O injustiçado é aquele tipo que conversa no MSN e diz coisas que variam do “você não sabe o que eu passei esse tempo todo” ao “e você e aquele negão?”. No fim das contas acaba chorando e assistindo um filme vencedor do Oscar filmado lá pelos anos 70 ou 71. Se não for assim, apela para a Barbra Streissand. Mas nunca se faz entender. O injustiçado se cala e leva a fama. No fundo, gosta de levar a fama, é como um falso sentimento de superioridade que parece justificar aquele balde de jujubas e delicados que ingere durante toda a madrugada, escutando Tulipa Ruiz e assistindo Funny Girl.
08 junho 2011
Injustiçado
O injustiçado é aquele tipo que conversa no MSN e diz coisas que variam do “você não sabe o que eu passei esse tempo todo” ao “e você e aquele negão?”. No fim das contas acaba chorando e assistindo um filme vencedor do Oscar filmado lá pelos anos 70 ou 71. Se não for assim, apela para a Barbra Streissand. Mas nunca se faz entender. O injustiçado se cala e leva a fama. No fundo, gosta de levar a fama, é como um falso sentimento de superioridade que parece justificar aquele balde de jujubas e delicados que ingere durante toda a madrugada, escutando Tulipa Ruiz e assistindo Funny Girl.
24 setembro 2010
Coisa de menininha
30 julho 2010
Pessoas que reclamam demais

02 junho 2010
Médico

Médico formado pela Universidade Federal, alto, forte procura para relacionamento aberto, do tipo “venha na minha casa, coma um strogonoff de frango ou de camarão – caso você não seja alérgico também – e transe comigo um pouco”.
A comida fica por minha conta, disso eu me asseguro. Você só precisa trazer o “Sim” e o sorriso infantil. Também cuido da sua saúde se for o caso e aquela piadinha de “brincar de médico” vai ser cuidadosamente evitada. Questões de ética de trabalho.
Eu estava acostumado a ligar uma vez por semana, sempre às quintas-feiras, por volta das oito ou oito e meia. Bolava um plano sobre como nos encontraríamos e transávamos umas duas horas. Depois disso era hora de ir pra casa, pra faculdade ou pra Avenida Atlântica comer pipoca de madrugada.
Sou limpo, cabelo cortado e a unha também. Se você não for assim também, não adianta ligar porque não vai rolar. Podemos construir uma relação sem cobranças, sem compromissos, nos veríamos quando quiséssemos e quando eu estivesse de folga.
Você não me conta sobre a sua semana, nem pergunta sobre a minha. Podemos falar sobre doenças de idosos, premiações da música internacional ou sobre o último jogo de futebol. Moro em Copacabana, quase no Arpoador.
Não trocamos cumprimentos calorosos, que é pra manter a distância e a discrição. Você dorme na sua cama e eu na minha. Aviso de antemão que isso é essencial para o desenvolvimento do relacionamento ou desse lance que vamos ter. Não falo e não gosto de quem fala lance.
E quando você cansar de mim, simplesmente responda às minhas perguntas. Principalmente se eu lhe perguntar se você está me enrolando. Não gosto de ser enrolado, tenho muito trabalho a fazer durante a semana e gosto de relaxar na minha folga.
Quinta-feira estou disponível. Me procure no Barra D’Or. Se você está interessado entre em contato por email, telefone, Twitter, Facebook, Formspring ou MSN. Simplesmente entre em contato.
13 abril 2010
Me adiciona ponto com

