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13 junho 2014

Homens estranhos


Já passei por vários homens estranhos. Uns estavam de shorts e outros conheci no metrô. Todos passaram por mim como um temporal que passa por uma cidade despreparada e faz estrago. É claro que eles nem sabem o estrago que causam, eles não tem consciência, mas todos sem exceção acabaram um pouco comigo.

Os que falavam de cultura, mas agiam como trogloditas fizeram aflorar minha estupidez. Diante de tanta sabedoria dos maiores pensadores das gerações anteriores, eu tentava destacar meu batom vermelho em vão. Eles só querem lençóis sujos e um prato de comida para curarem a solidão da inteligência.

Os casados foram um caso a parte. Tantos porta-retratos quebrados de famílias inteiras. Ainda lembro-me de quando transei olhando as fotos daquelas crianças em seus primeiros dias na escola. Depois serviam café preto nas cozinhas limpas como um hospital e agradeciam pelo favor do gozo.

Presidentes, cabeleireiros, mestrandos e homens de banheiros. Todos arrancaram um pedaço do meu corpo e levaram pra onde talvez eu nunca mais os encontre. Até aí tudo bem pra mim. O pior é ter que lidar com mais. Saber que os próximos homens estranhos estão nascendo, sendo amamentados e fazendo cursos de inglês pra depois virem na minha direção.

19 agosto 2011

Teto


Eu só vesti a fantasia que dizia que eu era quem talvez um dia eu chegasse a ser. E não me venha com lições de moral, me dizendo que amanhã o dia pode ser melhor. O que eu preciso mesmo agora é de uma música que fale sobre felicidade ou que fale sobre nós dois. Ou de uma boa e grande caneca de café preto. Só pra me despertar desse sonho que andei vivendo esses dias, em vão.

E antes de dormir, cá estou eu, fazendo confissões pro teto do meu quarto. Uma sessão intensa de psicologia barata. Tão barata que nem sinto a diferença, seja no meu bolso ou nos meus ombros. O que dará certo é aquela conversa, tão simples que parece nova. Tão corriqueira que ninguém nem lembra.

Se vai dar certo pra você ou para os outros pacientes, eu não sei. Sei que o meu teto me olhou em silêncio, desviou o olhar por alguns segundos, como quem pensa no que vai dizer. Eu estava esperando um consolo, algo que afagasse essa dor aqui dentro. Só o que ele fez foi tirar da mesa ao lado um bloco e escrever meia dúzia de palavras em caneta preta.