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13 outubro 2010

Joãozinho


POP é coisa de viadinho, já dizia Joãozinho, segurando aquela caneta esferográfica daquele jeito destemido. Gay ouve música popular, de preferência brasileira. Se for um nível superior de gay, ouve música francesa ou qualquer equivalente europeu. O resto, aqueles que ouvem Britney Spears e aquela mulher mulata com cabelo liso (sim aquela com a sobrancelha estranha), esses são viadinhos.

Joãozinho falava assim, no diminutivo, que era para fazer o efeito do desprezo que ele sentia pelos viadinhos. Ajudava o fato de todos eles serem pequenos. Quando ele diz pequeno, se refere só ao fato de medirem menos de um metro e sessenta e cinco, a isso e nada mais. O que sobrava era o que supostamente não era clichê e Chico Buarque.

Intercalava uma canção feita na Suécia com um filme italiano e tinha de saber de cor todos os versos desconexos, ou pelo menos eles eram assim para os viadinhos, das músicas eletrônicas que escutava quando ia à boate. Afinal de contas, precisava socializar. Gays socializam. Não com todos. Deixava de lado os viadinhos.

Se negava a assistir filme dublado e a usar corrente de prata, porque essa linhagem de viadinhos era a da pior espécie. Ele acreditava que faziam os que gostam de Lady GaGa se envergonharem. Por algum motivo todos os viadinhos se apaixonavam por ele e o chamavam por Joãozinho. Onde já se viu? João, um nome tão bonito.

27 setembro 2010

Na folha de fichário


Ela guardou o revólver na mochila da Tinker Bell, no bolso grande porque não coube no bolso pequeno. O revólver era maior do que ela previra. Mais pesado também, conferiu ao segurá-lo pela primeira vez, imaginando o que faria ao namorado com aquele pedaço de metal.

Ao lado do revólver, guardou a folha de fichário com o plano. Tudo era bem rudimentar na superfície do papel, escrito com lápis 2B e, ocasionalmente, apagado com uma borracha velha que manchava todo o plano.

Ela iria chegar na casa dele, entrar pela cozinha e parar ali um instante para tirar o revólver da mochila. Ele estaria no banho, porque ela chegaria lá por volta das nove. Às nove, ele sempre está no banho. Talvez se masturbando, ela sempre imaginou. Ele com certeza é o tipo de homem que se masturba diariamente, ela amaldiçoou, sabendo que ela não era o tipo de mulher que se masturba com freqüência.

Iria lentamente até o banheiro, já ouvindo os possíveis gemidos de prazer do rapaz ou os primeiros versos de Bad Romance. Não bateria na porta, porque sabe que sempre está aberta durante o seu banho, e entraria.

A névoa formada devido à água quente ajudaria ela a deixar o revólver em posição de tiro. Ele notaria, através do vidro fumê embaçado, a entrada dela e abriria a porta do box, nu e talvez excitado.

Ela atiraria na barriga e se deliciaria com a imagem do rapaz sentindo o queimar do tiro, cortando-lhe a carne e penetrando seus órgãos. Se deliciaria com o sangue escorrendo pelo corpo dele, misturando-se à água do banho, descendo-lhe pelas pernas.

Daria um segundo tiro, na testa, e veria o rapaz cair de dor no chão molhado, sob o chuveiro ligado, olhando-a sem entender, talvez agora até sem pensar. Morto. Com os olhos abertos como um fantasma, o chuveiro lhe caindo água abundantemente, as pernas cruzadas involuntariamente.

Voltaria à cozinha, guardaria o revólver novamente na mochila e tiraria as luvas de látex, daquelas de lavar louça. Seria o fim daquela relação. Entraria no carro e, indignada, tiraria o pedaço de namorado que sobrara em seu ombro com o tiro na cabeça. Jogaria do lado de fora da janela e partiria para Aruba.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.

25 abril 2010

Friendly


A amiga daquele menino que é gay faria de tudo pra saber que ele era gay. Ou pelo menos saber da maneira certa. Aquelas conversas do tipo “preciso-te-contar-uma-coisa”, “você-não-pode-contar-pra-ninguém”.

O primeiro passo era falar bem dos homossexuais, mesmo aqueles estranhos que usavam cabelo com balaiagem ou aqueles que usavam calça xadrez. Fashionismo era coisa de gay. Fashionismo e Sex And The City. Daria certo falar sobre Sarah Jessica Parker.

Ele continuava lá, beijando meninos em noitadas escusas pelo centro da cidade, tão heterossexual quanto sempre fora. Não cantava Lady GaGa, nem pronunciava a palavra heterossexual. Só gays fazem isso.

O segundo passo foi andar com lésbicas, daquelas femininas, maquiadas, do tipo novela das oito. Aquelas modernas que ficam com meninas, meninos e com plantas carnívoras. Ela evitava as plantas carnívoras. Esse seria o último passo, mas ainda estava longe de lá.

Depois partiu pro desabafo. Falar de suas experiências. Aquelas imaginárias tipo sexo oral na vizinha de baixo, beijo triplo na última rave, mesmo aquela que ela nunca pisara. O amigo gay não demonstrava terror, nem estranheza. Era bem daquele tipo de hetero que não fala hetero e que é amigo de gays.

