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16 agosto 2010

Bunda suja


Eu lembro das vezes em que estive apaixonado. Foram poucas e rápidas, como o sexo de qualquer adolescente sortudo. Eu lembro que não fiquei bobo. Não como ficam os carinhas que deixam rolar, os que têm uns vinte e poucos anos. Eu lembro que eu beirava os quinze anos e era bem mais magro, mas isso não importa, né? O que importa é que eu lembro de não ter ficado com essa cara de idiota que eu vejo as pessoas estamparem nas fotos de perfil do Orkut, ou naquele crachá de funcionário do ano. Amor era e sempre será funcional. Assim acontece com os leoninos, ou é mais uma lenda sobre leoninos. Alguns diriam para o zodíaco inteiro ir se foder ali na esquina da Jorge Rudge com a 28 de Setembro. Mas eu fico só olhando as atualizações de Orkut, esperando que tamanho nojo me emagreça. Algo de bom eu tenho que tirar da internet. Preparo o balde vazio de frango frito, que comi, comprado ali no Hot’n Terder. Vai ser nele mesmo que eu vou vomitar. A culpa é sua, que deixa as coisas rolarem e faz cara de babaca na foto do perfil do Orkut. Sua e daquele inseto que insiste em me rondar no momento em que retorno cinco anos atrás, até as beiras dos meus quinze anos pra lembrar se eu fazia essa cara. Essa mesmo, de bunda suja, que dá nojo (vômito de novo). A cara, é óbvio, não era de bunda suja, mas as saboneteiras despontavam como hoje não despontam mais. Amor emagrece e solidão faz você ir ao rodízio japonês se empanturrar de sashimi comendo com elástico. Beber ice tea de pêssego não faz você engordar menos, porque afinal de contas, você está sozinho. Muito ou pouco, você irá engordar. Até encontrar alguém disposto a aturar suas banhas, pra você emagrecer de novo e fazer cara de bunda suja, ou começar a lutar contra esse instinto natural de fazer cara de idiota e estampar com ela a foto do perfil do Orkut. O seu perfil e o do resto do mundo.

01 agosto 2010

Eu posso


Eu também posso me arrumar e sair despercebido. Posso beber e não levantar minha voz. Eu posso fazer piadas e não ser nada ligado à sexualidade. Eu posso falar de futebol e de mulheres-frutas. Posso cuspir no meio-fio ou na rua inteira, você escolhe. Eu posso cantar “Parabéns pra você” e não ser a versão da Marylin Monroe. Posso usar gola pólo no lugar de gola V e não cantar nenhuma música da Beyoncé por uma semana. Da Lady GaGa eu posso ficar sem cantar por oito horas, é o meu melhor. Posso fazer noitada de pegação e beber cerveja quente. Posso até assistir filme do Eddie Murphy. E odiar musical. Posso comer churrasco no lugar de comida japonesa e não passar a língua no dedo pra limpar o molho Teriyaki que escorreu da minha temaki. Posso fazer compras e ser rápido. Posso nem gostar de fazer compras. Posso comprar um relógio discreto, quando eu tiver dinheiro. Posso ser controlado e não assistir Glee. Posso não ouvir música indie e posso não querer ler o livro do Chico Buarque. Posso nem gostar de Chico Buarque. Nem de Cat Power. Posso cagar e andar pros filmes dos anos 60. Posso não ligar pra fotografia noir. Posso não rir das piadas da Fernanda Young. Não visitar toda semana o papelpop.com. Posso usar perfume só pra sair. Paquerar na praia e virar os olhos pra ver quem passa por mim. Sabe aquele jeito que dá pena? Então, desse jeito mesmo. Eu posso. Posso não ter o DVD de Moulin Rouge, nem as músicas da trilha sonora e esquecer como se canta todas elas.

25 abril 2010

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A amiga daquele menino que é gay faria de tudo pra saber que ele era gay. Ou pelo menos saber da maneira certa. Aquelas conversas do tipo “preciso-te-contar-uma-coisa”, “você-não-pode-contar-pra-ninguém”.

