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17 outubro 2010

Agosto


Agosto passou e você continua por aí, sumido. Como se essa fosse a solução pra gente. Eu nem sei o que é “a gente”. É confuso de pensar. Leva um tempo que eu não tenho mais. Eu costumava ter tempo pra você e pra gente, do mesmo jeito que você costumava estar por aqui. Agora você anda sumido e agosto anda passando. Daqui a pouco setembro. E com ele mais um ano. Nosso ano funciona de outro jeito. Esqueça o zodíaco. Me abrace como você costumava fazer quando você andava por aqui, achado.

É de um calor sem nome, sem tempo também pra dar nome aos calores. Eles existem, isso basta. Existem e me lembram o quanto você faz falta. Quase tanto quanto me falta o ar. Aquele ar que você costumava roubar de mim. Bastava você rir. Bastava você me ligar. Do outro lado do planeta. De repente o planeta parecia pequeno.

Não comece com esse sorriso, esse mesmo que imagino. Ele não basta. Eu quero suas palavras. Procuro por elas para começar mais uma jornada. Mas você anda sumido e eu não sei onde encontrar você. Quem sabe no fundo do copo de refrigerante? Quem sabe não é lá que você está?

09 outubro 2010

No fim da semana


No fim da semana, ele nem lembra seu nome. Se acostume com isso, vivemos no terceiro milênio. Quando o sexo pode ser casual e sua mãe pode saber que é casual, quando sua mãe entende o que é sexo casual e seu filho também, quando beber coca-cola virou hábito banal, bandas de rock devem ser estranhas e chatas, fumar é visto como coisa feia e ninguém lembra seu nome.

Ele pode dormir no sofá da sala, transar loucamente ou simplesmente beber uma cervejinha importada gelada, aquela que você guarda para as ocasiões especiais. Com certeza, no fim da semana, ele já terá apagado o seu telefone do celular dele. Deve ser celular smartphone, porque ele é antenado.

Não espere um convite para uma segunda, a cabeça dele funciona em outra velocidade. A essa altura ele já deve estar dormindo em outro sofá, transando loucamente com outra pessoa ou simplesmente bebendo uma cervejinha importada que não é você quem guarda para as ocasiões especiais.

Nem pense em se suicidar, vai dar muito trabalho pra quem catar os restos.

18 julho 2010

Boomerang


Ele vai e volta e, quando volta, balança as estruturas. Por causa dele, não sei mais falar de mim. Talvez eu nunca tenha sabido. No fundo, a gente nunca sabe. A gente sabe ser a gente. Acordar e dormir com a mesma expressão no olhar sem esquecer de passar os cremes que retardam o envelhecimento. Uma sobrancelha erguida e a outra em descanso. Às vezes, ele levanta minhas duas sobrancelhas. Principalmente quando ele vai. E é nessa hora que eu não vejo mais graça de ficar bêbado. Ficar bêbado nunca teve graça. Só é bom pra esquecer ele. E se eu não quero esquecer? Eu como pra me preencher e levanto as sobrancelhas.

Ele me vigia quando volta. Faz eu esquecer que o mundo é mundo e continua por aqui. Que o resto ainda tem graça. Eu quero ficar de pé e deixar de lado a posição das lâmpadas no teto do hall. Ou a disposição. Eu sempre acho que ele sabe o que me faz. Só não sabe o que faz às estruturas. Elas já não existem. Do mesmo jeito que eu e a(s) menina(s) que senta(m) do meu lado na mesa do bar. O bar já está um caos, quando ele está aqui. E ele, ainda assim, sempre volta.