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14 setembro 2014

As noites


E todas as noites me trouxeram aqui. Todas as músicas, todas as roupas, todos os lenços sujos. E eu nunca liguei realmente por estar sozinha porque eu me divertia com todos os que estavam comigo. Eu bebia, eu dançava, eu transava. Fazia tranças que atavam os meus cabelos aos de todos eles e, por isso, não nos separávamos nunca mais. Eram todas aquelas noites de cantoria e amor que faziam a minha felicidade. Era a voz do cantor do rádio, o sabor dos cigarros, o cheiro da multidão.

Eu nunca tive o que reclamar porque quando eu fechava os braços ao meu redor, pegava os corpos que dormiam espalhados em pé. A minha volta eram montanhas de roupas e sapatos, eram as noites de trovadores, eram os rastros. Passos de crianças que deixávamos nas areias para que soubéssemos voltar de onde tínhamos vindo. Era a doçura da juventude sem saber o quê ou o porquê.

20 junho 2014

Ainda não fiz 40


Ainda não fiz quarenta mas pareço um velho. Daqueles que se lembram de quando não existiam as prestações da casa e do carro. Que sentam na beira da praia e passam horas com um desconhecido contando as aventuras dos vinte anos em tantas noites que essa cidade proporciona. Hoje em dia passo a noite sentado vendo os meninos andando pra lá e pra cá atrás de sexo segurando um drink colorido.

Ainda não fiz quarenta mas tenho um monte de dor nas pernas e incontinência urinária. Algumas vezes fica impossível não passar vergonha na frente da possível transa da noite. Na maioria das vezes, nem tenho disposição pra procurar a tal transa e volto de mãos abanando sozinho dizendo que o que eu queria mesmo quando deixei minha casa era uma boa noite de bebedeira com os meus amigos e só.

Ainda nem fiz 40 mas não fico mais bêbado. Não importa o que eu bote pra dentro. Gasto toda a grana que eu poderia gastar naquele mês em uma noite e fumo todo cigarro que a venda dali debaixo oferece mas acordo com os olhos de quem dormiu o sono dos justos.

Não que eu não tenha dormido. Ah, eu durmo. Acho que não fico sem dormir há mais de três anos. É quase religioso. Mas é que dá uma vergonha quando me olho no espelho e vejo toda a minha juventude descendo pelas rugas que o tempo vai trazer pro meu pescoço. 

04 junho 2014

Bad Girl


Minha cama está cheia de cigarros quebrados e outros fumados. Já acordo e bebo um gole de qualquer coisa que esteja na minha cabeceira. Coca-cola, vodka ou óleo de rícino. Se eu me olho no espelho, vejo a menina de maquiagem estragada, de lábios rachados e a pele se esfarelando no rosto ossudo. Se não olho, não vejo nada.

Quando decido passar alguns dias na minha cama, sem tirar a camisola nem me levantar para escovar os dentes, fico imaginando como seria aparecer para você. Dizer que eu te amo e que você deve largar sua esposa. Depois fico imaginando se eu deveria chegar discretamente, me tornar amiga da família, madrinha da sua segunda filha e então transar com você na garagem da sua casa, enquanto ela faz o ensopado na cozinha.

Nessas horas eu peço para morrer. Porque eu não consigo aceitar ser assim, disposta a engolir os restos de um homem e destruir uma família. Mas acho que quando peço ninguém me ouve porque todos sabem que eu já bebi demais naquela altura do dia.

Tento imaginar que sou o tipo de garota que não vai fazer você sofrer, mas como ser assim se eu não consigo fazer com que o meu sofrimento pare? Eu só não quero ficar ainda mais triste.



07 setembro 2011

Dark room


De repente os olhos se fecham e só o que se sente é o cheiro de cigarro misturado ao de suor alcoólico daquela noite. E como toda noite é escura, os outros sentidos se aguçam nas pontas dos dedos da mão e nos fios de cabelo.

Quando sente a mão puxar os fios de cabelo tão ralos e finos, parece puxar dentro de si a noite escondida e toda a escuridão daquela noite. E como os olhos estão fechados, o que enxerga é o halo que semeia em seu peito cabeludo, debaixo dos anos que se passaram.

É como se todas as luzes se apagassem, consumidas pelas mordidas úmidas. As costas suadas e o toque do suor, que desce correndo pelo corpo trêmulo e escuro. Tomados pelo gozo combinado, aquele seca o corpo e banha a camisa xadrez.

Se o cheiro fosse suficiente. Se o toque dos dedos dissesse algo. Se o gemido e o elogio pudessem ser sentidos.

10 agosto 2011

Ilegais, imorais e gordos

menino do Rio
da caipirinha de maracujá e cinema na Voluntários
do temaki na Farani
"Quem segura o porta-estandarte Alcoolé Mini Bloco tem a arte"
"macaco quer banana?" Jack Kong
o único q pede 2 no Chico
responsável pela chaminé no meu albergue
forasteiro em Rio das Ostras (bem antes do Nova Lapa Jazz virar moda)
"rodoviária aqui? aff, senta lá!"
namorado de aluguel
ar arrogante
vinho dos desesperados
"careta vai queimar no mármore do inferno q é quente"
dados eróticos
réveillons de índio
apertador de bola Lucky
eleitor do presidente Kennedy (até Marilyn era)
caçador da escola campeã do carnaval 2010
samba canção...

só p dizer q os meus dias ficam mto mais ilegais, imorais e gordos com vc ^^

Isadora Pereira

05 julho 2011

25 anos



Ainda estão adiando fazer os 25 anos. Como se essa data fosse a filha da puta que te proíbe de ir em congressos de estudantes, encher a cara nas ruas da Lapa e conversar com desconhecidos na fila do metrô.

Bobeira. Eu mesmo vivo encontrando velhinha na fila do metrô puxando assunto. E velhinha bebendo na Lapa então? Não dá nos dedos de um time de futebol inteiro. Mas vai que eles, quando fizerem 25 anos, de repente, se tornem caretas?

Abandonam os brincos pendurados e os projetos de tatuagens que normalmente são horríveis ou de estrelas. Não que as estrelas não sejam horríveis e me desculpe quem tem estrelas tatuadas. Que não sejam no tornozelo, ao menos.

Pode ficar tarde demais para aquele copo de vodka ou whisky e claro que não pode faltar o Red Bull. Esse tipinho só pensa na hora que o limite de Red Bull acabar, mais ou menos junto com os benditos 25 anos. Daí eles terão que se contentar com garrafas de cerveja brasileira, dessas compradas por 4 reais e bebidas em copos de botequim acompanhadas de batata-frita excessivamente gordurosa.

E toda aquela gordura vai ficar ali, congestionada numa artéria ou acumulada debaixo do braço. Não haverá congresso de estudante ou micareta suficiente para tirá-la de seu lugar. Ela faz parte de você e você faz parte dos seus 25 anos. Ainda bem.