Mas isso é o que ela queria ser – a amiga do gay – ela pensava. Não é porque ele não canta Bad Romance, não gosta de comida japonesa e curte futebol que ele é heterossexual. Afinal de contas, eram amigos. Ela sabia o que ele era. E ninguém assegurava àquela menina determinada a garantia daquela teoria.

Ele, por outro lado, continuava irredutível. Ainda que algumas pessoas já soubessem. Ainda que ele falasse com elas com certa naturalidade sobre o assunto. Mas com ela o assunto era outro. Com ela, ele não sabia quem era Samantha ou Miranda.

Nas noitadas, ela abusava do álcool pra tomar coragem e levar o plano adiante. Beijava meninas, era a perfeita lésbica feminina, que se maquia e sai com todo tipo de gente – menos as plantas carnívoras. Ele só estava esperando que ela perguntasse.

21 abril 2010

Filhos


Nossos filhos vão brincar de Lego. Disso eu me asseguro. Nem que pra isso eu tenha que chantageá-los. Só vão entrar na internet se brincarem de Lego. E depois que eles montarem, seja lá o que for que suas criatividades decidirem montar, eu quero ver. Só pra me assegurar que eles não estão me enganando.

Eles vão estudar no Pedro II ou no Colégio Militar. Os dois ali nos arredores da Tijuca. Só porque eu não estudei nem em um, nem em outro. E não vão fazer faculdade na UERJ. Não admito nada a menos que UFRJ. Eles poderiam também sair da cidade. Deve ser bom viver longe dos pais e experimentar todas as coisas que a universidade proporciona. Em último caso, eles estudarão na PUC.

Nossos filhos vão perder a virgindade antes dos 15 ou depois dos 20, o que tiver na moda na época. E todos, eu disse todos, serão bissexuais. Os heterossexuais sofrerão preconceito, do mesmo jeito que os emos remanescentes dos anos 2000 e as caminhoneiras dos anos 1990.

Nossos filhos usarão o telefone só pra telefonar. Ninguém mais vai querer câmera de celular nem mp-qualquer-número. Ele ouvirão o equivalente ao Justin Bieber e usarão cabelo black-power. Drad vai ser coisa de inseguro e de tradicional.

Eles serão fãs dos filhos da Lady GaGa, que terão uma banda de músicas cantadas, sem gagueiras nem auxílio de artefatos eletrônicos. Eles irão namorar cedo e vão trair seus namorados. Vão ser melhores que a gente na hora de contar uma mentira e de serem enganados também. Serão facilmente traídos.

Vão comer no Burger King, mas sem a batata frita. Desde aquele artigo que deu numa matéria no Fantástico que fala sobre os perigos da batata no Brasil, nosso país nunca mais será o mesmo, nem os lanches do Bob’s, do McDolnald’s e do Burger King. A cenourinha não vai funcionar, nem a calabresa e o preço do lanche vai ter que diminuir. Eles só vão comer lá porque é mais barato que o restaurante do momento, pra dias especiais.

Vão se casar, diferente de mim, e vão ter filhos que nascerão com alguma anomalia que depois vai se descobrir ser coisa da geração. Os filhos deles também serão bissexuais e não entenderão de início como a coisa funciona. Nossos netos torcerão pro Botafogo. O Fluminense vai virar time amador e treinar ali no Aterro do Flamengo.

Quando eu estiver levando meus netos pro CCBB, pra exposição do filho da Deborah Secco, sobre as obras de Drummond, a gente vai parar pra dar uma olhada no treino, rezando pra poder ver de longe o busto do Renato Gaúcho enferrujado. Há dias que a gente tentava fazer isso. Há dias.

26 fevereiro 2010

Aham, Cláudia, senta lá

Ele não recusava um convite para ir ao restaurante japonês e comia temaki cheio de desenvoltura, até virava os olhinhos só em ouvir falar da truta da Patagônia do Koni Store. Mas virar olhinhos nem sempre é uma atitude muito gay.

Ele não sabia nada sobre futebol, nem se importava que seu time estava na segunda divisão. Ele só dizia que torcia para aquele time porque seu avô o obrigara. É time de tradição, meu filho, neto meu não nega nossas raízes lusitanas. Ele nem sabia o que era segunda divisão.

Nunca soltou pipa com os meninos e sempre foi viciado em mangá. Principalmente aqueles que falavam de meninas com olhos estranhos, cabelos que variavam do lilás ao rosa-chá. Ele sabia a diferença entre lilás e rosa-chá.

Fingia que não sabia nada sobre blusa frente-única. Mas uma coisa era verdade, ele odiava Lil’ Wayne e funk. Uma festa que não tocasse Beyoncé ou Lady GaGa era uma festa perdida. Ele sabia as coreografias da Beyoncé, mas não gravava nada em vídeo caseiro para colocar no YouTube, afinal de contas, isso seria muito gay.

Ele era apaixonado por uma amiga nossa. Ela tinha namorado. Mas o namorado dela não curtia comida japonesa, não curtia Rihanna nem nunca lera um gibi (ou qualquer outro objeto que contenha letras). Por algum motivo, isso o tornava mais interessante.