O primeiro passo era falar bem dos homossexuais, mesmo aqueles estranhos que usavam cabelo com balaiagem ou aqueles que usavam calça xadrez. Fashionismo era coisa de gay. Fashionismo e Sex And The City. Daria certo falar sobre Sarah Jessica Parker.

Ele continuava lá, beijando meninos em noitadas escusas pelo centro da cidade, tão heterossexual quanto sempre fora. Não cantava Lady GaGa, nem pronunciava a palavra heterossexual. Só gays fazem isso.

O segundo passo foi andar com lésbicas, daquelas femininas, maquiadas, do tipo novela das oito. Aquelas modernas que ficam com meninas, meninos e com plantas carnívoras. Ela evitava as plantas carnívoras. Esse seria o último passo, mas ainda estava longe de lá.

Depois partiu pro desabafo. Falar de suas experiências. Aquelas imaginárias tipo sexo oral na vizinha de baixo, beijo triplo na última rave, mesmo aquela que ela nunca pisara. O amigo gay não demonstrava terror, nem estranheza. Era bem daquele tipo de hetero que não fala hetero e que é amigo de gays.

Mas isso é o que ela queria ser – a amiga do gay – ela pensava. Não é porque ele não canta Bad Romance, não gosta de comida japonesa e curte futebol que ele é heterossexual. Afinal de contas, eram amigos. Ela sabia o que ele era. E ninguém assegurava àquela menina determinada a garantia daquela teoria.

Ele, por outro lado, continuava irredutível. Ainda que algumas pessoas já soubessem. Ainda que ele falasse com elas com certa naturalidade sobre o assunto. Mas com ela o assunto era outro. Com ela, ele não sabia quem era Samantha ou Miranda.

Nas noitadas, ela abusava do álcool pra tomar coragem e levar o plano adiante. Beijava meninas, era a perfeita lésbica feminina, que se maquia e sai com todo tipo de gente – menos as plantas carnívoras. Ele só estava esperando que ela perguntasse.

26 fevereiro 2010

Aham, Cláudia, senta lá

Ele não recusava um convite para ir ao restaurante japonês e comia temaki cheio de desenvoltura, até virava os olhinhos só em ouvir falar da truta da Patagônia do Koni Store. Mas virar olhinhos nem sempre é uma atitude muito gay.

Ele não sabia nada sobre futebol, nem se importava que seu time estava na segunda divisão. Ele só dizia que torcia para aquele time porque seu avô o obrigara. É time de tradição, meu filho, neto meu não nega nossas raízes lusitanas. Ele nem sabia o que era segunda divisão.

Nunca soltou pipa com os meninos e sempre foi viciado em mangá. Principalmente aqueles que falavam de meninas com olhos estranhos, cabelos que variavam do lilás ao rosa-chá. Ele sabia a diferença entre lilás e rosa-chá.

Fingia que não sabia nada sobre blusa frente-única. Mas uma coisa era verdade, ele odiava Lil’ Wayne e funk. Uma festa que não tocasse Beyoncé ou Lady GaGa era uma festa perdida. Ele sabia as coreografias da Beyoncé, mas não gravava nada em vídeo caseiro para colocar no YouTube, afinal de contas, isso seria muito gay.

Ele era apaixonado por uma amiga nossa. Ela tinha namorado. Mas o namorado dela não curtia comida japonesa, não curtia Rihanna nem nunca lera um gibi (ou qualquer outro objeto que contenha letras). Por algum motivo, isso o tornava mais interessante.

Certa noite, ele foi visto numa boate gay. Blusa listrada, calça jeans e uns bons passinhos de musical da Broadway na memória. Bebia cerveja em copo descartável com o objetivo de ficar doido o suficiente para tirar a camisa e subir no queijo. Ele não malhava.

Exibia as axilas cheias de pelos. Mais uma herança do avô. Era o orgulho da avó, talvez por isso. Todo mundo quer um neto que tenha a axila cabeluda. Quanto mais pelos, mais responsabilidade, mais cedo ele se casaria com uma menina bonita e educada, de boa família, para irem juntos curtir uma comédia romântica depois de comer uma porção de sashimi de peixe branco.

Ele não usava a expressão curtir, nem qualquer outra gíria. Era antenado nos vídeos do momento e guardava as melhores frases para usar no seu dia-dia. Mas quando questionado se também era gay, negava.