O nome dele me dizia que morávamos na mesma cidade. Veneza não poderia ser um sobrenome. Começava com Gus e terminava com tav. O que vinha pelo meio ninguém sabe ao certo. Talvez alguma canção do Elton John. Talvez um álbum inteiro dele e sua coleção de óculos. Restava a dúvida.
Outros perfis surgiram no meadiciona.com e me mostraram que estudávamos na mesma universidade, talvez tenhamos ido às mesmas festas de irmandades ou às mesmas festas de swing. Sim, tem gente que gosta de swing estando solteiro. Tem gente que pode entrar em swing estando solteiro. Na verdade, eu não sei nada sobre swing.
Frequentávamos os mesmos lugares e, quando não, eu descobria onde ele estava e ia atrás. Fazia amizade com seus amigos, bebia com todos eles e dava uma de “temos-humor”. Mas ele nunca me olhava.
Ele tinha tudo que devia ter. Era educado, antenado, bom gosto musical, ia ao cinema, cortava o cabelo com certa regularidade, bebia, morava perto, beijava na boca e usava roupa de marca. Ainda que não fossem minhas marcas favoritas.
Um belo dia descobri com antecedência onde ele estaria. Faltavam vinte dias. Tempo suficiente para eu emagrecer um pouco, mudar meu corte de cabelo e exercitar meu sotaque, para acentuá-lo. Ainda tinha que descobrir o que havia no meio do seu nome, para abordá-lo da maneira certa e com um assunto certo.
Achado o assunto, parti para o próximo passo, me fazer ser alguém. Atualizava meu Twitter a cada cinco minuto. Devia fazer alguma diferença. Retwittava o que ele twittava. Conjugava o verbo twittar em todos os tempos e conjugações possíveis nas três diferentes dimensões de Avatar. Estávamos em 2010.
Mas não era a mim que ele queria. Ele mencionava outra pessoa. Morava numa tal cidade chamada Campinas e também levava isso no nome. Campinas não podia ser sobrenome, era o que me dizia o Google Maps.
Tinha lhe mandado chocolates e as fotos mostravam isso. Outra pessoa mencionava os dois – Veneza e Campinas – perguntando se surgia um novo romance. Eu me perguntava: Por quê?
Campinas não morava perto, não gostava de cinema, nem de boa música. Campinas tinha sua página recheada de replies e os links lá eram de um verde fluorescente horrível, enquanto os textos eram rosa-pink. Campinas não cabia na nossa história. Não conhecia seus amigos de bar. Só os amigos de MSN.
Veneza disse que conversariam mais tarde, respondendo à pergunta se surgia ou não um namoro entre Veneza e Campinas. Esse que perguntou eu não sei de onde era. Mas era na África, isso eu sei. Isso eu sei.
18 março 2010
Onde falam várias línguas

Todas as vezes que subiam as escadas que levavam ao terraço, era para a mesma brincadeira. A culpa era da sua mãe, que não deixava que eles se fechassem no quarto com ar-condicionado. Nunca se soube se era medo de a conta de luz vir alta, ou medo de vir uma gravidez.
O terraço era o ambiente mais arejado da casa e eles tinham calor. Ela e o namorado transavam sempre por ali, encostados nas paredes, perto da churrasqueira ou ao lado da piscina de 2000 litros desmontada. Foi ali também que ela percebeu pela primeira vez os defeitos do namorado.
Por mais que ele se empenhasse, por mais que ele treinasse com a boca enfiada em um copo com água, ele nunca conseguia fazer os movimentos certos com a língua. Encostada na pele dela, a língua dele não sabia fazer nada.
Desde então eles passaram por um período de adaptação. Ela tentou se acostumar com o fato de ele não saber chupá-la, afinal ela o amava. Quando viu que era em vão tanta tentativa, partiu para o plano B, ensiná-lo. Ele tinha problemas de aprendizado, não tinha chegado ao primeiro ano do Ensino Médio. Isso é coisa que só se aprende lá pelos meados do segundo.
Desiludida, frustrada e decepcionada com o futuro reservado para ela, encontrou consolo nos braços de um contato do MSN. Sobre ele não sei nada além de que tinha o dobro de sua idade e que sabia chupar bem.
O próximo estava começando a faculdade, falava alemão e também sabia fazer o que seu namorado não sabia. E os dois ou três seguintes. Todos tinham em comum o fato de saberem o exato e sincronizado movimento da língua, enquanto se encurvavam na altura da virilha dela.
Ela gemia de prazer com outros enquanto o namorado comia Doritos deitado no sofá da sala, vendo clipes dos anos 80. Logo depois subiam as escadas para o terraço e continuavam fazendo o que sempre faziam. Ele gozava, ela se vestia e sua mãe nunca os surpreendia. Ela lamentava isso.
Mas terminar com ele seria ainda pior do que a falta de um sexo oral bem feito com a pessoa amada. Afinal, ela continuava recebendo um sexo oral de desconhecidos que faziam rodízio. Tornou-se poliglota.

