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28 maio 2014

Raiva


Eu morro de raiva quando vejo você rodeado de amigos, fazendo coisas legais. Parece até que eles não veem o quanto você é chato, sem-graça e previsível. Aí eu me lembro de uma máxima que eu li em algum lugar. Provavelmente num pacote de biscoitos recheados ou na caixa da pizza daqui do bairro. A máxima dizia justamente isso: “As pessoas nunca conseguem perceber quando alguém é chato, sem-graça e previsível”. Só então, consegui encostar a minha cabeça no travesseiro e dormir em paz. Sabendo que o problema não estava comigo, estava com todo o resto do mundinho em que eu vivo. Esse bando de gente chata, sem-graça e previsível que nunca entende as minhas piadas nem leem pacotes de biscoitos recheados e caixas de pizza. Apesar de ter dormido em paz, a raiva permanece aqui. Não sei se você entende como isso pode acontecer, mas acontece. É como se você terminasse a garrafa de uma bebida muito cara com amigos ou como se você assistisse o último episódio de uma série longa sozinho. E essa raiva não passa por nada. Eu durmo, acordo, tomo banho e meus moderadores de apetite e a raiva não me larga. Dou uma olhada de novo nas suas fotos, dou uma olhada nos seus amigos. Passo o dia trincando os dentes e roendo as unhas, ao mesmo tempo. No fim da noite engato nos mesmos pensamentos e sonho com um musical. Você desce escadas iluminadas cantando em plenos pulmões a máxima da minha caixa de pizza.

04 agosto 2011

Gal


Tudo em volta está deserto e não há ninguém a quem culpar. Eu simplesmente não conheço mais aquele comedor de pizzas de calabresa que sonhava com beijos intermináveis e molhados. Agora os beijos são estranhos e as pizzas de calabresa causam azia.

Ao redor continua a casa construída pra gente viver, na certeza de que um dia nos amaríamos. E quem disse que eu quero arriscar? Quem disse que eu quero tentar? E é por isso que tudo em volta está deserto, de um jeito que eu nunca esperei porque dessa vez eu fui a pessoa que afastou os corpos sem vida de perto de mim.

Mas vale um copo de vinho e um cigarro aceso, lá pela metade, do que os beijos que causam azia e as pizzas de calabresa estranhas. Porque nada mais é interessante e nada mais é interminável. Assim como o desejo, o sonho também termina. Assim como a paciência, termina também o calor.

01 agosto 2011

Esse amor


Todo mundo sabe que a menina é feliz, que ela é sua menina e que ele é seu rapaz. Que os dias que passam sob as cobertas passam mais rápidos e mais quentes, ainda que seja junho. Ainda que estejam sempre nus em pêlos.

Todo mundo olha e vê que a menina é feliz, que ela é sua menina e que ele é seu rapaz. Que os movimentos das mãos dele pelo ombro dela enquanto andam de ônibus depois da sessão de cinema ali em Botafogo, chegam até os seios e os acariciam sem pudor algum ou vidro fumê.

Todo mundo sabe que ela é sua menina, anda toda rebolativa e com o sorriso de orelha a orelha. Não fala em outra coisa, só no cabelo reco e na camisa branca que ele usa debaixo da farda nos dias de semana.

Ele é seu rapaz. Que sai pra trabalhar cedinho, lembrando a noite de ontem no portão da casa dela ou na praia da Urca, sentados num banquinho entregues ao esconderijo que ela tanto amava.

Ele era seu rapaz. Pegava na mão dela com uma pornografia inédita e fazia carinho enquanto lanchavam na barraquinha de cachorro-quente. Nem as outras meninas que passavam em seus vestidos de festa lhe distraiam o olhar.

Era só ela e eles. Só esse amor que não cabia em um e que era único. Que de dia era sonho de padaria e de noite pizza entregue por motoqueiro. Era cigarro e refrigerante. Era inocência e tesão. E no tesão, inocência. Na inocência, uma gorda quantia de tesão.

07 abril 2010

Rodízio de Pizzas


O dia em que a Pizza de Pepperoni se encontrou no mesmo prato que a Pizza de Tomate Seco Com Rúcula foi um dia especial. Ainda me lembro que era dia de semana, terça-feira. Beirávamos o final de março e chovia torrencialmente do lado de fora da pizzaria. Estava vazia, apesar de já estar na hora do almoço. E quando digo vazia não falo só a respeito da área reservada ao rodízio. Me refiro à pizzaria como um todo. Das 40 mesas do local, não mais que 5 estavam ocupadas. Em uma delas, entre as doze e doze e trinta daquele dia chuvoso, no Rio de Janeiro, se encontrava o Obeso responsável por unir aquelas duas pizzas. Pizza de Pepperoni estava meio engordurada, enquanto Pizza de Tomate Seco Com Rúcula exibia imensas folhas de rúcula. Elas eram de um verde espetacular. Pizza de Pepperoni ainda se lembrava quando ouviu a voz do garçom, ali mesmo onde estava, naquele prato de porcelana barata. Ele disse: “Tomate Seco Com Rúcula?” Em seguida a voz do Obeso: “Desce.” Foram rápidos dois minutos nos quais habitaram o mesmo prato. As pizzas felizes, pois nunca imaginaram que se encontrariam assim. Foi uma surpresa. Pizza de Tomate Seco Com Rúcula ficou assistindo Pizza de Pepperoni ser ingerida. O Obeso levou menos de um minuto engolindo-a. Foi um momento emocionante. Suas folhas se arrepiaram, os tomates deixaram parte do azeite escapar, tamanha emoção. Pizza de Pepperoni se despediu com um aceno discreto e mal-educado. Deu pra sentir o cheiro apimentado no arroto do Obeso. Pizza de Tomate Seco Com Rúcula sabia o que aquilo significava. Logo estariam juntas novamente, para toda a eternidade, localizadas na imensa papada embaixo do rosto do Obeso, vivendo felizes para sempre.