Ele nunca se lembrava dela. Só foi perceber isso em seu
leito de morte, quando olhou nos olhos de sua filha com a outra mulher e a viu
por completo. Os olhos castanhos e meio marejados que ela carregava para cima e
para baixo na juventude nunca lhe disseram nada, mas agora que estava enfim próximo
do fim, pareciam ter outro significado. Por alguns minutos ficou só olhando-os,
enquanto a menina que vira crescer falava milhares de coisas sobre como ele aparentava
estar bem e sobre o maldito prato de sopa que ele comera naquela tarde. Ele sabia
que estava morrendo e por isso não deu atenção àquelas baboseiras. Por isso e
por causa dos olhos dela que não saiam de sua cabeça. Pensou como seria se
tivesse escutado as palavras dela naquela época e como ela estaria agora. Se ainda
mantinha o mesmo peso, o mesmo cabelo sempre desgrenhado e a cara de cigana dos
nossos tempos com a maquiagem meio borrada e vulgar. Tinha certeza que os olhos
estariam os mesmos. Ou pelo menos era o que esperava. Fechou seus olhos e foi
tomado pela escuridão de suas pálpebras. Não fazia bem, nem àquela altura da
vida, sonhar com olhos de olhos abertos.
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16 maio 2014
29 julho 2011
Menina da vida
Não adianta agora dizer que ela não presta, se tudo o que ela fez foi seguir você. Agora você vai querer sentar de lado na poltrona rosa, olhar com esse seu olhar e dizer que não queria ela assim.
Se a menina hoje tem seus vazios entre o peito e as costas, tem a ver com o que você vivia dizendo pra ela, quando criança. Que nada como uma mulher que sabe se valorizar, que tem os pés no chão e a periquita longe dos vilões. E enchia os olhos de pânico quando dizia “vilões”.
Vai querer lamentar agora, enquanto tudo o que a menina tem a fazer é passar o rímel nos olhos e borrá-lo um pouco para lhe dar a aparência de uma cigana do nosso século. Ela parte andando, rebolando o pouco que tem, e não te olha por ter vergonha.
Talvez se você não fizesse assim, isso de se colocar desse jeito e abrir os olhos cheio de terror, talvez a menina aceitasse quem é. Vai que ela um dia desiste de maldizer teu nome toda vez que vira a esquina e dá de cara com um quebra-molas. Vai que, com o tempo, isso tabém passe.
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14 julho 2011
De olhos virados
Ele só não olhava para mim. Nem quando estávamos só nós dois. A televisão parecia mais atraente e até o cinzeiro lotado de guimbas apagadas. Passava horas a não me olhar e a não tocar meu corpo como eu desejava que tocasse.
E quando foi a hora de eu me ir embora, quando eu esperava que tudo mudasse e que, enfim, ele visse que eu estava alí ao seu lado esperando pelo conforto e pelo desejo que partia de cada um dos seus poros aquecendo os meus, nem nessa hora ele me viu.
O que viu foi meu corpo jogado na cama de casal vazia e meu pijama listrado desacompanhado no meio da madrugada. Entre um cigarro e outro fumado, entre uma palavra e outra falada, permanecia entre nós a distância que seu olhar matinha do meu.
Não pude fazer nada senão deitar para o lado esquerdo, imginando seu corpo jogado no seu lado da cama, quase único, sob a gravidade da tensão que mantinha nossos corpos tão separados. Ainda hoje sou capaz de dizer a cor daquela tensão, até seu cheiro. Porque seu cheiro permanece pairando no cômodo amadeirado enquanto dividirmos o mesmo luar.
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11 julho 2011
De olhos fechados
E todas as vezes que fecho meus olhos, vejo seus olhos me olhando, me encarando debaixo daquele chapéu de aba grosa e roxa. De um roxo escuro típico de fantasias infantis. Assim de lado, contraído pelas bochechas que sobem todas as vezes que você me sorri aquele sorriso que eu nunca consigo ver.
Eu não sei quem você é, mas sei quem são seus olhos. Eles falam para mim que me enxergam toda vez que eu fecho os meus olhos. E movimenta a cabeça assim, meio para a direita, deixando o chapéu pender para o lado e lhe dar um ar juvenil.
Quase tão juvenil quanto o roxo do chapéu ou o chiclete de tutti-fruti do qual sinto o cheiro. Talvez estejamos só mastigando chicletes, de olhos fechados, em duas esquinas distantes. Separados pela aba desse seu chapéu torto, sobre os olhos mais retos já visto na face da Terra.
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