Todo mundo percebia que ele era heterossexual. Não há gay que saiba dançar Single Ladies. Não há gay que sincronize os movimentos da mão e do pescoço tão bem quanto ele. Isso é puro preconceito. E isso não admitimos por aqui.


Mas naquela noite ele bebera muito. Nem sempre se consegue dosar direito o quanto de vodka com Red Bull devemos ingerir. E em determinado momento ele estava com algo pendurado no pescoço. E não eram os versos de uma canção da Gretchen. Não.

Aquilo tinha pés que calçavam entre 40 e 42 e aposto todos os episódios de Will And Grace que também tinha as axilas peludas. Sobravam traços da cultura ibérica naquele nariz.

Fiz meu papel e avisei. Não queria que ele passasse por gay. Às vezes a gente não sabe o que está pendurado no nosso pescoço. A gente pode nem sentir. Ainda mais se a gente estiver preocupado com os pelos nas axilas. E isso preocupa, cá entre nós.

Tem gente que queria comer ele só porque ele era hetero. Particularmente? Acho isso um absurdo.

21 fevereiro 2010

Indie é a Mallu Magalhães

Ela me disse assim, sem mais nem menos, sem carinho e sem nenhum tipo de preparação para o meu estômago: ele era indie. Indie pra mim é quem ouve música underground, freqüenta locais underground, quem vai em qualquer lugar do Grupo Matriz, aqui no Rio. Devem existir outros Grupos Matriz pelo resto do país. Assim espero, a bebida lá é boa, mas eu não sou indie.

Indie pra mim se confunde um pouco com rock ou rock pra gays. Se confunde um pouco com emo, ou emos inteligentes e bem vestidos. Vestidos, porque emos se fantasiam. Indie não tem o preconceito que eu tenho.

E ele era indie. Ficou assustado quando chegou ao Rio pela primeira vez, sozinho, na rodoviária. A zona portuária do Rio é realmente de assustar. Ainda mais sendo indie. Vestindo colete grosso de linho, gravata, calça de tecido e calçando um All Star velho.

Alguns diziam que ele só era um menino pobre, morador de um bairro da periferia do fim do mundo, inteligente e que usava as roupas (e talvez o gosto musical ou ainda outros gostos) para se destacar no visual desagradável onde crescera. Ela pagava o quarto de motel pra eles.

Isso já dizia algo, porque dizia que ele comia ela. Ou talvez ela comesse ele, com molho Teriyaki, que era o nosso preferido. Mas aí ela me falou da roupa e da sua atitude cult-vintage-uso-roupa-de-brechó-mesmo. Só faltava ele saber quem era Lady GaGa. Pior se ele soubesse como pronunciar os primeiros versos de Bad Romance.

Mas ele ia em festa de rock, era indie e Lady GaGa é muito pop pra quem é efetivamente indie. Na periferia do fim do mundo também existe cultura indie e ele estava aí pra provar isso. Apesar de tudo isso, às vezes era ele quem ela queria. Principalmente à noite, quando os outros estavam de folga.

Aí ela falou sobre um carnaval, porque afinal de contas era carnaval. Outro carnaval. Me desculpem as histórias de carnaval. Mas meu carnaval só deixou isso: histórias.

E nessa história, o menino indie que dizia que não queria crescer e falava Peter Pan com a pronúncia mais correta possível, sem sotaque do fim do mundo nem da periferia de lá, esse menino beijou um menino. Ele era conhecido como Xuxa. Sim, a rainha dos baixinhos. Seu irmão também beijou ele. Mas nunca soube se o irmão era indie ou se era gay.

Vai ver é moda entre os indies. Vai ver é moda entre os emos. Eles são a moda da década. Os grunges já foram, outrora. Mas não, ele era indie. Devia ouvir Feist e Cat Power. E não é porque ele era gay, é porque ele era indie.



Ela pagava o quarto de motel, gente. Isso prova que o beijo na Xuxa não significa nada. Vai ver é sonho de infância. Vai saber. Vivendo na periferia do fim do mundo. Ou então ela gosta muito de molho Teriyaki. Eu gosto.


Ouvindo: Seven Nation Army – The White Stripes