janela. Aquela onde um plebeu fumava aquele cachimbo cheiroso. Ela só podia ver o fundo do seu copo.

11 maio 2010

Piru-rosa


Havia meses que o sapo não dava uma volta na floresta com os outros amiguinhos, aqueles que não eram encantados, não beijaram a princesa Sandy e não usavam calça jeans. Ele se dedicava inteiramente à sua nova princesa, Wanessa.

Wanessa impusera a condição de ele não encontrar mais nenhum deles. O bosque próximo ao poço estava terminantemente proibido. Mas não durou muito. Logo o sapo sentiu falta dos momentos de amizade e decidiu abrir mão do amor de Wanessa para poder continuar a desfrutar desses momentos.

O sapo estava de volta. Cada dia com uma calça diferente. Skinny, reta ou saruel. Os amigos receberam-no bem. Sandy tinha se reaproximado, as tabernas escusas ficavam só para o fim de semana, quando o reino não precisava de uma princesa.

Quando todos achavam que as coisas voltariam ao normal, que Sandy e o sapo teriam a chance de se conhecerem melhor do que se conheciam há 4 anos, boatos começaram a respeito de um possível envolvimento de Sandy com um príncipe da região.

O rapaz atendia pelo nome de Piru-rosa. Era doce, educado, olhos claros e cabelos aloirados e cacheados. Se passava tranquilamente por um anjo. Só seria descoberto pela bendita característica que lhe dava nome, afinal aquilo não se parecia com o sexo dos anjos. Sobre Piru-rosa não se sabia muita coisa.

Sandy começou a freqüentar os mesmos lugares que ele e por coincidência ele também era amigo de alguns animais da mesma floresta que Sandy era. Viviam trocando mensagens que os pombos levavam e traziam. Algumas mensagens eram bem irônicas e deixavam um ou outro sem palavras para a resposta. O pombo odiava esperar a criatividade chegar.

Ela estava disposta a investir. Ainda que ele parecesse muito infantil. Muito dócil. Principalmente se comparado aos camponeses que conhecia nas noites de sábado nas tabernas da corte. Piru-rosa também confessava para alguns animais interesse por Sandy.

Dentre os animais, o alce era o mais próximo dos dois. Ele sabia dos segredos de um e de outro. Sabia que não podia deixar Sandy se envolver com Piru-rosa. Não sem avisá-la do problema de mau-hálito que o rapaz tinha e que era de conhecimento de alguns animais da floresta.

Sandy se chocou quando soube. Aquilo não mudaria o carinho que sentia por Piru-rosa, nem a admiração que sentia pelos seus traços femininos. Mas impedia definitivamente que ela e Piru-rosa um dia unissem seus reinados.

05 abril 2010

O Sapo

Era uma vez um sapo que, em uma noite quente de outubro, durante uma festa do reino, se aproveitou que a famosa princesa Sandy estava meio alcoolizada, recentemente abandonada pelo príncipe Feioso, e imaginou que aquele seria seu dia de sorte.

É fácil de se compreender. Todo sapo, que sabe que é encantado, tem o sonho de se tornar homem. Todo sapo tem curiosidade de saber como serão suas pernas e a vontade de usar calça jeans. Todo mundo usa calça jeans, ele também queria usar.


Além disso, deve ser duro viver uma vida anfíbia, ao lado da princesa Sandy e seus cabelos cor de cerveja importada, sua pele branca e sedosa como chantilly e ter que aceitar ser só um sapo. Vendo o príncipe Feioso, maltratando-a, traindo-a e não lhe dando prazer.

Talvez Sandy sempre tivera uma queda por anfíbios, mas quando se está alcoolizado, perde-se o nojo. Quem é amiguinho da floresta se torna peguete e sapos se tornam homens.

Não satisfeito com aquela noite e com todas as outras que a princesa lhe dera a chance de passar vestindo calça jeans, o sapo – agora um homem não tão alto, mas ainda assim atraente – queria mais. Ele queria cortejar a princesa Sandy. Queria uma relação fixa, baseada em todos os princípios que ditam os contos de fada passados naquele reino.

Fazia planos de ver sua história sendo contada pras seguintes gerações. Ainda que ele não fosse o protagonista. Sapos nunca são protagonistas, as crianças preferem histórias de princesas, coisas da época. Um dia há de se fazer uma história de sapos.

Mas não contava com o fato de Sandy querer sair, querer conhecer outros homens e outros sapos. Dependendo do nível alcoólico, quem não garante que ela conheceria também outras espécies de animais?

Restou a ele tentar por um tempo e, cansado, fazer o que se faz: “partir pra outra”. Procurou em outros reinos alguma princesa, digna de sua homossapiência. Até encontrar Wanessa – a princesa sem sobrenome.

Foi uma noite memorável, quando apresentou ela aos animas da floresta. A princesa Sandy estava por lá. Os animais da floresta se dividindo pra agradar a duas princesas. As duas trocando olhares de contos de fadas e fazendo as graças que cabem às princesas.

Wanessa nunca foi muito confiante, o sapo sabia disso. Ela ouvia histórias de Sandy. Sabia que o sapo era amigo dela, quando ainda era sapo. Tudo estava mudado agora, ele vestia jeans, tinha uma princesa sem sobrenome e os animais da floresta abusavam de Onion Rings.

24 março 2010

Era uma vez...

Era uma vez uma princesa moradora da Zona Oeste da cidade. Seu nome era Sandy. Ela tinha os cabelos loiros como cerveja importada, a pele clara e sedosa como o chantilly que nunca havia comido.


Havia encontrado seu príncipe há quatro anos. Ele não era sensível, não era bonito e não lhe dava prazer. Seus amigos, os animais da floresta, estranhamente não cantarolavam e faziam festa quando ele estava presente. Frequentemente, ele aparecia em casa com uma marca de ferida que ela sabia ser daquele esquilo que tantas vezes era gentil com ela no caminho do chalé onde morava.

Seu príncipe lhe deixou. Ela passou por um período ruim, de tristezas, que durou toda a eternidade de uma semana. O ponto final foi a festa do Reino, que seria numa quinta-feira quente de outubro. Ela foi com seus amigos, os animais da florestas, presos ao seu calcanhar.

Entre um cálice de vinho e outro, Sandy já havia consumido quase dois tonéis e dançava os funks da época com desenvoltura (like a whore). Um dos seus amigos, o sapo dançante e sorridente, se aproximou dela na pista de dança. Ela dançou com ele e lhe beijou, transformando-o em um homem não tão alto, mas apaixonado.

A festa daquela noite acabou. O antigo sapo tentava cortejá-la. Mas para Sandy, ele só era um sapo, um amiguinho, um dos animais da floresta. Ela queria conhecer. Ela queria ver o reino, queria conhecer os lados de fora do reino também.

Começou a ir a festas no underground, tabernas onde vendiam cerveja quente e tabernas onde se estapeavam por cerveja quente. Entrava em cabarés onde via homens beijando homens, mulheres beijando mulheres e onde era cortejada por meninos que fazem faculdade particular e usam tintura loira no cabelo arrepiado.

Às vezes levava uns números de telefone anotados no pergaminho que carregava sob as anáguas. Às vezes dava números falsos. Afinal de contas, depois de quase quatro anos nas mãos do temível príncipe Feioso, ela não poderia se envolver com sapos e frequentadores do undergroud pseudo-homossexual. Mas lá a bebida era tão barata...