Certa noite, ele foi visto numa boate gay. Blusa listrada, calça jeans e uns bons passinhos de musical da Broadway na memória. Bebia cerveja em copo descartável com o objetivo de ficar doido o suficiente para tirar a camisa e subir no queijo. Ele não malhava.

Exibia as axilas cheias de pelos. Mais uma herança do avô. Era o orgulho da avó, talvez por isso. Todo mundo quer um neto que tenha a axila cabeluda. Quanto mais pelos, mais responsabilidade, mais cedo ele se casaria com uma menina bonita e educada, de boa família, para irem juntos curtir uma comédia romântica depois de comer uma porção de sashimi de peixe branco.

Ele não usava a expressão curtir, nem qualquer outra gíria. Era antenado nos vídeos do momento e guardava as melhores frases para usar no seu dia-dia. Mas quando questionado se também era gay, negava.

Todo mundo percebia que ele era heterossexual. Não há gay que saiba dançar Single Ladies. Não há gay que sincronize os movimentos da mão e do pescoço tão bem quanto ele. Isso é puro preconceito. E isso não admitimos por aqui.


Mas naquela noite ele bebera muito. Nem sempre se consegue dosar direito o quanto de vodka com Red Bull devemos ingerir. E em determinado momento ele estava com algo pendurado no pescoço. E não eram os versos de uma canção da Gretchen. Não.

Aquilo tinha pés que calçavam entre 40 e 42 e aposto todos os episódios de Will And Grace que também tinha as axilas peludas. Sobravam traços da cultura ibérica naquele nariz.

Fiz meu papel e avisei. Não queria que ele passasse por gay. Às vezes a gente não sabe o que está pendurado no nosso pescoço. A gente pode nem sentir. Ainda mais se a gente estiver preocupado com os pelos nas axilas. E isso preocupa, cá entre nós.

Tem gente que queria comer ele só porque ele era hetero. Particularmente? Acho isso um absurdo.

21 fevereiro 2010

Indie é a Mallu Magalhães

Ela me disse assim, sem mais nem menos, sem carinho e sem nenhum tipo de preparação para o meu estômago: ele era indie. Indie pra mim é quem ouve música underground, freqüenta locais underground, quem vai em qualquer lugar do Grupo Matriz, aqui no Rio. Devem existir outros Grupos Matriz pelo resto do país. Assim espero, a bebida lá é boa, mas eu não sou indie.

Indie pra mim se confunde um pouco com rock ou rock pra gays. Se confunde um pouco com emo, ou emos inteligentes e bem vestidos. Vestidos, porque emos se fantasiam. Indie não tem o preconceito que eu tenho.

E ele era indie. Ficou assustado quando chegou ao Rio pela primeira vez, sozinho, na rodoviária. A zona portuária do Rio é realmente de assustar. Ainda mais sendo indie. Vestindo colete grosso de linho, gravata, calça de tecido e calçando um All Star velho.

Alguns diziam que ele só era um menino pobre, morador de um bairro da periferia do fim do mundo, inteligente e que usava as roupas (e talvez o gosto musical ou ainda outros gostos) para se destacar no visual desagradável onde crescera. Ela pagava o quarto de motel pra eles.

Isso já dizia algo, porque dizia que ele comia ela. Ou talvez ela comesse ele, com molho Teriyaki, que era o nosso preferido. Mas aí ela me falou da roupa e da sua atitude cult-vintage-uso-roupa-de-brechó-mesmo. Só faltava ele saber quem era Lady GaGa. Pior se ele soubesse como pronunciar os primeiros versos de Bad Romance.

Mas ele ia em festa de rock, era indie e Lady GaGa é muito pop pra quem é efetivamente indie. Na periferia do fim do mundo também existe cultura indie e ele estava aí pra provar isso. Apesar de tudo isso, às vezes era ele quem ela queria. Principalmente à noite, quando os outros estavam de folga.

Aí ela falou sobre um carnaval, porque afinal de contas era carnaval. Outro carnaval. Me desculpem as histórias de carnaval. Mas meu carnaval só deixou isso: histórias.

E nessa história, o menino indie que dizia que não queria crescer e falava Peter Pan com a pronúncia mais correta possível, sem sotaque do fim do mundo nem da periferia de lá, esse menino beijou um menino. Ele era conhecido como Xuxa. Sim, a rainha dos baixinhos. Seu irmão também beijou ele. Mas nunca soube se o irmão era indie ou se era gay.

Vai ver é moda entre os indies. Vai ver é moda entre os emos. Eles são a moda da década. Os grunges já foram, outrora. Mas não, ele era indie. Devia ouvir Feist e Cat Power. E não é porque ele era gay, é porque ele era indie.



Ela pagava o quarto de motel, gente. Isso prova que o beijo na Xuxa não significa nada. Vai ver é sonho de infância. Vai saber. Vivendo na periferia do fim do mundo. Ou então ela gosta muito de molho Teriyaki. Eu gosto.


Ouvindo: Seven Nation Army – The White Stripes